Opinião
01/12/2025 | 11h46

O bem-estar das cidades por cima das pontes e viadutos

Foto: Divulgação

Lígia Mackey* e Vinicius Marchese**

A Engenharia é uma ciência a serviço da vida. E poucas áreas demonstram isso com tanta clareza quanto a infraestrutura viária – especialmente as pontes e viadutos que sustentam a mobilidade e a economia do país. Mais do que obras de engenharia, essas estruturas representam conexões que garantem a mobilidade, a integração territorial e o desenvolvimento econômico e social das cidades. Preservá-las é garantir segurança à população e eficiência ao sistema viário.

Com o passar do tempo, o tráfego intenso, as variações climáticas e a falta de manutenção comprometem o desempenho e a segurança das estruturas. A inspeção periódica surge, portanto, como ferramenta essencial para detectar precocemente anomalias, avaliar o estado de conservação e planejar intervenções preventivas – reduzindo custos públicos e, sobretudo, evitando tragédias.

Dados oficiais do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e da Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo), mostram a urgência do tema: o Brasil tem mais de 113 mil pontes e viadutos, e cerca de 11 mil estão em situação precária. O colapso da ponte Juscelino Kubitschek, no Rio Tocantins, em dezembro de 2024, reforçou a necessidade de fiscalização contínua e manutenção preventiva.

Diante desse cenário, o Crea-SP reforça seu papel como agente técnico do poder público. Criamos um Comitê de Fiscalização de Pontes e Viadutos no âmbito da autarquia para apoiar os municípios na inspeção e conservação dessas obras. O objetivo é conscientizar sobre a importância da manutenção e garantir que esse trabalho seja conduzido por profissionais habilitados e registrados, assegurando a proteção da população e o exercício responsável da Engenharia.

É com esse propósito que o Conselho disponibiliza o “Manual de Inspeção em Estruturas de Concreto – Pontes e Viadutos”, desenvolvido pelo Comitê em parceria com o Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia) e a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). O material foi elaborado como instrumento de orientação técnica para apoiar profissionais, gestores públicos e entidades de fiscalização na condução de inspeções em obras de arte especiais. Ele reúne conceitos fundamentais, orientações práticas e procedimentos padronizados que contribuem para a uniformização das atividades de inspeção e manutenção em todo o estado de São Paulo.

Do ponto de vista técnico, o documento aborda exemplos práticos de manifestações patológicas em estruturas – como corrosão das armaduras por carbonatação ou cloretos, fissuras de origem térmica, estrutural ou por recalque, lixiviação, desagregação superficial do concreto e destacamento do cobrimento das armaduras (spalling). Também descreve sintomas visíveis ou mensuráveis dessas ocorrências, como manchas de umidade na face inferior do tabuleiro, desprendimento de concreto, fissuras longitudinais ou transversais, desníveis entre vãos, aparelhos de apoio travados ou deslocados e eflorescências indicativas de infiltração de água.

Compreender esses sinais é essencial para diferenciar manifestações inofensivas de situações críticas, que exigem intervenções imediatas. É essa visão técnica e preventiva que o manual busca disseminar entre gestores e engenheiros, promovendo decisões baseadas em diagnóstico preciso, critérios normativos e responsabilidade técnica.

A participação do profissional habilitado é indispensável em todas as etapas. Somente o olhar técnico assegura que as avaliações sejam conduzidas com precisão e que os registros reflitam as condições reais das estruturas, garantindo a durabilidade das obras e a segurança dos usuários. O documento também reforça a importância da NBR 9452:2023, norma que estabelece os critérios de inspeção e classificação das condições de pontes e viadutos no Brasil – referência fundamental que orienta o trabalho técnico de campo.

Esse trabalho reforça uma diretriz que o Crea-SP vem consolidando: subsidiar o poder público com conhecimento técnico e científico. A elaboração do parecer sobre a requalificação da Favela do Moinho e a realização do Fórum de Políticas Públicas, que percorre o estado desde 2024 discutindo temas como mobilidade, saneamento e eficiência energética, são exemplos da aproximação entre a Engenharia e a gestão pública.

O Manual de Pontes e Viadutos é, portanto, mais do que um conjunto de diretrizes. Ele expressa o compromisso do Crea-SP com a valorização da área tecnológica e com a cultura da manutenção preventiva, fortalecendo a cooperação entre profissionais e gestores. Ao oferecer uma base sólida e padronizada para as inspeções, o documento contribui para prevenir riscos, otimizar recursos e promover cidades mais seguras e sustentáveis. O compromisso é seguir atuando com dados, ciência e responsabilidade técnica. A prevenção é sempre mais eficiente – e mais humana – do que a reação. 

*Lígia Mackey é engenheira civil com mais de 30 anos de atuação no mercado de construção civil e presidente do Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo).

**Vinicius Marchese é engenheiro de telecomunicações e presidente do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia).

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