Opinião
28/09/2026 | 10h49

Artigo | Integração de biometano e gás natural como vetor de descarbonização

Foto: Divulgação

José Mauro Cardoso*

Sinergia entre gás natural e biometano impulsiona a transição energética no Brasil, com avanço do mercado livre, expansão da infraestrutura e novas regras de certificação para indústrias e frotas

O debate sobre a transição energética frequentemente nos coloca diante de falsos dilemas. Um dos mais comuns, e equivocados, é a ideia de que diferentes fontes de energia precisam competir entre si como condição de sua existência. A realidade – e a própria história – nos mostram que o caminho mais eficiente e rápido para esse processo não passa pela substituição imediata de fontes energéticas consolidadas, por outras inovadoras, mais abundantes e/ou menos poluentes, mas sim pela capacidade de se adicionar novas alternativas à matriz, que contribuam para o reforço da segurança energética e que, sobretudo, permitam o tempo de maturação necessária para o ganho de escala e espaço de novos energéticos no mercado.

É sob essa ótica que devemos enxergar a relação entre o gás natural e o biometano no Brasil. Já é passada a hora de desmistificarmos uma premissa que, volta e meia, ainda repercute: a de que gás natural e biometano competem entre si. Nada mais equivocado – ou desconectado dos desafios reais desses mercados. Gás natural e biometano andam hoje em sinergia, em uma relação simbiótica e de complementaridade. Mais do que apenas moléculas intercambiáveis, os dois energéticos atuam de forma integrada, combinando infraestrutura, ganho de escala, competitividade e aceleração da descarbonização. 

Em tempos não tão distantes, usaríamos as próximas linhas para destacar as inúmeras premissas que suportam o potencial de oferta do biometano no país. Acreditamos que estamos em outro momento, em que a discussão sobre a oferta passa a dar lugar aos desafios sobre sua efetiva materialização e conexão com a demanda. Os números que merecem destaque refletem que essa oferta já é uma realidade: o país conta hoje com 21 plantas de biometano autorizadas pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) – nove delas localizadas no estado de São Paulo –, com capacidade instalada de aproximadamente 1,33 milhão de Nm³/dia, além de 48 empreendimentos em processo de autorização. Em 2025, a produção nacional de biometano cresceu aproximadamente 75%, passando de 606,6 mil metros cúbicos por dia, em 2024, para 1,06 milhão de metros cúbicos diários. 

O desafio da vez não passa mais por provar o potencial de oferta do biometano no país, mas sim pela construção de um mercado que conecte oferta e demanda, de maneira competitiva, escalável e eficiente. E é nesse contexto que a integração entre o gás natural e o biometano assume o pilar central desse desafio, servindo como alavanca motora de conexão desses mercados. Essa integração é favorecida, primeiramente, por uma característica básica fundamental: biometano e gás natural têm a mesma molécula predominante, o metano (CH₄). Isso permite que sejam utilizados de maneira intercambiável, facilitando a integração de infraestruturas, tecnologias e equipamentos, além de abrir espaço para a criação de inúmeras soluções envolvendo blends dos produtos – desejados e já aceitos pela demanda. 

Evidente, a partir disso, a enorme oportunidade que a infraestrutura do gás natural (existente e futura) oferece para o impulsionamento do biometano. O Brasil conta hoje com mais de 47 mil quilômetros de redes de distribuição de gás canalizado, uma malha que sem sombra de dúvidas traz oportunidades para o ganho de escala e competitividade do biometano, permitindo sua injeção, distribuição e utilização em diferentes mercados e geografias – em muitos dos quais a molécula física do biometano teria dificuldade de chegar, ou então de chegar em condições competitivas. Essa integração, contudo, não se limita às redes físicas. Em um país de dimensões continentais, a expansão do biometano passa também pela combinação de soluções off-grid, capazes de conectar diferentes geografias, escalas de produção e perfis de consumo.

O avanço do mercado livre de gás é outro elemento importante nessa equação. Em São Paulo, há pouco mais de dois anos, a presença de consumidores no mercado livre ainda era praticamente inexistente. Hoje, a migração de grandes e médias indústrias para esse ambiente já é uma realidade, impulsionada pela busca de maior flexibilidade contratual, competitividade e capacidade de gestão do suprimento. À medida que esse mercado amadurece, cria-se também um ambiente propício à customização de produtos energéticos e à incorporação do biometano como solução imediata. O biometano pode ser incorporado aos portfólios de suprimento do mercado livre de maneira dinâmica, permitindo que consumidores considerem a oferta desse produto nos seus diferentes perfis de consumo e, sobretudo, nos seus objetivos de descarbonização.  

