Opinião
07/04/2026 | 11h29  •  Atualização: 07/04/2026 | 11h30

Energia para todos exige escolhas responsáveis

Foto: Divulgação

Patrícia Audi*

O Brasil é um dos poucos países do mundo que já universalizaram o acesso à energia elétrica. Hoje, 99,88% dos lares brasileiros contam com fornecimento regular, índice superior à média global de 90,2%. Trata-se de uma conquista estrutural, que posiciona o país entre aqueles que já cumprem o sétimo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da ONU, voltado ao acesso à energia confiável e sustentável para todos.

Manter e aprimorar essa conquista exige enfrentar desafios de outra natureza. A rede de distribuição brasileira soma 4 milhões de quilômetros de cabos, o equivalente a cem voltas ao redor da Terra, e opera conectada a uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta, com cerca de 90% da eletricidade gerada por fontes renováveis, frente a uma média global de 40%. Essa estrutura precisa não apenas acompanhar o crescimento do consumo e a expansão da eletrificação, mas também resistir a um cenário de eventos climáticos cada vez mais extremos.

Ondas de calor prolongadas, ventos mais fortes, queimadas de grandes proporções e tempestades mais intensas passaram a pressionar o sistema elétrico e, especialmente, as redes de distribuição, que são o elo final entre a geração e o consumidor. Adaptar a infraestrutura a esse novo contexto exige investimentos contínuos e planejamento de longo prazo.

Nos últimos anos, o volume de aportes no segmento praticamente dobrou. Saímos de cerca de R$ 18 bilhões anuais em 2021 para mais de R$ 46 bilhões em 2025. Entre 2025 e 2029, os investimentos previstos devem superar R$ 235 bilhões.

Quando comparamos com outras áreas da infraestrutura nacional, a dimensão desses aportes fica ainda mais evidente. Segundo a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), somente em 2025, o segmento de distribuição de energia investiu mais do que o saneamento, que somou R$ 44,5 bilhões, e do que as telecomunicações, cujos investimentos chegaram a R$ 33,8 bilhões.

Esse esforço não é apenas financeiro. Ele depende de um ambiente regulatório estável e previsível, capaz de garantir segurança jurídica e condições adequadas para que os investimentos ocorram na escala necessária. As novas regras para as distribuidoras representam uma oportunidade de atualizar o modelo, incorporando metas ainda mais rigorosas de qualidade e prazos mais ágeis para recomposição do serviço em situações de interrupção. 

Ao mesmo tempo, o debate sobre energia no Brasil não pode prescindir de sua dimensão social. A ampliação da Tarifa Social de Energia Elétrica e outros programas voltados às famílias de baixa renda reforçam o compromisso de garantir acesso à energia para quem mais precisa. Milhões de brasileiros contam hoje com descontos significativos na conta de luz, que podem chegar à gratuidade da tarifa para consumos de até 80 kWh por mês. 

Outras faixas de renda também passaram a ter isenção de encargos, reduzindo o peso da conta no orçamento doméstico. São ações que reforçam o compromisso em garantir acesso à energia para quem mais precisa e põem no centro da atenção o aspecto social de pautas ESG que são valiosas para o segmento.

O desafio que se coloca para o país é equilibrar três dimensões que precisam caminhar juntas: responsabilidade ambiental, viabilidade econômica e inclusão social. A transição energética amplia o papel das redes, que devem integrar novas fontes, suportar maior demanda e manter padrões elevados de qualidade. Ao mesmo tempo, é legítimo e necessário discutir a racionalidade dos subsídios e a melhor forma de distribuir seus custos, de modo a preservar a sustentabilidade do sistema no longo prazo.

Em 2026, em meio a um ambiente econômico e climático desafiador, o debate sobre infraestrutura elétrica será também um debate sobre desenvolvimento brasileiro. Proteger a universalização conquistada, promover a eletrificação da economia, fortalecer a resiliência das redes e garantir justiça social na política tarifária são temas que ultrapassam o setor e dizem respeito ao futuro do país. A distribuição de energia estará, inevitavelmente, no centro dessa agenda.

*Patrícia Audi é presidente da Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica).

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