06/11/2026 | 15h38  •  Atualização: 06/11/2026 | 17h04

Eletrificação esbarra em custo da energia e infraestrutura de recarga

Foto: Divulgação/InsideEVs Brasil

Giordano Barros, da Agência iNFRA

A expansão da eletrificação dos transportes no Brasil enfrenta obstáculos relacionados ao custo da energia elétrica, à disponibilidade de infraestrutura de recarga e à falta de coordenação entre os investimentos em veículos elétricos e na rede necessária para abastecê-los. Esses são alguns dos desafios identificados pela Coalizão para a Descarbonização dos Transportes, que definiu 15 alavancas prioritárias para acelerar a redução das emissões do setor até 2030.

A iniciativa, que reúne mais de 120 organizações, incluiu entre suas prioridades a adoção de veículos híbridos, a expansão da frota de veículos 100% elétricos e a intensificação de soluções que promovam emissões veiculares próximas de zero. A implementação dessas medidas deve ser feita em atuação conjunta de fabricantes, transportadoras, concessionárias de rodovias e empresas do setor elétrico.

Segundo Renata Ruggiero, presidente do Instituto Motiva, um dos principais entraves está na dificuldade de conciliar a expansão da frota elétrica com os investimentos na infraestrutura de recarga. Enquanto as empresas responsáveis pelos eletropostos precisam de demanda suficiente para justificar os aportes, a aquisição de veículos elétricos depende da existência de uma rede capaz de atender às necessidades dos usuários.

“Fica aqui o que vem antes, o ovo ou a galinha. O ator que investe em infraestrutura de recarga, vai investir quando ele falar que tem volume o suficiente de carro elétrico para usar. Ao mesmo tempo, o crescimento dos carros elétricos não avançam porque dependem da infraestrutura de recarga. Então [a ideia da Coalizão] é um pouco da gente garantir que tenha atores conversando e coordenando seus planos de investimento conjuntamente para que a gente possa acelerar as ações”, diz Renata.

O desafio é especialmente relevante no transporte rodoviário de cargas. Segundo a executiva, a eletrificação dos veículos pesados ainda enfrenta obstáculos relacionados ao preço e à eficiência das tecnologias disponíveis.

Custo da energia
Outro obstáculo à eletrificação é o preço da energia elétrica. Segundo a diretora-executiva corporativa do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), Daniela Mignani, a elevação dos encargos do setor elétrico compromete a competitividade da eletricidade em relação a outras fontes de energia e pode dificultar a substituição dos combustíveis fósseis.

“Nesses últimos 15 anos quase 300% dos encargos [de energia elétrica] cresceram. Se a gente não tratar essa questão também de subsídio, a gente não torna a nossa eletricidade competitiva, o custo final é muito mais caro”, afirma.

Além do custo da energia, o financiamento de projetos de baixo carbono que envolvem novas tecnologias também enfrenta dificuldades. Segundo Daniela, a falta de dados sobre o desempenho dessas soluções e de previsibilidade de receitas pode dificultar o acesso ao crédito, especialmente em empreendimentos que exigem investimentos elevados e apresentam prazos mais longos de retorno.

Um estudo divulgado em outubro pelo CEBDS, elaborado com a participação de Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander, além do apoio técnico do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e da EY, identificou oito barreiras que dificultam a transformação de recursos disponíveis em investimentos climáticos concretos.

Entre elas estão a falta de projetos preparados para receber financiamento, a ausência de contratos de longo prazo capazes de garantir receitas futuras, as dificuldades de compartilhamento de riscos e a inadequação das condições de crédito às características dos empreendimentos.

Projetos de eletrificação
Um dos exemplos é o projeto Laneshift e-Dutra, que reúne empresas e organizações para viabilizar uma infraestrutura de recarga de caminhões elétricos ao longo da Rodovia Presidente Dutra, entre São Paulo e Rio de Janeiro. A iniciativa, lançada durante a COP30, em 2025, tem como meta permitir mil viagens diárias de caminhões com emissão zero até 2030.

O projeto ainda está em fase de estruturação. As empresas participantes, entre elas a Motiva, vêm discutindo modelos para viabilizar a infraestrutura necessária.

Outro projeto é o Corredor Logístico Sustentável Multimodal da Motiva RioSP, aprovado pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) em setembro para implantação na Rodovia Presidente Dutra.

Conforme noticiou a Agência iNFRA, a iniciativa prevê investimentos estimados em R$ 116 milhões e será desenvolvida ao longo de 24 meses em um sandbox regulatório.

Do total previsto, cerca de R$ 104 milhões estão relacionados à eletromobilidade, sendo R$ 84 milhões para a substituição gradual de 253 veículos elegíveis da frota operacional e administrativa por modelos eletrificados e R$ 20 milhões para infraestrutura de recarga.

Transporte coletivo
“A questão de mobilidade urbana é um ponto relevante porque o transporte responde por grande parte das emissões das cidades, então a gente estruturar, ampliar as redes de transporte coletivo sustentável é superimportante”, aponta Renata Ruggiero.

Por essa razão, a eletrificação também integra as propostas da coalizão para reduzir as emissões da mobilidade urbana. As medidas combinam a substituição de veículos por alternativas menos emissoras, a ampliação dos sistemas de transporte coletivo sustentável e a redução da necessidade de deslocamentos por meio de melhorias no planejamento urbano.

Um levantamento da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos), divulgado em março de 2026, aponta que os deslocamentos motorizados em 533 municípios brasileiros foram responsáveis pela emissão estimada de 30,25 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2024. Desse total, 62% vieram dos automóveis, 32% dos ônibus urbanos e metropolitanos e 6% das motocicletas.

Entre as prioridades da Coalizão estão a expansão de corredores exclusivos de ônibus, sistemas de metrô, trens urbanos e VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), além da eletrificação das frotas de transporte público.

As projeções apresentadas pelo grupo apontam que o Brasil poderá contar com aproximadamente 300 mil ônibus elétricos em circulação até 2050, enquanto os veículos leves eletrificados poderão representar mais da metade da frota nacional.

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