Análise: Frio europeu começa a chegar e eleva tensão com crise energética

Roberto Rockmann*

Na Alemanha, a venda de velas tem batido recordes. Finlandeses com carros elétricos têm sido alertados para não carregar suas baterias no início da manhã para evitar sobrecargas sobre a rede. Suíços talvez tenham de abandonar os carros elétricos no pior cenário. Britânicos receberam em seus celulares avisos da possibilidade de blecautes durante a tarde se houver problemas com o suprimento de gás. A França, que corre contra o tempo para colocar em operações usinas nucleares em manutenção, já delineou seu plano de contingência.

Após um outono com temperaturas acima da média e redução da preocupação sobre a crise de energia, a entrada de uma frente fria ártica vinda da Groenlândia mudou o grau de tensão. Com armazenamento de gás superior a 90% no início de dezembro, os países europeus se dizem preparados para enfrentar o inverno, mas já começam a preparar suas populações para a possibilidade de momentos de escassez ao longo dos próximos meses. A incógnita da extensão da recessão na Europa voltou a ser tema nos governos e entre os bancos, assunto que pode respingar sobre a economia brasileira em 2023 e 2024.

“Não estamos anunciando que cortes serão feitos, mas, se tivermos um inverno muito extremo e muito demandante em energia, poderá haver situações de tensão e nós estamos nos preparando para todos os cenários”, disse Olivier Véran, porta-voz do governo francês em entrevista à imprensa no fim de semana. No caso de alerta vermelho sobre a rede, os cortes programados serão avisados com dias de antecedência e deverão atingir várias partes da França em diferentes horários.

Inverno testará unidade da UE
O frio europeu que começa a chegar será o primeiro teste sobre a rede elétrica da UE (União Europeia) após a invasão dos tanques russos ao território ucraniano, iniciada em 24 de fevereiro. Testará não apenas o intercâmbio, a unidade e a solidariedade entre os países do bloco comercial e político, mas também poderá ter impactos sociais e políticos, testando até o regime democrático em alguns países.

Segundo modelo desenvolvido pela “The Economist”, em um inverno normal um aumento de 10% nos preços de energia pode representar alta de 0,6% no número de mortes, o que poderia levar à morte de 100 mil idosos no continente europeu.

Além das incertezas em relação a este ano, há também dúvidas sobre o abastecimento no inverno de 2023/2024. Por quê? Por duas principais razões: 1) não se sabe como terminarão os estoques de gás depois do fim do inverno atual; 2) a Europa contou neste ano com pelo mais envio de gás russo do que o previsto para o ano que vem.

Estimativas da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) apontam que os países mais ricos do mundo gastarão 17,7% do seu PIB neste ano com energia, o segundo maior valor da história, apenas atrás do registrado em 1980/1981, quando o planeta sofreu os efeitos do segundo choque do petróleo. Os custos para o próximo ano poderão ser ainda maiores, já que durante todo o próximo ano o envio de gás russo deverá ser reduzido.

A incógnita sobre tamanho do déficit fiscal, criação de subsídios e eventuais nacionalizações de empresas convive com outra: a extensão da recessão. A inflação na zona do euro ronda dois dígitos, os juros devem subir ainda mais em um cenário em que vários países já registram indicadores sinalizando recessões.

Preocupações de gestores brasileiros
Investidores com posições em ativos europeus voltaram a buscar informações. “De um lado, a situação energética na Europa está melhor do que o esperado para o início de dezembro. O fim do outono e início do inverno não foi frio; os consumidores responderam, reduzindo a demanda por gás em 25%; a competição no mercado de GNL [gás natural liquefeito] não contou com grande concorrência da China; e, com isso, os reservatórios encheram em velocidade recorde para níveis recorde”, destaca Rodrigo Novaes, analista da PSR. Mas o outro lado inspira receios, diz ele.

“Por outro lado, este permanece um equilíbrio instável: se a demanda se recuperar, se houver a competição por GNL, ou se as temperaturas caírem mais que o esperado, podemos ver novas escaladas de preço e risco de não suprimento de gás pode voltar. Ainda, a energia elétrica também preocupa. A possibilidade de solicitar a redução do consumo de energia elétrica, assim como cortes seletivos, não foi descartada por lá. Isso principalmente na França, que sofre com a indisponibilidade de várias de suas nucleares.”

E o Brasil?
As incertezas europeias combinam-se à possibilidade crescente de recessão nos Estados Unidos e turbulências na economia chinesa. Isso significa que pode haver impacto sobre demanda por exportações e preços de commodities. O preço do gás e do GNL continuará pressionado. O gás do pré-sal pode se tornar um trunfo.

As metas de redução de 1,5 grau Celsius da temperatura global, como acertado em Paris em 2015, tornam-se ficção científica com a retomada do consumo de carvão na China, Índia e Europa. Hidrogênio verde e renováveis ganharão ainda mais presença.

A União Europeia discute reação à Lei de Redução da Inflação, lançada pelo governo Joe Biden em agosto e criada para reduzir o déficit, diminuir a inflação e elevar investimentos em fontes, com destaque para renováveis. Esse cenário poderá criar oportunidade histórica para o Brasil ganhar ainda mais espaço na geopolítica mundial.

*Roberto Rockmann é escritor e jornalista. Coautor do livro “Curto-Circuito, quando o Brasil quase ficou às escuras” e produtor do podcast quinzenal “Giro Energia” sobre o setor elétrico. Organizou em 2018 o livro de 20 anos do mercado livre de energia elétrica, editado pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), além de vários outros livros e trabalhos premiados.

As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.

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