Bruno Batista*
Passada a fase mais tensa da guerra com o Irã, envolvendo a ameaça explícita de uma escalada exponencial, existe agora uma perspectiva de suspensão temporária ou redução dos ataques. Isso oferece uma oportunidade valiosa de balanço geral de estratégias e metas, apesar de ainda persistirem incertezas em relação a Ormuz.
No que se refere ao setor de transporte e logística as lições são profundas, surgidas da percepção mais clara de que restrições regionais eventualmente subestimadas podem desencadear rápidas e amplas consequências. Vamos a elas.
- A geografia importa
Existem ao menos 10 pontos de estrangulamento marítimo espalhados ao redor do globo, incluindo Gibraltar, Malaca, Bósforo, Dardanelos e Bab el-Mandeb, por onde passam grande parte do petróleo e do comércio internacional. E interrupções provocadas por questões militares ou mesmo operacionais (vide o porta-contêineres Ever Given no Canal de Suez em 2021) podem gerar repercussões imediatas. Os estreitos permanecerão onde estão, assim como a percepção de que continuarão sendo potenciais áreas de atrito.
Lições: planejar rotas marítimas alternativas e ampliar redes dutoviárias redefinirão o transporte internacional.
- Os custos da energia e a transição energética
A súbita elevação dos preços do petróleo e de seus derivados gerou uma onda de choques que pressionou fretes, preços gerais e inflação. Combustíveis mais caros no transporte marítimo, aéreo e rodoviário resultam em impactos em setores tão diversos como agricultura, turismo, e-commerce e mobilidade urbana. Com isso, o que às vezes pareceu ser um objetivo difuso e intangível, a transição energética se mostra agora uma solução viável para a mitigação de riscos.
Lição: diversificar fontes energéticas no transporte migra de opção para necessidade.
- A gestão do petróleo é pauta do dia
À medida que os reflexos da guerra se espalharam, ficou clara a formação de dois grupos de países: os que não se prepararam antecipadamente e a China. Sim, ela também sofreu, já que 25% do fluxo de petróleo que passa por Ormuz tem nela seu destino final. Contudo, precavida desde o primeiro governo Trump, a China redefiniu suas políticas de geração de energia (com ênfase revigorada no uso de carvão, é verdade), elevou seus estoques estratégicos de petróleo e ampliou o uso de renováveis. Como resultado, sofreu bem menos que europeus e seus vizinhos asiáticos.
Lições: relembrar que o petróleo (ainda) é insubstituível. E que planejar com a devida antecedência faz a diferença.
- O crescimento econômico depende do redesenho das cadeias de suprimento
Que o motor do crescimento econômico global está na Ásia, sobretudo na China, há muito se sabe. Entretanto, essa crise no Golfo Pérsico mostrou a dura face da dependência de fornecedores em áreas sensíveis, quer sejam eles de energia quer de componentes e matérias-primas. Reduzida a crença na globalização (há quanto tempo você não ouve esse termo?), o reshoring, o nearshoring e a busca por novos fornecedores devem ser fortalecidos mais rapidamente. Sem espaço para coincidências, cabe lembrar que nesse exato instante refinarias americanas estão processando petróleo venezuelano. Outro ponto importante é que a gestão de estoques ressurge revigorada, especialmente no que diz respeito a componentes e materiais críticos.
Lição: diversificar fontes de suprimento é preciso.
- A geopolítica é o elo
Guerras ocorrem por disputas irreconciliáveis de interesses entre nações que, tal como agora, se associam para maximizar poderes e a amplitude de suas ações. E, nos conflitos, elas costumam defender também sua viabilidade econômica, não raro superando barreiras ideológicas ou mesmo religiosas. Desse modo, uma diplomacia que promova a multiplicidade de opções de parceria reforça um posicionamento estratégico que garante elos comerciais vitais. De combustíveis a chips, de tecnologias inovadoras a infraestruturas conectadas, o transporte cada vez mais depende de integração.
Lição: reduzir riscos operacionais e financeiros via ação diplomática é a chave da geopolítica.
Provisoriamente, o frágil cessar-fogo traz um alívio às atividades comerciais globais. Por outro lado, custos de transporte mais elevados, maior complexidade de rotas e a necessidade de avaliações mais criteriosas de mitigação de riscos podem vir a ser incorporados de forma permanente.
Sob todos os aspectos, guerras são tragédias incômodas. Mas elas sempre deixam lições que podem gerar transformações positivas, úteis também para o transporte e a logística – e tomara que assim seja. Isso nos remete, então, à máxima de Leon Trotsky que talvez seja a melhor tradução do momento atual: “Você pode não se interessar pela guerra, mas a guerra se interessa por você”.
*Bruno Batista é especialista estratégico em transporte e logística.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.


