Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
O Conselho de Administração da Petrobras aprovou nesta terça-feira (16) a compra de participação no Complexo Solar Milagres, projeto da Lightsource BP, empresa da petroleira britânica BP no Ceará, disseram fontes à Agência iNFRA. A investida já foi aprovada pela diretoria executiva, e agora, com o aval do conselho, será formalizada.
O movimento da Petrobras inaugura sua presença na geração fotovoltaica comercial, em linha com o Plano Estratégico 2026-2030 recentemente aprovado. A empresa já vinha desenvolvendo projetos de autogeração com painéis solares em refinarias.
Investimento
Desta vez, a Petrobras vai investir pouco mais de R$ 100 milhões para ter 50% menos uma ação do novo negócio, internamente chamado de projeto “Budapeste”. Não resta claro qual parcela do complexo fotovoltaico da Lightsource BP está envolvida. O ativo inteiro é composto por cinco usinas fotovoltaicas localizadas no município de Abaiara (CE), com capacidade de 212 MWp (megawatt-pico).
Segundo fontes da companhia, a construção de um ativo equivalente greenfield (novo) custaria R$ 680 milhões à companhia, valor bem superior ao dispensado pela participação. Além desse custo, outro atrativo para a Petrobras seria o potencial de expansão do projeto no médio e longo prazos, observados pela companhia.
Votação
No colegiado da Petrobras, a votação foi apertada: 6×5. Votaram favoravelmente os seis conselheiros indicados pelo governo, enquanto os quatro representantes dos minoritários se opuseram, grupo ao qual se somou a indicada dos funcionários, Rosangela Buzanelli.
Os minoritários são historicamente céticos à diversificação da Petrobras para negócios menos rentáveis que o óleo e gás, caso da geração de energia renovável. Na Petrobras, para serem aprovados, negócios renováveis precisam ter uma taxa interna de retorno superior 10%, enquanto os fósseis partem de uma base maior, em uma média de 23%. A maior parte desses conselheiros, ao representarem os investidores privados, deseja maior foco no E&P (Exploração e Produção de petróleo), principal negócio da empresa.
Curtailment
No fim de novembro, por ocasião do lançamento do novo Plano Estratégico, Magda Chambriard foi taxativa em associar a redução da previsão de investimento em geração renovável ao fenômeno do curtailment (cortes obrigatórios de geração).
“Só faz sentido ter solar se o offtaker formos nós mesmos [Petrobras]. A solar se viabiliza se for dentro do nosso sistema, nas refinarias. Esse curtailment está dizendo o seguinte: está sobrando 9% de energia entre solar e eólica e isso gera instabilidade no sistema. Curtailment é, na verdade, perda de energia. Botar essa energia na rede para jogar fora não faz sentido”, disse Magda a jornalistas.
Agora, a investida de momento junto à Lightsource bp, mostra que a Petrobras pode até frear o ímpeto com relação ao negócio de geração, mas não vai tirar totalmente o pé do setor. A este respeito, uma alta fonte da companhia disse que o movimento demonstra o compromisso da companhia em cumprir o plano estratégico, ainda que observando as conjunturas, como preços baixos e curtailment.
De fato, o grupo de projetos ligados a Gás Natural e Energia de Baixo Carbono tem previsão de capex (investimento) de US$ 9 bilhões até 2030, após corte relevante ante os US$ 11 bilhões constantes no último plano (2025-2029). O corte está concentrado justamente nos projetos de geração eólica onshore e solar fotovoltáica, já deixou claro a diretora de Transição Energética e Sustentabilidade, Angelica Laureano. E vem em linha com diminuição na capacidade de geração a ser alcançada com novos projetos do tipo, que caiu de 4,7 GW (gigawatts) para 1,7 GW na passagem de um plano ao outro, uma queda de 63,8%.
*Reportagem atualizada às 19h38 de terça-feira (16) com informações adicionais.





