Leonardo Ribeiro*
O ano de 2026 marca um ponto de inflexão na logística ferroviária brasileira. As ferrovias privadas do tipo shortline – linhas curtas conectadas a corredores ferroviários e polos produtivos – começam a sair do papel e entrar em fase de construção, consolidando uma nova indústria ferroviária no país. Trata-se de um movimento planejado, resultado direto de decisões institucionais tomadas na gestão do ministro Renan Filho para transformar autorizações em infraestrutura ferroviária real.
Esse movimento ganha materialidade concreta com o evento de lançamento da primeira shortline ferroviária do Brasil. Seja bem-vinda a ferrovia EF-A35, da empresa Arauco Celulose Brasil. O projeto simboliza a transição das autorizações do plano normativo para o mundo real das obras e dos trilhos.
Essa é uma ferrovia privada que demonstra, na prática, o papel das shortlines como elo entre grandes projetos industriais e os corredores ferroviários estruturantes. Não se trata de substituir concessões troncais, mas de complementá-las com soluções eficientes, dedicadas e financeiramente sustentáveis.
A autorização concedida à Arauco é um projeto que nasce na gestão do ministro Renan Filho. Trata-se da primeira autorização ferroviária após a derrubada dos vetos da Lei 14.273 (Marco das Ferrovias), que se origina do PLS 261/2018 do ex-senador José Serra.
A revisão do marco legal das ferrovias lança trilhos para que a Secretaria Nacional de Transporte Ferroviário destrave projetos. Com previsibilidade regulatória, coordenação institucional e alinhamento das autorizações a um planejamento nacional integrado, o Ministério dos Transportes lança a maior carteira de projetos ferroviários da história.
Com a revisão da lei de ferrovias, o Estado brasileiro eleva o padrão regulatório, com exigências mais rigorosas de engenharia e comprovação efetiva da capacidade econômico-financeira dos empreendimentos. O objetivo é claro: assegurar que as autorizações ferroviárias sejam assumidas por empresas sólidas, capazes de executar obras e operar ativos com visão de longo prazo.
Nesse novo ambiente institucional, o governo avança na agenda de autorizações. Foram outorgados doze projetos voltados especificamente ao desenvolvimento de shortlines, com extensão média de 67 quilômetros.
O projeto ferroviário da Arauco é uma estrada de ferro de 46 quilômetros, em bitola larga, no município de Inocência (MS), destinado ao escoamento da produção do Projeto Sucuriú, a maior planta industrial de celulose do mundo, cujo montante investido pela empresa alcança R$ 25 bilhões. O investimento privado na ferrovia é de cerca de R$ 3 bilhões.
O traçado ferroviário conecta a planta industrial à estação ferroviária de Inocência, atualmente concedida à Rumo Malha Norte, por meio de um pátio de cruzamento com aproximadamente 2,6 quilômetros de extensão. O cronograma prevê início das obras em fevereiro de 2026.
Do ponto de vista operacional, o projeto incorpora soluções modernas que aumentam a segurança, reduz o tempo de operação e otimiza o uso dos ativos. A ferrovia vai operar com locomotivas modernas, compatíveis com a malha existente e velocidade operacional de até 80 km/h.
O impacto logístico e ambiental é relevante. Cerca de 95% da produção de celulose será transportada até o Porto de Santos, reduzindo a dependência do transporte rodoviário de longa distância, com ganhos em competitividade, segurança viária e redução de emissões de poluentes.
Nessa perspectiva, as autorizações cumprem um papel estratégico nos sistemas ferroviários modernos. Elas representam a chamada “costura fina” da logística: conectam a produção local e a indústria aos grandes corredores troncais, reduzem custos de transporte e aumentam a eficiência operacional. Em países com sistemas ferroviários maduros, como os Estados Unidos, uma shortline ferroviária é parte central da organização da malha ferroviária nacional.
No Brasil, por décadas, esse potencial permaneceu subexplorado, limitado pela ausência de um ambiente regulatório claro. No novo cenário, o avanço das shortlines representam uma indústria ferroviária complementar, capilarizada e conectada ao território produtivo.
Ao revisar o marco legal e atrair empresas capazes de investir, o governo federal criou as condições para que as autorizações ferroviárias deixassem de ser expectativas e se transformassem em trilhos. O lançamento do projeto da Arauco é o símbolo desse novo momento. A partir de 2026, o Brasil começa a colher os resultados de uma política pública que transforma regulação em investimento, planejamento em obras e intenção em infraestrutura concreta.
*Leonardo Ribeiro é secretário nacional de Transporte Ferroviário.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.


