Cidades inteligentes: “Há dificuldade de utilities e municípios compartilharem dados”

Geocracia

Para o professor de GeoAnalytics e Data Science da FGV-Eaesp, Eduardo Francisco, o maior desafio para a implantação de cidades inteligentes no Brasil não é tecnológico, mas metodológico – ou cultural, como ele prefere dizer. Fundador da GisBI, empresa que combina geotecnologia, Business Intelligence e Data Science, Francisco diz em entrevista ao Geocracia que, no Brasil, hoje, há uma dificuldade estrutural muito grande de as empresas de utilidade pública – as chamadas utilities – “cederem” dados para o município e vice-versa, com o objetivo de se implantar tecnologias de cidades inteligentes de uma forma integrada. “Atualmente, cada empresa de utilities cuida da sua gestão, com os governos municipais olhando de longe. Durante um bom tempo, trabalhei em fóruns e grupos de trabalho com tentativas para que empresas de serviços públicos e o poder público municipal compartilhassem uma base de dados comum, mas sempre havia desconfiança. Tanto que isso nunca aconteceu de fato, esses dados nunca convivem numa base de dados integrada para a gestão. Existem iniciativas municipais de publicar dados, mas não com o intuito de fazer uma cidade inteligente funcionar”, afirma.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.

Qual é o estado da arte do big data no mundo e como a ciência de dados dialoga com a geoinformação?

O tema big data, originalmente chamado big data analytics, surgiu na década de 90 – o primeiro artigo sobre o assunto é de 92 – e discutia a dificuldade operacional de lidar com volumes de dados cada vez maiores pela Nasa. A agência espacial americana tinha imagens de satélites cada vez mais precisas, maiores e que chegavam com mais frequência. Eles se viam em um cenário de não ter capacidade computacional para analisar as imagens todas ao mesmo tempo ou ter tempo hábil de análise antes da chegada da próxima imagem. O pessoal da área de análise, estatística e matemática percebeu que era importante conversar com a turma da área de computação em busca de soluções computacionais que colocassem os processos em paralelo, reduzindo o tempo de processamento. Foi aí que surgiu o termo big data analytics: dados e processos para os quais você precisa de novos paradigmas para obter benefícios ligados a grandes volumes de informação, basicamente.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial, uma área da ciência criada na década de 50, passou a se tornar viável computacionalmente, de uns anos para cá, ampliando muito a utilização disso, culminando no que chamamos hoje de ciência de dados/big data analytics, uma grande realidade. Queira ou não, se você é um decisor, um executivo de uma corporação pública ou privada, vê-se diante de um conjunto muito diversificado (sons, imagens, mapas, dados em redes) de dados externos à organização e tendo que integrar isso aos dados que já usa, os sistemas operacionais usados dentro de casa. Esse é o momento de mundo que vivemos de uns cinco anos para cá, com a sociedade descobrindo como lidar com tudo isso junto.

Mas a geoinformação é uma área que veio caminhando em paralelo e sempre foi muito nichada e para especialistas – geógrafos, engenheiros cartógrafos, agrimensores e geólogos. Dificilmente saía desse domínio e, por mais que os benefícios se estendam para o resto da sociedade, possuía ferramentas muito voltadas para especialistas – os tais sistemas de informação geográfica. De uns poucos anos para cá, esses dois mundos estão começando a se encontrar. Eu gosto muito do termo geoanalytics, o termo que melhor congrega a mistura disso: é o analytics que o profissional de big data reconhece e é o geo que o profissional da geografia reconhece. Eles não precisam se conhecer; precisam só saber que estão no mesmo contexto. Mas ainda é um desafio cultural juntar esses mundos, porque eles têm modelos mentais muito diferentes.

Você teria casos brasileiros e internacionais de sucesso no uso por governos de inteligência artificial, machine learning e deep learning que tenham transformado a vida dos cidadãos?

Como esse desafio é cultural, ainda é muito difícil governos em geral verem uma prática de algum outro governo e, por imitação, começarem a fazer replicações. Isso ainda é muito pouco efetivo. O que temos – e que não é assim tão novo – é, por exemplo, a Operação Serenata de Amor, um projeto que usa ciência de dados e inteligência artificial para exercer uma certa fiscalização social. O que eles fazem é buscar dados públicos de governos (sobretudo Legislativos em níveis federal e estaduais) e confrontá-los com com as informações públicas das suas atividades, despesas (alimentação, transporte, hospedagem etc.) e presenças (encontros, eventos etc.). Assim, por exemplo, se o parlamentar disse que almoçou em Recife e gastou R$ 300 de almoço e, meia hora depois, publicou gastos com combustíveis em São Paulo, há uma inconsistência nesse dado. Ou então o parlamentar disse que gastou um valor de almoço, mas o estabelecimento tem uma faixa de preço bem abaixo disso. O que a Operação Serenata de Amor faz é publicar e permitir que o envolvido se retrate ou explique, o que já possibilitou encontrar mais de R$ 3,6 milhões em reembolsos suspeitos, desde 2016.

