Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA
A mudança do hidrograma da usina de Belo Monte, adotando o modelo com maior restrição de uso de água pela hidrelétrica, pode provocar uma elevação no preço da energia. Segundo análise da Ampere Consultoria, a revisão tende a causar uma alta da ordem de R$ 150 por MWh (megawatt/hora) no valor do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), indicador principal do preço no mercado livre, caso seja adotado o chamado hidrograma de piracema.
Os hidrogramas da usina estipulam os volumes mínimos de água que devem ser direcionados a cada mês para o atendimento da vazão no trecho conhecido como Volta Grande do Xingu. Ou seja, quanto maior o hidrograma, menor o volume de água disponível para geração de energia da usina, exceto em situações de grande cheia.
“Originalmente, ficou determinado que a usina alternaria, a cada ano, dois hidrogramas de consenso (A e B), o primeiro mais favorável à geração de energia e o segundo mais restritivo. Todavia, nos últimos anos tem sido utilizado apenas o hidrograma B, mais restritivo do ponto de vista energético, em função da questão socioambiental em torno da operação da usina”, explica o sócio consultor da Ampere, Guilherme Ramalho de Oliveira.
Além destes, há também a proposta do hidrograma de piracema indicada pelo Ibama durante o começo da disputa judicial com a usina, ainda mais restritivo que os anteriores.
Segundo o estudo da Ampere, caso seja adotado esse hidrograma, poderia haver uma redução quase integral na capacidade de geração da usina no primeiro trimestre de 2026 em comparação com a manutenção do hidrograma B, uma vez que a perspectiva hidrológica para a região não está favorável e, com isso, praticamente toda a água que chegasse à usina deveria ser direcionada para o atendimento das condicionantes ambientais e não para a geração de eletricidade.
A simulação levou em conta as afluências para a bacia do Xingu da ordem de 80% da MLT (Média de Longo Termo) e carga conforme planejamento anual para o período de 2026 a 2030.
A análise foi feita a partir de decisão da Justiça Federal do dia 12 de dezembro do ano passado, que acatou parcialmente pleito do MPF (Ministério Público Federal) para que a Norte Energia, operadora da usina, e o Ibama revisassem o chamado hidrograma de consenso, com a definição de um controle de vazões apto a garantir a mitigação dos impactos advindos do desvio do fluxo hídrico do rio Xingu.
“Ainda há muitas incertezas no que diz respeito à atualização efetiva do hidrograma, uma vez que a mudança pode afetar as condições econômicas da usina e a operação do sistema elétrico, como sugere a simulação”, avalia Oliveira.





