Rita Knop*
A partir de novembro de 2027, milhares de empresas brasileiras viverão uma mudança histórica: bastará ter um CNPJ para escolher o fornecedor de energia elétrica. Essa liberdade garante mais economia, previsibilidade e acesso a fontes renováveis, conforme a disponibilidade do parceiro. O resultado é mais controle financeiro, competitividade e fôlego para investir no crescimento do negócio.
Mas toda mudança exige atenção. Com a abertura do mercado para empresas conectadas à baixa tensão, cresce a importância de escolhas bem-informadas, especialmente para negócios que não contam com equipes técnicas especializadas em energia. Para esse novo público, entender quem é o fornecedor será fundamental para evitar riscos.
A ampliação da concorrência é positiva. No entanto, a experiência internacional mostra que esse avanço só se sustenta quando há regras claras, boas práticas e agentes financeiramente sólidos, capazes de honrar compromissos ao longo de todo o contrato.
Um ponto central nessa decisão é a segurança do fornecimento e a previsibilidade dos custos. Empresas com produção própria de energia e robustez financeira oferecem mais transparência sobre a origem do produto, maior estabilidade contratual e menor risco de surpresas ao longo do tempo. Além disso, algumas permitem ao consumidor optar por energia 100% renovável, cada vez mais valorizada por clientes, parceiros e pela sociedade.
É nesse contexto que ganham relevância fornecedores integrados que aliam geração e comercialização, com uma matriz majoritariamente renovável e histórico positivo de atuação no setor elétrico brasileiro. Esse modelo reduz riscos e aumenta a confiança do cliente, especialmente em um mercado em rápida expansão.
Para o pequeno e médio varejo, esse cuidado é ainda mais crítico, já que as margens de lucro tendem a ser apertadas nestes negócios. Uma escolha mal feita pode gerar instabilidade contratual, renegociações inesperadas, perda de previsibilidade e custos adicionais.
A história recente da Europa serve de alerta. Entre 2021 e 2022, a crise energética levou à falência de 29 fornecedores no Reino Unido, afetando cerca de quatro milhões de consumidores. Na França, aproximadamente 20 comercializadoras desapareceram por não conseguirem sustentar preços prometidos. Em ambos os casos, análises oficiais apontaram problemas recorrentes: capital insuficiente, modelos de negócio excessivamente agressivos, governança frágil e promessas pouco realistas. No fim, os custos acabaram recaindo sobre os consumidores.
No Brasil, embora o mercado seja mais jovem, sinais semelhantes já apareceram. Desde 2019, cerca de uma dezena de comercializadoras menores entrou em recuperação judicial ou decretou falência, acumulando débitos bilionários.
Ao mesmo tempo, o crescimento do mercado livre é acelerado. Entre 2023 e 2024, o número de novos consumidores livres cresceu 263%, com 27 mil migrações em um único ano. No varejo, a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) contabiliza 37 mil unidades consumidoras representadas por comercializadoras até setembro de 2025 – um salto superior a 60% em poucos meses.
Com a nova etapa de abertura prevista para novembro de 2027 – e a futura inclusão dos consumidores residenciais a partir de novembro de 2028 – torna-se ainda mais urgente criar condições para que esse ambiente funcione de forma saudável e previsível. Para que esse movimento seja realmente virtuoso, é fundamental criar um ambiente de competição saudável, com proteção ao consumidor, previsibilidade e segurança jurídica.
No mercado livre, preço não pode ser o único critério. Propostas agressivas podem esconder riscos que não são facilmente identificados pelo cliente. Economia, sim – mas com sustentabilidade. Segurança do fornecedor, solidez financeira, histórico de mercado, transparência contratual e origem da energia são fatores que fazem toda a diferença. Escolher bem o fornecedor de energia é, cada vez mais, uma decisão estratégica para quem quer crescer com estabilidade.
*Rita Knop é formada em Engenharia Elétrica e mestre em Administração de Negócios pela IAE Business School. É diretora comercial da Neoenergia. Tem mais de 25 anos de experiência na área de vendas, serviços ao cliente e transformação digital. Passou por grandes companhias como SKY, Telefônica, Vivo, Algar e KPMG. Lidera o projeto comercial para expansão da Neoenergia no mercado livre, no desenvolvimento de soluções energéticas e energias renováveis.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.




