Análise: Nova gestão tem o desafio de posicionar Eletrobras no cenário energético que surge

Roberto Rockmann*

Em 2017, quando a Eletrobras celebrava 55 anos de história e Wilson Ferreira Jr. estava à frente da então estatal havia poucos meses, a empresa detinha participação em 174 SPEs (Sociedades de Propósito Específico), ainda era controladora de seis distribuidoras (Amazonas, Acre, Alagoas, Piauí, Rondônia e cidade de Boa Vista, Roraima) e possuía um índice de alavancagem de nove vezes. A missão era uma virada operacional.

O desafio foi estruturado a partir da redução da dívida pela privatização de ativos como as distribuidoras, a venda de participações em SPEs, melhorias operacionais e redução de funcionários. A ordem era não investir em novos projetos, mas concluir as obras em atraso que custavam para a empresa.

A Eletrobras hoje de controle difuso está em 60 SPEs, tem pouco mais de 10,5 mil funcionários – eram 26 mil há seis anos – e voltou a investir, ganhando uma licitação em recente leilão de transmissão. Na primeira coletiva à imprensa, Wilson Ferreira Jr. indicou que a empresa poderá avançar em eólicas e solares, para complementar seu parque de geração, um detalhe importante hoje.

A diversificação da matriz e os projetos em várias regiões do país têm proporcionado hedge físico em relação ao risco hidrológico e às mudanças regulatórias, como o fim da estabilização da TUST (Tarifa de Uso do Sistema de Transmissão).

O desafio de Wilson é posicionar a empresa no novo mundo que começa a surgir com a abertura do mercado livre, o que tem atraído empresas do setor elétrico e fora do segmento, como Ultragaz, Vibra, Braskem, além das grandes petroleiras, como a Shell. O mercado livre se sofistica e ganha pesos pesados brasileiros e internacionais de olho na ampliação do segmento.

Um desafio urgente da Eletrobras é a descotização da energia das usinas hidrelétricas. Cerca de 8 GW médios de energia da empresa, a partir de janeiro de 2023, à razão de 20% a partir do próximo ano, serão liberados ao mercado livre. A Portaria 50/2022, anunciada nesta semana pelo governo e que abre o mercado da alta tensão, contribui para a contratação dessa energia.

Se ajuda no volume, não resolve a outra parte da equação. O desafio serão os preços em um mercado que nessa década poderá conviver com a sobreoferta, impulsionada pela contratação dos 8 GW de térmicas, cujo primeiro leilão ocorre hoje (30). A ironia é que essa contratação, decidida pelo Congresso, foi autorizada pelos parlamentares para a aprovação da capitalização da Eletrobras, projeto nascido no primeiro governo FHC.

Um dos desafios de Wilson será comandar a gestão comercial da empresa neste novo momento. A Eletrobras sempre esteve ligada a grandes consumidores, como Vale, Alcoa. A abertura à alta tensão, válida a partir de 2024, terá sua expansão com focos em clientes de menor carga e sob a figura do comercializador varejista. Será preciso criar produtos estruturados e aprender a lidar com esses consumidores menores.

Se em geração a Eletrobras é líder desde sua criação há mais de 60 anos, em comercialização o retrato é outro. As cinco maiores comercializadoras (Cemig, Engie, Copel, Enel, BTG) detêm 22,1% do segmento, de acordo com dados de recente estudo do Grupo de Energia Elétrica da Universidade de Brasília. 

Uma peça importante nesse tabuleiro é que a Eletrobras possui 96% de seu parque com fontes renováveis. A empresa tem um grande portfólio de hidrelétricas, geradoras de I-Recs, certificados de energia renovável, um segmento que poderá ganhar ainda mais espaço nos novos produtos que poderão ser desenvolvidos.

*Roberto Rockmann é escritor e jornalista. Coautor do livro “Curto-Circuito, quando o Brasil quase ficou às escuras” e produtor do podcast quinzenal “Giro Energia” sobre o setor elétrico. Organizou em 2018 o livro de 20 anos do mercado livre de energia elétrica, editado pela CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), além de vários outros livros e trabalhos premiados.

As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.

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