Guilherme Solleiro*
Em um país com dimensões continentais como o nosso, a infraestrutura crítica é mais do que um ativo estratégico: é o próprio alicerce do funcionamento da sociedade. Energia, transporte, saneamento, telecomunicações e segurança pública formam a espinha dorsal que sustenta nossa economia e o bem-estar da população. Quando essa infraestrutura falha, o impacto é imediato. Apagões paralisam indústrias, estradas interditadas isolam regiões, sistemas de comunicação fora do ar comprometem serviços essenciais, e ataques cibernéticos podem atingir setores inteiros da economia.
Apesar da relevância, os investimentos no setor ainda estão abaixo do necessário. Em 2024, os aportes alcançaram R$ 260,6 bilhões, um crescimento de 15,4% em relação a 2023, segundo EY-Parthenon e Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base). Esse recorde foi puxado pela iniciativa privada, que ampliou sua participação em 22,3%, enquanto o setor público recuou 7,6% diante de restrições orçamentárias. No total, os investimentos representaram 2,27% do PIB, menos da metade do nível considerado adequado para suprir as necessidades estruturais do Brasil.
Para 2025, a projeção é de R$ 277,9 bilhões (cerca de 2,2% do PIB), com mais de 70% dos recursos vindos do setor privado. Nesse contexto, o Novo PAC representa um esforço de coordenação. Lançado em 2023, prevê R$ 1,68 trilhão em investimentos, dos quais R$ 1,3 trilhão até 2026.
Até abril de 2025, já tinham sido executados R$ 711 bilhões, ou 53,7% da meta. Ainda assim, a confiança do mercado precisa ser fortalecida: apenas 2,36% dos investidores acreditam que as metas vêm sendo cumpridas como planejado, segundo a CNI (Confederação Nacional da Indústria). Esse dado reforça a importância da transparência, governança e melhor articulação entre União, estados e municípios.
A urgência dos investimentos se deve ao déficit acumulado em infraestrutura, estimado em US$ 800 bilhões. Para superar esse gargalo, seria necessário elevar os aportes anuais a pelo menos 3,7% do PIB até 2030. Mais do que expandir rodovias, portos ou linhas de transmissão, o país precisa também modernizar e conservar os ativos existentes.
Um exemplo positivo dessa modernização está no saneamento. Desde a aprovação do marco legal, estados e municípios que abriram espaço para o investimento privado já começam a apresentar avanços relevantes. Segundo a Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental), cerca de 94% dos municípios com novos contratos após 2020 ampliaram a cobertura de água ou esgoto. Em estados como Alagoas e Mato Grosso do Sul, indicadores de universalização avançam de forma acelerada, mostrando que a combinação de regulação clara e capital privado pode, de fato, encurtar o caminho rumo à meta de 99% de água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033.
O ganho em produtividade também é central nesse debate. A economia brasileira sofre com estagnação desde os anos 1980, enquanto países emergentes como Coreia do Sul e China conseguiram dar saltos de eficiência apoiados em infraestrutura robusta.
Hoje, estudos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) indicam que cada aumento de 1% nos investimentos em infraestrutura pode elevar em até 0,5% a produtividade total dos fatores. Em um país onde 65% do transporte de cargas depende de rodovias em más condições e apenas metade da população tem acesso a coleta de esgoto, os gargalos se transformam em barreiras diretas ao crescimento econômico e à competitividade global.
Esse desafio é também qualitativo. A crise climática impõe novas demandas: enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 comprometeram hidrelétricas, estradas e aeroportos, enquanto secas no Nordeste ameaçam o abastecimento de água e a geração de energia. Investir em infraestrutura resiliente deixou de ser opção, é condição de sobrevivência.
Ao mesmo tempo, a digitalização transforma a noção de infraestrutura crítica. Tecnologias como inteligência artificial e análise de dados já ajudam a prever falhas em redes elétricas, identificar riscos em barragens e otimizar fluxos de transporte. Experiências internacionais mostram que é possível integrar serviços em tempo real, reduzindo custos e aumentando a confiabilidade. Para o Brasil, essa digitalização representa não apenas modernização, mas um salto estratégico para aumentar a competitividade.
Mas o avanço digital traz riscos. O ataque cibernético de 2024, atribuído ao hacker “Azael” e que afetou órgãos como a Marinha, Petrobras, ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) e STJ (Superior Tribunal de Justiça), mostrou a vulnerabilidade do país. Segundo relatórios internacionais, o Brasil já está entre os alvos prioritários da América Latina. Um apagão digital pode gerar prejuízos comparáveis à queda de uma barragem ou à interdição de uma rodovia. Justamente por isso, o avanço na segurança cibernética se apresenta como um dos setores mais promissores para investimento estratégico.
A mensagem é clara: o Brasil não pode apenas ampliar sua infraestrutura crítica. É preciso modernizá-la, protegê-la e integrá-la tecnologicamente, assegurando eficiência, resiliência e segurança. Com planejamento de longo prazo, investimentos consistentes e integração entre inovação e políticas públicas, o país tem condições de transformar vulnerabilidades em oportunidades e estagnação em ganhos reais de produtividade.
Trata-se de criar um ecossistema de infraestrutura capaz de sustentar nosso desenvolvimento por décadas. Mais do que uma agenda econômica, é um compromisso com a soberania nacional e com o bem-estar da sociedade brasileira.
*Guilherme Solleiro é CEO do Grupo Indra no Brasil.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.


