José Luis G. de Almeida e Walter Pinheiro*
O debate climático contemporâneo tem sido dominado pela expressão “transição energética”, frequentemente associada à ideia de substituição rápida dos combustíveis fósseis por fontes renováveis. Essa narrativa, embora politicamente atraente, é tecnicamente incompleta e, em muitos casos, enganosa. A realidade física, econômica e industrial do sistema energético global indica que os fósseis não desaparecerão no curto e médio prazo. Ao contrário, projeções recentes do mercado internacional, como as divulgadas por grandes tradings globais, apontam inclusive para uma possível superoferta de petróleo a partir da segunda metade desta década. O desafio central, portanto, não é a escassez dos fósseis, mas o impacto climático do carbono que eles carregam.
Nesse contexto, o conceito mais adequado é o de evolução energética. Evoluir significa transformar progressivamente o sistema existente, incorporando inovação tecnológica, eficiência, circularidade do carbono e captura de emissões, de forma alinhada aos compromissos climáticos globais e às metas de desenvolvimento sustentável. Só transforma quem inova; e só evolui quem combina inovação tecnológica com políticas públicas reais, capazes de gerar soluções economicamente viáveis, socialmente inclusivas e territorialmente alcançáveis.
O biometano ilustra bem essa lógica evolutiva. Regulamentado como metano renovável de origem biogênica, seja por digestão anaeróbia, gaseificação de biomassa ou pela rota sintética via hidrogênio renovável e CO₂ biogênico, ele desempenha um papel relevante no curto e médio prazo. Ao evitar emissões fugitivas de metano e substituir o gás natural fóssil, o biometano reduz o pico de aquecimento nas próximas décadas. No entanto, ele não remove CO₂ da atmosfera. Após seu uso energético, o carbono retorna ao sistema climático sob a forma de CO₂, com tempo de permanência de séculos. Trata-se, portanto, de uma solução carbon-neutral, mas não carbon-negative.
Essa constatação não diminui sua importância, mas esclarece seus limites. O biometano evita que o problema climático se agrave, mas não resolve sua causa estrutural. Isso vale para outras soluções de mitigação, como os combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), os e-fuels e as rotas ETL (Emissions-to-Liquids): todas reduzem emissões ou reciclam carbono, mas não diminuem o estoque atmosférico de CO₂.
Se o problema climático fundamental é o estoque de carbono acumulado, a solução de longo prazo exige remoção permanente de CO₂. Tecnologias de Carbon Dioxide Removal, como mineralização em carbonatos estáveis e armazenamento geológico, são as únicas capazes de atacar a raiz física do aquecimento global. A verdadeira evolução energética, portanto, não está em abandonar abruptamente os fósseis, mas em evoluir sua utilização, capturando, transformando e imobilizando o carbono associado a esses processos, enquanto se constrói uma nova economia de baixo carbono, inovadora, inclusiva e compatível com os compromissos do milênio e aplicando à nova economia fonte renovável sustentável, isso é evolução, que com arcabouço jurídico e fomento disponíveis podemos realizar de imediato.
*José Luis G. de Almeida e Walter Pinheiro são diretores do Senai Cimatec-Bahia, instituição referência em tecnologia e inovação.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.


