Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
A Petrobras e a estatal mexicana Pemex assinaram nesta terça-feira (23) uma parceria para cooperação em exploração e produção. Apesar do alcance genérico do MoU (Memorando de Entendimento), as partes envolvidas deixaram claro o interesse em descobrir e desenvolver o que seria o equivalente ao pré-sal da parte mexicana do Golfo do México, ainda intocado.
Na saída da cerimônia com o diretor-geral da Pemex, Juan Carlos Carpio, e representantes do governo do México, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse a jornalistas que a companhia vê uma possibilidade muito grande nas águas do Golfo sob jurisdição mexicana. “Não é crível que a gente olhe para o Golfo do México e diga que todo o óleo escolheu ficar na porção americana, que foi a mais desenvolvida, que recebeu investimento ao longo de tantos anos”, afirmou.
A executiva detalhou que, pelo que se sabe da parte americana do Golfo, existe uma formação de sal, mas diferente da encontrada nas águas do sudeste brasileiro. “É o sal com gomos de sal soltos e não como a gente tem aqui, que são muralhas de sal muito espessas e contínuas. Aqui a gente chama de pré-sal e lá eles chamam de sub-sal, exatamente, porque são esses gomos. É um desafio diferente, mas continua sendo um desafio”, disse.
México x EUA
Geólogo da Petrobras por 34 anos e hoje à frente da Zag Consultoria, Pedro Zalán pontua que, à diferença da parte americana, em que a camada de sal se quebrou em gomos por efeito de uma “sobrecarga de deltas”, a parte mexicana ficou intacta na forma de paredões, assim como no pré-sal do Brasil. O que muda, ele explica, é a idade geológica das formações.
“A Petrobras vai procurar petróleo junto com a Pemex embaixo das muralhas de sal mexicanas, um pré-sal parecido com o do Brasil. Só que há uma grande diferença. Esse sal e o pré-sal do México é mais antigo que o sal e o pré-sal do Brasil. No México, eles são de idades jurássicas (180 a 200 milhões de anos) e, no Brasil, de idades cretáceas (cerca de 120 milhões de anos). Tem aí uma diferença de mais ou menos 60 milhões de anos de uma para outra”.
Segundo o especialista, essa diferença de idade geológica pode implicar em um potencial petrolífero igualmente diferente, possivelmente menor. “Pelo que sei do pouco que já foi furado no pré-sal do Golfo do México, houve descobertas, mas eles não descobriram os microbialitos que nós temos no pré-sal do Brasil. Descobriram óleo, descobriram areias com óleo, mas de idade jurássica. Então, o pré-sal mexicano pode ser rico em petróleo, mas dificilmente será igual ao do Brasil, com seus microbialitos e carbonatos”, destacou.
Expertise e possibilidades
Questionada se a Petrobras teria expertise para lidar com essa geologia, Magda disse que a estatal brasileira está na vanguarda da exploração e produção em áreas profundas e ultraprofundas no mundo. “Quando a gente olha o que o mundo está produzindo de petróleo em lâminas d’água de dois mil metros ou até mais, a gente olha o Brasil praticamente sozinho com a Petrobras”.
Sobre as possibilidades no México, Magda lembrou o campo de Cantarell, que chegou a produzir mais de 3 milhões de barris por dia no início dos anos 2000 no que ela definiu como uma “área muito restrita em águas rasas”. Hoje a Pemex produz 1,65 milhão de boed (barris de óleo equivalente por dia). A presidente da Petrobras disse que, em reunião com a presidente do México, Claudia Sheinbaum, teria contado sobre a existência de “duas ou três” acumulações menores que costumam ocorrer próximas a campos gigantes, padrão recorrente no Brasil.
Expectativa da Pemex
Carpio, diretor-geral da Pemex, afirmou que estudos já estão sendo feitos para que seja descoberto um pré-sal nas águas do país e que, dentro das tratativas com a Petrobras, serão usadas todas as opções “do ponto de vista exploratório para se descobrir e aprofundar” esses trabalhos. Da parte da Pemex, disse ele, um acordo concreto pode ser firmado em “muito curto prazo”.
“Como sabemos, a indústria petroleira é de médio e longo prazos, mas nós estamos trabalhando de forma que [um acordo] seja o mais rápido possível”, disse Carpio.





