Opinião
29/06/2026 | 10h50  •  Atualização: 29/06/2026 | 10h54

Carvão: um olhar para o presente e futuro

Foto: Divulgação

Fernando Luiz Zancan*

A decisão do Departamento de Energia dos Estados Unidos de lançar um amplo programa de reinvestimento no carvão, anunciada em 4 de junho de 2026, marca um ponto de inflexão no debate energético global. Não se trata apenas de uma escolha técnica ou econômica, mas de um reposicionamento estratégico diante de um dilema que tem se tornado cada vez mais evidente: como equilibrar segurança energética, competitividade industrial e compromissos climáticos em um cenário de demanda crescente.

O programa, descrito no anúncio do departamento de energia dos EUA, prevê apoio a usinas de carvão existentes, reativação de instalações desativadas, construção de nova capacidade e investimentos em infraestrutura e modernização. O investimento de US$ 700 milhões, inclui a manutenção de 40 GW de usinas a carvão, instalação de usinas novas no Alaska (1,25 GW) e 1,6 GW na West Virginia e ampliação de infraestrutura de exportação. Trata-se de uma das maiores apostas federais no carvão em décadas, com impacto direto sobre dezenas de plantas e gigawatts de capacidade instalada. O sinal é claro: os Estados Unidos voltam a enxergar o carvão não apenas como uma herança do passado, mas como um ativo estratégico para o futuro.

Essa mudança de abordagem revela uma tensão estrutural que marcou a política energética dos últimos anos. De um lado, o avanço acelerado das fontes renováveis, com destaque para solar e eólica. De outro, a crescente evidência de que a intermitência dessas fontes exige respaldo contínuo de geração firme e despachável. Apesar do aumento expressivo de renováveis, a necessidade diária de geração térmica permanece praticamente inalterada em certos contextos, evidenciando uma dependência de fontes convencionais.

A retomada do carvão também está diretamente ligada a um fenômeno recente: o crescimento vertiginoso da demanda por eletricidade. A expansão de data centers, inteligência artificial, eletrificação industrial e novos polos de manufatura tem redefinido o consumo energético. Ao contrário das previsões de estagnação do passado, a curva de demanda voltou a subir de forma consistente, pressionando sistemas elétricos já tensionados. Nesse contexto, fontes capazes de operar continuamente ganham relevância estratégica.

Sob essa ótica, o carvão é reposicionado não como antagonista da transição energética, mas como um elemento de estabilidade dentro dela. O programa americano enfatiza a modernização tecnológica, eficiência operacional e extensão da vida útil das usinas, indicando uma forma de responder às críticas ambientais sem abrir mão da confiabilidade. Trata-se de um pragmatismo, que alguns preferem interpretar como um retrocesso, mas que é muito mais uma  adaptação realista a limites físicos do sistema.

Outro aspecto relevante do programa americano é o fortalecimento da cadeia de suprimentos. O investimento em infraestrutura de mineração, transporte e exportação revela uma visão integrada da política energética, que ultrapassa a geração elétrica e alcança dimensões industriais e geopolíticas. A manutenção de minas e o estímulo à exportação, em especial para a Ásia, reforçam a ideia de segurança energética como componente central da estratégia nacional refletido de como o carvão americano representa 26% das reservas mundiais.

Essa abordagem ganha ainda mais peso quando se consideram episódios recentes de instabilidade elétrica. Cabe salientar que diversos eventos críticos nos Estados Unidos, nos quais o equilíbrio entre oferta e demanda foi ameaçado, levaram à adoção de medidas emergenciais para evitar apagões. Esses episódios funcionam como alerta: sistemas energéticos são complexos e vulneráveis, e falhas podem ocorrer em questão de segundos.

No entanto, a revalorização do carvão levanta questionamentos inevitáveis. Como reconciliar essa estratégia com metas globais de redução de emissões de gases de efeito estufa? Até que ponto a modernização será suficiente para mitigar impactos ambientais? E, sobretudo, qual o efeito desse movimento sobre outras economias, especialmente aquelas que ainda buscam definir seus próprios caminhos energéticos?

A resposta talvez esteja no conceito de “transição complexa”. A experiência americana sugere que o caminho para uma matriz mais limpa não é linear, nem uniforme. Ele envolve avanços, recuos e ajustes constantes, influenciados por fatores econômicos, tecnológicos e geopolíticos. Nesse cenário, decisões que parecem contraditórias podem, na prática, refletir a tentativa de equilibrar múltiplos objetivos simultaneamente.

De qualquer forma, o desenvolvimento de programas tecnológicos para redução das emissões de gases de efeito estufa é fundamental. Os Estados Unidos têm um grande programa para desenvolver a captura, uso e armazenamento de carbono, com dezenas de projetos em licenciamento e uma legislação de incentivos ao seu desenvolvimento a 45 Q. Para países como o Brasil, que possuem matriz relativamente diversificada e grande participação renovável, o debate ganha contornos específicos. A lição central não está na adoção do carvão em si, mas na importância de garantir segurança e confiabilidade ao sistema elétrico, especialmente diante de novas demandas e transformações tecnológicas.

No fim das contas, o reinvestimento americano no carvão não encerra o debate sobre o futuro da energia. Pelo contrário, ele o intensifica. Ao recolocar o tema da segurança energética no centro da agenda, os Estados Unidos obrigam o mundo a encarar uma realidade incômoda: a transição energética, embora necessária, exige soluções que vão além de ideologias e se apoiam, cada vez mais, em pragmatismo e resiliência.

*Fernando Luiz Zancan é presidente da ABCS (Associação Brasileira do Carbono Sustentável).

Tags:

Solicite sua demonstração do produto Boletins e Alertas

Solicite sua demonstração do produto Fornecimento de Conteúdo

Solicite sua demonstração do produto Publicidade e Branded Content

Solicite sua demonstração do produto Realização e Cobertura de Eventos

Inscreva-se no Boletim Semanal Gratuito

e receba as informações mais importantes sobre infraestrutura no Brasil

Cancele a qualquer momento!