Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA

A Âmbar Energia, do grupo J&F, pretende reduzir pela metade a inadimplência dos consumidores de distribuição no Amazonas em até cinco anos. No mesmo período, a intenção é diminuir também o furto de energia na baixa tensão para cerca de 95%. Atualmente, as perdas são superiores a 120%. As metas foram reveladas pelo diretor-presidente da distribuidora, João Pilla, em entrevista à Agência iNFRA.
Os dois problemas, de inadimplência e das altas taxas de furto de energia, são historicamente apontados como os maiores desafios da antiga Amazonas Energia, agora denominada Âmbar Energia Amazonas. À frente da concessão há cerca de quatro meses, o grupo J&F – dos irmãos Wesley e Joesley Batista – prepara um pacote de ações e investimentos para enfrentar esses desafios e melhorar os serviços, segundo Pilla, que prevê R$ 2,3 bilhões para os dois primeiros anos.
A ideia do grupo, de acordo com o executivo, é “resolver a empresa e zerar o jogo” em cinco anos, ou seja, até 2031, equacionando os principais problemas da concessão – incluindo os financeiros –, “para a partir daí trabalhar para ganhar dinheiro”. Esse trabalho já começou com renegociações de contratos com fornecedores e de débitos de prefeituras, retomada de investimentos e elaboração de um plano quinquenal de ações, que foi submetido para homologação da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), diz o CEO.
“Nós assumimos essa concessão em abril com três grandes desafios: o controle dos gastos e do custo operacional, o desvio de energia [gatos] e a redução do índice de inadimplência. São três indicadores que a gente está acompanhando e vendo também como oportunidades, e que nós seremos fiscalizados de perto pela ANEEL”, disse João Pilla, que fez carreira no grupo J&F, onde chegou a ser diretor-executivo da JBS.
Iniciativas
Uma das estratégias da Âmbar para reduzir a inadimplência é o reforço no cadastro de famílias que têm direito à tarifa social de energia, pelo Programa Luz do Povo. Até janeiro, eram 200 mil unidades cadastradas no benefício no estado, número que agora está em 305 mil. Em cinco anos, a meta é chegar a 500 mil unidades.
“Quando a gente consegue cadastrar meio milhão de pessoas na tarifa social, a gente reduz drasticamente uma parte importante da inadimplência”, explica Pilla. Isso se deve ao modelo de funcionamento do programa, no qual a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) ressarce a distribuidora com recursos da CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) pelo consumo das famílias inscritas.
Além dos pequenos consumidores, o diretor-presidente da concessionária destacou que a inadimplência também alcança empresas e o setor público, com quem também serão desenvolvidas ações para regularização de pagamentos. Ele lembrou que, para assumir a distribuidora, a J&F fez uma negociação com o governo do estado para equacionar dívidas tributárias da antiga Amazonas Energia. Foi um encontro de contas entre os débitos e o que o próprio governo devia à empresa pelo não pagamento de contas de luz ao longo de vários anos.
Na questão do combate aos furtos, João Pilla mencionou medidas como modernização das redes, reforço de inspeções pelas equipes e ações de conscientização. “Quando a gente chegou aqui, muita gente falava que aqui tinha cultura de gato. Eu não posso admitir que isso seja uma cultura. Porque cultura é algo que você tem orgulho de falar. Nós temos que mudar essa mentalidade”, disse.
Hoje, a concessionária não consegue cobrar por 44% de toda a energia que injeta na rede da Amazonas, sendo 36% por furtos. Considerando apenas o segmento de baixa tensão, as perdas superam os 120%, segundo o executivo. Isso significa que a cada 1 MW (megawatt) faturado, se perde mais 1,2 MW. “Sem diminuir o desvio de energia, essa empresa é inviável economicamente”, afirmou.
Quanto à instalação de medidores aéreos, conhecidos como SMC (Sistema de Medição Centralizada), para reduzir os gatos, o presidente da distribuidora diz que a ideia foi abortada. O plano da antiga gestão da Amazonas Energia enfrentava forte resistência no estado. Agora, ele defende que os equipamentos só sejam utilizados em casos excepcionais, como de alta reincidência de furtos.
Investimento em resiliência
João Pilla mencionou que a Âmbar iniciou um plano de modernização da rede da região de Manaus para aumentar a resiliência e melhorar os indicadores de qualidade da distribuidora. Neste primeiro ano, dez bairros da capital foram selecionados para a troca de cabos, trabalho que será ampliado nos próximos anos.
“Grande parte da rede na baixa tensão é formada por aqueles três cabos nus. Nós estamos tirando isso e colocando um cabo concêntrico, que em um único cabo passa as três fases mais o neutro, e ele é encapado por uma capa dura que não deixa as fases visíveis. Isso torna a rede mais robusta, mais resiliente e certamente vai nos ajudar a reduzir os desvios de energia”, disse o CEO.
Pilla citou ainda ações de curto prazo diante do El Niño, que deve provocar seca severa na região, o que compromete a navegabilidade dos rios e, por consequência, o suprimento. A distribuidora trabalha em medidas para não faltar combustível em térmicas de sistemas isolados, além de revitalização de subestações e redes de Manaus, para evitar cortes de carga nos horários de ponta.
O pacote da empresa até 2028 inclui ainda doze novas subestações de distribuição; construção de nova rede entre os municípios de Iranduba e Manacapuru, que será transformada de 69 kV para 138 kV; e interligação entre as cidades de Rio Preto da Eva e Humaitá. Além disso, está prevista a reativação do Luz para Todos no estado, com compromisso de levar energia a 18 mil novas unidades consumidoras.
Roraima
João Pilla também mencionou a entrada do grupo J&F em Roraima, com a operação assumida em julho da antiga Roraima Energia, que assim como a Amazonas foi adquirida da Oliveira Energia. No estado, de tamanho e desafios menores, ele destacou que são projetados investimentos de cerca de R$ 100 milhões anuais nos primeiros cinco anos.
“É uma empresa mais redonda”, disse o executivo em comparação com a Amazonas. Ele citou que os índices de Roraima, como de inadimplência e perdas, são considerados pelo grupo um “benchmark de onde queremos chegar” na concessão amazonense.
No entanto, Pilla destaca que há um desafio diferente a ser superado em Roraima: o de aprender a lidar com uma rede de distribuição que passou a ser interligada ao SIN (Sistema Interligado Nacional). “É uma realidade que a distribuidora lá não estava acostumada. E a gente tem visto que muda muita coisa”, disse.





