Ana Luísa Egues e Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA

O volume de diesel a ser consumido no Brasil neste fim de 2026 será menor que o dos meses anteriores por razões sazonais. Isso afasta preocupações com relação a desabastecimento e atenua pressões internas sobre preço, disseram especialistas à Agência iNFRA. Ainda assim, a última variável deve seguir em alta devido à conjuntura internacional, que parece longe de uma estabilização.
O arrastar dos conflitos traz consigo crack spreads (diferencial entre o diesel e o óleo bruto) altos, acima dos US$ 100 por barril; restrições à exportação; engargalamento crescente de cargas; e custo do frete marítimo em níveis historicamente altos, listam os observadores.
Maria Albuquerque, responsável pela precificação de combustíveis da consultoria Argus, lembra que os meses de novembro e dezembro no Brasil são historicamente marcados por uma demanda menor de diesel devido à retração do consumo relacionado ao agronegócio (fim do pico de plantio da soja e da temporada de moagem de cana-de-açúcar no centro-sul do país). Isso reduz o estímulo a importações por parte de agentes privados e Petrobras no período, mas não anula essa movimentação, já que o Brasil importa algo próximo de 25% do diesel que consome.
Portanto, as empresas seguem importando, segundo executivos do setor, ainda que de forma mais conservadora em função de dúvidas quanto à continuidade da política de subvenção (até R$ 3,52 por litro) após as eleições. Seja como for, um menor volume de importado no mix das distribuidoras com o diesel nacional – a maior parte fornecido pela Petrobras a valores represados – equilibra o preço médio final que chega às bombas, reduzindo pressão inflacionária.
Consultor de gerenciamento de risco da StoneX, Thiago Vetter também vê a demanda brasileira arrefecendo no fim do ano, sem que isso aplaque os preços, justamente em função do cenário externo de curto prazo, que influencia as cotações globais de petróleo cru e diesel.
Segundo o especialista, o barril de Brent, hoje próximo ao patamar dos US$ 110 (US$ 108,79 no fechamento desta terça-feira, 20), deve se manter alto devido às hostilidades entre EUA e Irã no Golfo Pérsico; frustração nas negociações entre os dois países; estoques dos Estados Unidos em queda; e estoques asiáticos, à exceção da China, em “níveis alarmantes”, casos de Japão, Índia e Coreia. No diesel, diz Vetter, pesam os ataques a refinarias na Rússia, no contexto da guerra com a Ucrânia, e no Oriente Médio, além da queda gradual nos estoques globais de derivados.
Maria, da Argus, cita a redução dos estoques globais como fator de sustentação dos preços, mas destaca, principalmente, o custo de frete das cargas saídas do Golfo do México (EUA) para destinos como o Brasil. Neste caso, 42% acima do patamar pré-guerra entre EUA e Irã.
“Esse frete entre Golfo e Brasil chegou a ver um recuo momentâneo na segunda semana de outubro após o anúncio de que países europeus poderiam liberar estoques estratégicos [reduzindo sua demanda junto aos EUA], mas logo houve uma recomposição desse custo”. O frete marítimo, diz a especialista, é hoje o principal componente de preço para importadores e está “muito acima” da média histórica.
Outro fator, que corre por fora, é o início da formação de estoques de diesel a ser usado como óleo de aquecimento durante o inverno do hemisfério norte, sobretudo Estados Unidos e Europa. Para o Brasil em si, dizem os analistas, a liberação parcial das exportações de diesel da Rússia na semana passada pode ser especialmente interessante, visto que aquele país dominou até recentemente o espaço para o produto importado no Brasil.
O mercado brasileiro já aguarda a chegada de cargas da Rússia entre o final de novembro e início de dezembro. “Resta saber se esse fluxo vai ser restabelecido no curto prazo, ou se o diesel russo vai para outros mercados demandantes como a Turquia”, diz Maria.
Gargalo mundial
Na avaliação do professor adjunto da Escola de Química da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Luís Eduardo Duque Dutra, o Brasil não deve lidar com desabastecimento de diesel no curto prazo, mas o risco “existe, é grande e global”. Segundo o economista, o diesel está “engargalado” ao redor do mundo por conta de três fatores principais: o conflito no Estreito de Ormuz, as altas margens de refino e o custo de frete dos navios, “que nunca esteve tão caro”.
“Na Costa Leste dos EUA, no Brasil e na Nigéria, por exemplo, as refinarias estão funcionando acima da sua capacidade, produzindo óleo diesel sem parar. Os navios, que antes faziam viagens de duas, três semanas, estão levando quase oito semanas para levar o diesel americano à Ásia. E não é que está faltando navio, o que falta é espaço nas embarcações. Ou seja, é uma acumulação de gargalos, e é uma questão que os países precisam monitorar a cada dia”, explica.
Já Marcelo Simas, professor de Geopolítica das Energias na UFRJ e FGV (Fundação Getulio Vargas), aponta dois cenários para o país no curto e médio prazos: desabastecimento de diesel, o que é improvável, ou aumento significativo dos preços dos derivados. Segundo o economista, Petrobras e governo têm se preparado para isso – vide os recordes de FUT (Fator de Utilização Total), que representa a capacidade utilizada das refinarias, que tem ficado em torno dos 98%, e o aumento da mistura de etanol na gasolina de 30% para 32% (E32), medida que entrou em vigor em 1º de agosto de 2026, com validade inicial de 180 dias.
“São diversos os fatores [para que o preço do diesel continue aprisionado], mas destaco principalmente o aumento da demanda dos EUA, que é o maior consumidor de diesel no mundo, assim como uma redução da oferta da Rússia por um tempo significativo. O aumento da capacidade produtiva mundial não se dá da noite para o dia. Então, se cerca de 30% da capacidade russa foi retirada do mercado, essa redução dos preços não acontecerá de uma hora para a outra. A oferta vai continuar pressionada e, muito provavelmente, os preços continuarão elevados”, diz Simas.
Conflitos e eleições nos EUA
Em relação aos conflitos, Dutra lembra que o mundo está lidando com três confrontos no momento: entre EUA e Irã, entre Arábia Saudita e Iêmen e entre Rússia e Ucrânia. Os conflitos, principalmente o que ocorre no Golfo Pérsico, pressionam os preços, e cada país responde de uma maneira.
“Mesmo nos EUA, o Trump está fazendo de tudo [para segurar os preços]. É o caso de tirar os impostos e a proibição do óleo diesel agrícola. É ele ir à Europa e exigir a abertura das reservas estratégicas. É a decisão de acabar com as sanções de compra de diesel russo. Tudo isso são medidas eleitorais”, diz o professor.
Os preços do diesel nas bombas norte-americanas atingiram recordes históricos no mês passado, aponta Bruno Cordeiro, outro analista de inteligência de mercado da StoneX. A tendência é que esses valores continuem suportados nas próximas semanas, tendo em vista que negociações diplomáticas só devem acontecer após as Eleições de Meio de Mandato nos EUA, ou seja, entre meados de novembro e início de dezembro.
“O mercado hoje trabalha com estoques globais mais baixos do que no início da guerra [no Golfo Pérsico]. Os EUA, por exemplo, trabalham com os menores estoques desde 1984. Isso acaba gerando uma volatilidade maior, dado que estamos com um colchão menor de absorção para novas crises. E a expectativa é que os preços continuem suportados enquanto não houver uma negociação diplomática que traga resultados mais expressivos”, detalha Cordeiro.