Muito se fala sobre conceitos de cidades e redes inteligentes enquanto forma de aportar tecnologias a entidades públicas, notadamente municípios. Os desafios para sua implementação são realmente mais tecnológicos ou naturalmente metodológicos? Como criar diálogos entre tecnologias e planos diretores municipais?

O desafio tecnológico existe, mas ele gradativamente vem sendo vencido. Ainda há algumas barreiras, porque a cidade inteligente como conceito deve ter, de forma lógica ou física, todos os dados disponíveis em um grande repositório, enquanto abastece e faz a gestão de processos de forma integrada – e não delegando para serviços específicos fazerem pedaços disso, como é hoje. Atualmente, cada empresa de utilities cuida da sua gestão, com os governos municipais olhando de longe… Mas, com algumas rupturas tecnológicas que estão na iminência de acontecer, essa questão tecnológica vai ser superada. É o caso da computação quântica, que poderá vencer o desafio de ter de lidar com volumes de dados muito maiores do que o esperado e fazer isso de um jeito nunca antes percebido.

Mas, o maior desafio, sem dúvida, é o metodológico – ou cultural, que considero ser o termo mais amplo. Você tem uma série de pessoas representando partes da sociedade civil – empresas, organizações públicas, entidades sem fins lucrativos, associações –, mas não vejo como juntar facilmente visões de mundo e modelos mentais, todos de uma vez, para vencer esse desafio de implantação de tecnologias de cidades inteligentes de uma forma integrada. Hoje, sobretudo no Brasil, há uma dificuldade estrutural muito grande de uma empresa de utilidade pública “ceder” dados para o município poder gerir ou vice-versa. Conheço bem essa área de utilities e, durante um bom tempo, trabalhei em fóruns e grupos de trabalho com tentativas para que empresas de serviços públicos e o poder público municipal compartilhassem uma base de dados comum, definindo até que tipo de dado todos poderiam compartilhar e quais seriam aqueles próprios das suas operações específicas, mas sempre havia desconfiança. Tanto que isso nunca aconteceu de fato, esses dados nunca convivem numa base de dados integrada para a gestão. Existem iniciativas municipais de publicar dados, mas não com o intuito de fazer uma cidade inteligente funcionar.

Há ainda muita confusão entre dados públicos e privados. Muitas vezes, municípios se negam a disponibilizar bancos de dados públicos sob pretexto de cumprir a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), que é destinada a dados privados. Há alguma proposta de enfrentamento dessa questão para ajudar as administrações públicas a ceder dados públicos sem receios?

Isso tem a ver com essa questão cultural que falávamos. Por desconhecimento e, às vezes, desconfiança de que o dado público possa ser usado para, talvez, destacar algo a que o governo não queira dar tanta publicidade, o poder público tem se escondido atrás da LGPD. Realmente, isso é uma aberração, porque a LGPD prevê no seu art. 4º algumas exceções na aplicação da lei, que se refere a dados pessoais – mas não a qualquer dado pessoal. O dado do indivíduo coletado para o censo demográfico, Enem e pesquisas de saúde têm finalidade pública. Mas, mesmo se a coleta fosse com finalidade privada, o art. 4º prevê exceções para fins acadêmicos. Acessar dados pessoais sensíveis anonimizados – e sempre serão, já que o objetivo não é identificar, mas ver qual é o perfil daquela pessoa – é algo previsto na LGPD, desde que para fins de pesquisa, e devem ser publicados sempre com essa finalidade.

Para enfrentar essa questão de muitos municípios que se recusam a disponibilizar dados ou do governo federal, que se nega a publicar os microdados do Enem, há uma frente liderada por alguns parlamentares que quer dialogar com o governo federal mostrando que o que está sendo feito é errado, não traz benefício algum – muito pelo contrário, inviabiliza a pesquisa sistemática que precisa acontecer. Eu estou envolvido diretamente por meio da FGV e da GisBi e vou colaborar no que for preciso.