Não menos importante, toda essa estrutura passa a ser suportada, sob a ótica econômica e regulatória, pelos mecanismos de certificação e rastreabilidade do atributo ambiental disponíveis. E o CGOB (Certificado de Garantia de Origem de Biometano), criado pela Lei dos Combustíveis do Futuro, e regulamentado pela ANP, representa avanço fundamental ao criar uma infraestrutura regulatória para identificação, rastreabilidade, movimentação e aposentadoria do atributo de origem do biometano, ampliando as condições para sua valorização econômica e utilização nos mercados regulado e voluntário. A possibilidade de identificação, rastreamento e valorização econômica do atributo ambiental do biometano, sob instrumento regulatório sólido, portanto, contribui substancialmente para a integração dos mercados de biometano e de gás natural, permitindo que o primeiro se desenvolva a partir da estrutura do segundo, reduzindo as limitações impostas pelos desafios logísticos e geográficos relacionados à dispersão da molécula física.

O diagnóstico a que se chega, a partir desses elementos, não poderia ser outro: enquanto o gás natural oferece ao biometano ganho de escala, demanda potencial, eficiência e competitividade, o biometano oferece ao gás natural uma solução imediata, eficiente e desejada de descarbonização. A integração desses dois mercados deve ser compreendida, portanto, não como uma mera oportunidade – muito menos como uma corrente teórica – mas sim como uma verdadeira necessidade, um vetor direcionador de ações concretas dos atores públicos e privados, em benefício do impulsionamento e crescimento conjunto desses dois mercados. 

Esse movimento já começa a aparecer na prática. Grandes empresas, inclusive multinacionais do setor de bens de consumo, vêm contratando biometano para reduzir as emissões de suas operações industriais, em produtos comerciais integrados com o gás natural. São movimentos que mostram que a demanda por energia de menor intensidade de carbono deixou de ser apenas uma discussão de longo prazo e passou a fazer parte da estratégia decisória imediata das empresas, que consideram as eficiências das soluções disponíveis. Os resultados ambientais dessa combinação são relevantes. Um estudo comparativo de ACV (Avaliação do Ciclo de Vida), do poço à roda, realizado pela ACV Brasil com a frota atual de veículos pesados na região Sudeste, aponta que o uso do biometano como único combustível pode reduzir em 87% as emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) em relação ao diesel. Já um blend com 50% de biometano e 50% de gás natural é capaz de reduzir as emissões em 56%. Além do elevado potencial de descarbonização, esses dados evidenciam as oportunidades que a integração desses energéticos oferece para a realidade de cada consumidor e setor. 

O transporte pesado é outra frente com enorme potencial de integração entre o gás natural e o biometano. Ônibus urbanos e caminhões de longa distância estão entre as aplicações em que a substituição do diesel produz ganhos relevantes – não apenas na redução das emissões de gases de efeito estufa, mas também na qualidade do ar. Experiências internacionais nos Estados Unidos, China, Espanha, Colômbia e Chile mostram que o biometano pode desempenhar um papel importante nesse processo. No Brasil, o potencial é ainda maior quando consideramos as inúmeras oportunidades de desenvolvimento do biometano, e, sobretudo, a dimensão do mercado de transporte rodoviário no país – que, vale ressaltar, já possui algum nível de desenvolvimento e familiaridade com a solução do gás natural.

Por todos esses elementos, insistir em uma competição fantasiosa entre gás natural e biometano pouco contribui para os desafios concretos da transição energética brasileira. O caminho mais eficiente nos parece estar justamente na direção oposta: aproveitar infraestrutura, escala, logística, consumidores e conhecimento já desenvolvidos pelo mercado de gás natural para impulsionar a inserção do biometano, ao mesmo tempo em que a molécula renovável oferece a esse mesmo mercado uma rota imediata e progressiva de redução de sua intensidade de carbono. Redes físicas, soluções off-grid, mercado livre e mecanismos confiáveis de certificação e rastreabilidade são partes complementares dessa mesma equação.

Com segurança jurídica, estabilidade regulatória, racionalidade econômica e liberdade de escolha para os consumidores, podemos assumir que gás natural e biometano não disputam espaço. Juntos, ampliam as alternativas e oportunidades para soluções energéticas mais seguras, competitivas e eficientes.

*José Mauro Cardoso é diretor institucional e jurídico da Edge, e mestre e doutorando em Direito pela USP (Universidade de São Paulo).

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