06/11/2026 | 13h00

Coalizão prioriza 15 medidas para descarbonizar transportes até 2030

Foto: Jair Xavier/Motiva

Giordano Barros, da Agência iNFRA

A Coalizão para a Descarbonização dos Transportes definiu 15 alavancas prioritárias, entre as 90 medidas mapeadas em 2025, para orientar a implementação de ações voltadas à redução das emissões do setor até 2030. A nova etapa da iniciativa, que reúne mais de 120 organizações, concentra cerca de 85% do potencial de descarbonização identificado pelo grupo para 2050 e prevê a criação de mecanismos de monitoramento para acompanhar os resultados e identificar obstáculos à execução dos projetos.

As prioridades incluem a expansão de ferrovias e hidrovias, a eletrificação de veículos, a ampliação do uso de biocombustíveis e medidas de eficiência operacional. Entre as propostas estão a modernização das frotas, a otimização de rotas ferroviárias, a redução do tempo de espera de embarcações nos portos, a expansão do transporte coletivo sustentável e o aumento do uso de combustíveis de menor emissão nos diferentes modais.

A presidente do Instituto Motiva, Renata Ruggiero, afirmou à Agência iNFRA que a nova etapa busca superar obstáculos que dependem da atuação conjunta de diferentes setores da economia. “O primeiro momento [em 2025] foi para a gente entender e conversar o que precisa acontecer. Este segundo momento é falar ‘agora o que a gente vai precisar fazer para destravar mesmo e acelerar essa agenda.’” 

Projeções elaboradas pela coalizão apontam que, sem novas ações, as emissões anuais dos transportes brasileiros poderão crescer 63% até 2050, passando de aproximadamente 260 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, em 2023, para 424 milhões de toneladas. 

A implementação das 90 medidas mapeadas poderia reduzir esse volume projetado em cerca de 68%, para 137 milhões de toneladas anuais. Para colocar todas em prática, por sua vez, a necessidade de investimentos ronda R$ 600 bilhões. Não há ainda uma estimativa de custos sobre as 15 rotas prioritárias.

A diretora executiva corporativa do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), Daniela Mignani, explicou que o novo ciclo amplia a integração dos trabalhos de transportes com as coalizões de energia elétrica, mineração e agricultura. A intenção é identificar obstáculos comuns e coordenar medidas que dependem de mais de um setor, especialmente nas áreas de eletrificação e biocombustíveis.

“Cada empresa e cada setor mantém a sua decisão de investimento, mas a gente passa a contar com uma agenda comum para enfrentar os obstáculos que cada setor ou empresa não consegue resolver sozinho”, afirmou Daniela.

A Coalizão para a Descarbonização dos Transportes começou a ser estruturada em 2024, com foco na elaboração de um diagnóstico sobre as possibilidades de redução de emissões. O movimento é liderado pelo CEBDS, pela Motiva, pelo Sistema Transporte (CNT, SEST SENAT e ITL) e pelo Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável do Insper, com apoio técnico do BCG (Boston Consulting Group).

Monitoramento e compromissos
Para acompanhar a implementação das prioridades, a coalizão desenvolveu uma estrutura de governança que prevê a centralização dos indicadores no Núcleo Intersetorial do Clima, plataforma que deverá reunir informações sobre os avanços das medidas de descarbonização e as condições necessárias à sua execução. No caso dos transportes, estão previstos mais de 100 indicadores, que permitirão acompanhar tanto a evolução das 15 alavancas prioritárias quanto o cumprimento das condições necessárias para viabilizá-las.  

Considerando também as coalizões de energia elétrica, mineração e agricultura, a previsão apresentada pelo CEBDS é de aproximadamente 33 alavancas, 66 habilitadores e 150 indicadores. A instituição ficará responsável pela coordenação executiva das coalizões e pelo acompanhamento dos resultados.