Estamos vivendo um contexto bastante insatisfatório causado pela pandemia, principalmente, com o atraso do levantamento censitário no país, e muitas das políticas de saúde e educação se baseiam numa fotografia muito irreal, que é o Brasil de 2010, para fazer dotação orçamentária e repasse de recursos para os municípios. Talvez, não se tenha uma história anual da evolução da educação do país, principalmente pós-pandemia, pelo fato de os microdados do Enem não estarem publicados. É uma questão premente para ser discutida

Como conselheiro da Fundação Seade, como está a integração entre a estatística, a cartografia e a geografia do Estado de São Paulo?

Faço parte do Conselho Curador e nos reunimos cerca de quatro a cinco vezes por ano para ajudar a fundação a trilhar essa visão de apoio ao governo de São Paulo com insumo de informação e assessoria com pesquisas. A mudança de modelo da Seade, de uma das fundações tradicionais do governo do estado para ser de fato reconhecida como uma grande agência de dados do governo, tem funcionado muito bem. Entre muitas ações, existe uma aproximação de fato dos órgãos estaduais que cuidam da cartografia e geografia oficiais com a estatística. Organismos estaduais, como é o caso em São Paulo, têm buscado essa integração.

A Fundação Seade que já tem, há alguns anos, o Portal Seade, publica, em um grande portal Geo, o GeoSeade, de forma integrada, todos os indicadores que produz sistematicamente, além dos produzidos por outras instituições e que digam respeito ao Estado. O GeoSeade materializa muito bem a iniciativa de aproximação da cartografia e da geografia do Estado de São Paulo, fazendo todos os levantamentos estatísticos que subsidiam políticas públicas e beneficiam a sociedade e entidades privadas, como as de varejo, do setor imobiliário e outros, que sempre contam com os dados censitários para melhor se posicionar. Vejo com muito bons olhos o movimento de aproximação dessas áreas aqui em São Paulo.

É muito raro isso acontecer em organizações no mundo como um todo. São poucos os países do mundo que têm, no mesmo instituto, a geografia e a estatística. Existe uma aproximação recente no governo do México das áreas de cartografia e estatística, Tuvalu possui um único instituto como geografia e estatística, mas isso tudo é exceção a uma regra mundial: todos os países têm um órgão que cuida da geografia e um outro que cuida da estatística. Eles tentam se integrar, mas são independentes. Isso vale para os Estados Unidos, para a União Europeia, para a comunidade britânica. O Brasil tem na figura do IBGE, desde a sua origem, lá no INE (Instituto Nacional de Estatística), as duas coisas juntas. Então, a gente tem de tirar vantagem disso.

Mas nós estamos tirando vantagem disso? Em termos de governança, o IBGE não cuida mais da geografia desde 1968 e, hoje, nem sequer temos um organismo que faça essa coordenação nacional…

De fato, o IBGE nunca foi uma agência de dados espaciais, e essa é uma bandeira que o Luiz Ugeda [fundador do Geocracia] trouxe para discussão há uns anos. Por várias razões, isso ainda não se efetivou. O Brasil precisa ter uma agência independente que faça a regulação, organização e monitoramento dos dados espaciais, para que tenhamos, de fato, uma autonomia para isso. O IBGE, como um órgão de excelência na parte de geografia, poderia ser essa agência de dados espaciais ou, talvez, um grande parceiro dessa agência, subsidiando do ponto de vista técnico decisões que governos precisam tomar. Por exemplo, ainda não temos o país inteiro mapeado em uma escala que permita uma gestão efetiva. Há grandes pedaços da Amazônia que ainda não estão mapeados satisfatoriamente. Isso ajudaria muito nessa discussão de sermos independentes no conhecimento do nosso território. Hoje, temos dificuldades, pois grande parte dos nossos processos depende de mapas que estão disponíveis na rede mundial, como OpenStreetMap e o Google Maps. Se por qualquer razão essas entidades não quiserem continuar a publicar seus mapas globalmente, passamos a ter o universo digital do mapeamento brasileiro às escuras. Essa discussão precisa voltar e o IBGE poderia liderar esse processo atuando de maneira consensual, junto à Academia e à sociedade civil como um todo, para, naturalmente, vir a ser a agência nacional de dados espaciais, como a gente tem a Agência Nacional de Águas, de energia elétrica, de uma série de outros grandes serviços. Assim, a gente poderia regular essa área, o que envolve organizar, completar o mapeamento do país nos níveis que precisamos e, finalmente, fazer a gestão.

As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.

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