Rafael Bitencourt, da Agência iNFRA
Técnicos do MRE (Ministério das Relações Exteriores) trabalham na avaliação de riscos e oportunidades de eventual adesão do Brasil à estratégia dos Estados Unidos para diversificar a cadeia de suprimento de minerais críticos. Fonte do governo brasileiro disse, à Agência iNFRA, que até a última sexta-feira (6) nenhum convite formal havia sido entregue ao Brasil após a reunião com 54 países na última semana.
A chamada “Reunião Ministerial sobre Minerais Críticos de 2026”, em Washington, na última quarta-feira (4), foi acompanhada por integrantes da embaixada brasileira nos EUA. Esses diplomatas ficaram encarregados de relatar ao Itamaraty o plano apresentado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo vice-presidente do país, JD Vance.
Reconhecida como uma ofensiva contra o domínio da China, a formação de um bloco de países para diversificar a cadeia de minerais críticos pode envolver custos diplomáticos e comerciais para quem fizer parte, disseram representantes do setor de mineração ouvidos pela Agência iNFRA.
O presidente do Conselho Deliberativo da ABPM (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração), Luiz Maurício Azevedo, disse que o setor mineral vai sempre querer “avaliar qualquer oportunidade” de trazer novos investimentos. Contudo, ele ressalta que, antes de ceder a “determinadas condições” dos EUA, vale lembrar que a China é o maior parceiro comercial do Brasil.
“Não adianta nada fecharmos questão em relação a terras raras e abrirmos um flanco para o minério de ferro, que a China é nosso maior comprador”, ressaltou Azevedo. “Tudo tem que ser muito bem pensado, ser visto de uma forma holística”, acrescentou.
Esse tipo de ponderação já deve estar sendo feita neste momento pelo Itamaraty, avalia Frederico Bedran, diretor-executivo da AMC (Associação de Minerais Críticos). Ele justifica dizendo que as relações do Brasil com o resto do mundo foram sempre marcadas pelo “pragmatismo” e “neutralidade diplomática”.
Bedran reconhece que existe fundamento na preocupação dos americanos com a alta concentração da produção e do refino nas maõs dos chineses. “Tudo bem ter cautela, tem mesmo que estar alinhado aos objetivos dos diversos governos, mas se o ocidente está se rearranjando, se de repente conseguir estabelecer preços mínimos, uma proposta dos EUA talvez seja bem-vinda”, disse.
Pequim tem sido acusado, principalmente pela Europa e pelos EUA, de praticar preços artificiais para inviabilizar novas frentes de produção. Críticos acusam os chineses de ampliar a oferta de minerais críticos quando surgem novas iniciativas.
“A China tem capacidade muito maior do que todos nós de colocar esse material. Também é o maior consumidor, dentro do seu parque industrial”, destaca Azevedo
A ideia de estabelecer preços mínimos para a oferta de minerais críticos agrada as mineradoras envolvidas nos projetos. A queda repentina dos preços é capaz de diminuir ou até paralisar empreendimentos em fase de produção. O assunto foi abordado durante a reunião de Washington.
A mineradoras mais engajadas no segmento são as junior companies, de porte médio. Essas empresas contam com profissionais especializados na prospecção de terrenos, estruturação de projetos e captação financeira. As grandes mineradoras costumam entrar no negócio na fase de menor risco, quando foi iniciada a produção.
‘Dever de casa’
Enquanto a expectativa com a atração de novos investimentos estrangeiros não se confirma, as junior companies aguardam pelo aprimoramento do marco regulatório no Brasil. Azevedo considera que esse “dever de casa” não pode deixar de ser feito. Para ele, além disso, falta o governo sinalizar e garantir aos investidores que o Brasil oferece “segurança jurídica” aos projetos.
Para Bedran, não adianta atrair a atenção do mundo para o potencial das reservas se não houver um “posicionamento claro” sobre o que o país busca com a exploração dessas minerais. Ele reclama de ruídos causados por declarações de autoridades contrárias à atividade mineral no Brasil.
“É juntamente com isso que chegam os instrumentos para desenvolvimento da cadeia, como mecanismo de garantia e incentivos para a agregação de valor que o setor tanto precisa”, afirmou o diretor da AMC.