As alavancas prioritárias, segundo a coalizão:

  • Expansão dos modos ferroviário e aquaviário
  • Adoção de veículos híbridos
  • Expansão de veículos 100% elétricos
  • Aumento do uso de etanol
  • Aumento do uso de outros biocombustíveis
  • Modernização e renovação da frota atual
  • Otimização inteligente de rotas e frotas
  • Adoção de biocombustíveis como alternativa via mistura com diesel fóssil
  • Expansão de infraestrutura e otimização da gestão de atracação 
  • Viabilização da adoção de biocombustível em embarcações
  • Aprimoramento da gestão operacional e trajetórias de pouso e decolagem
  • Intensificação do uso de Bio-SAF
  • Adoção de mecanismos de otimização de rotas
  • Expansão do transporte coletivo sustentável, como faixas exclusivas de ônibus, trens urbanos e VLTs
  • Intensificação de soluções que promovam emissões veiculares próximas de zero

Investimentos
Um estudo divulgado em outubro pelo CEBDS, elaborado com a participação de Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander, além do apoio técnico do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e da EY, identificou oito barreiras que dificultam a transformação de recursos disponíveis em investimentos climáticos concretos.

O levantamento integra a contribuição brasileira ao Baku to Belém Roadmap to 1.3T, iniciativa que busca mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático para países em desenvolvimento até 2035.

Entre os principais obstáculos identificados estão a falta de projetos suficientemente preparados para receber financiamento, a ausência de contratos de longo prazo que garantam receitas futuras, dificuldades para compartilhar riscos e a inadequação das condições de crédito às características dos empreendimentos.

O estudo também aponta que 85% dos 35 grupos de atividades analisados entre os elegíveis ao Fundo Clima ainda não reúnem todas as condições que facilitam o acesso ao financiamento. A avaliação abrange atividades de diferentes setores da economia, incluindo transportes, indústria e energia, e considera as condições de mercado, não a viabilidade individual de cada projeto.

Segundo Mignani, projetos de baixo carbono que envolvem novas tecnologias ainda enfrentam dificuldades para acessar financiamento devido à falta de dados e de previsibilidade de receitas. “É preciso capitais mais pacientes pra investir nessas iniciativas”, afirmou. Mignani explicou que a estruturação desses projetos também exige tempo e aprofundamento técnico, além de condições de financiamento compatíveis com seus riscos e prazos de retorno.

Mudança da matriz
A ampliação da participação de ferrovias e hidrovias no transporte de cargas é uma das principais frentes priorizadas pela Coalizão para reduzir as emissões do setor. A proposta busca diminuir a dependência do transporte rodoviário, que ainda concentra a maior parte da movimentação de mercadorias no país. 

Segundo as projeções da Coalizão, a participação de ferrovias e hidrovias na matriz de transporte de cargas poderá passar de aproximadamente 30% para 55% até 2050. Entre as medidas priorizadas estão a otimização de rotas e frotas ferroviárias e a redução dos tempos de espera e atracação de embarcações.

A presidente do Instituto Motiva lembrou que muitos investimentos exigem uma escala mínima para acessar determinados instrumentos financeiros. Isso significa que a articulação entre empresas deverá avançar também na formação de projetos conjuntos, com condições técnicas e econômicas para receber financiamento.

A descarbonização também dependerá da substituição gradual dos combustíveis fósseis por alternativas de menor emissão nos diferentes modais, inclusive na parcela do transporte de cargas que continuará sendo realizada por rodovias. Para isso, a Coalizão priorizou o aumento do uso de etanol e de outros biocombustíveis no transporte rodoviário, sua adoção em operações ferroviárias e aquaviárias e a intensificação do uso de Bio-SAF, combustível sustentável de aviação produzido a partir de biomassa. As projeções da iniciativa apontam que o consumo anual de biocombustíveis poderá crescer de aproximadamente 30 bilhões para 55 bilhões de litros até 2050.

Articulação com o governo
A nova etapa da coalizão também prevê a intensificação da interlocução com o governo federal para viabilizar as propostas, principalmente em questões relacionadas a investimentos em infraestrutura, financiamento e regulação. As empresas pretendem apresentar as prioridades identificadas pela iniciativa à equipe de transição do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito em outubro. “Os diagnósticos já foram feitos, os estudos já foram feitos, os levantamentos já foram feitos. Agora é implementação na veia, acompanhar indicador e implementar”, afirmou a diretora executiva corporativa do CEBDS.

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