Lais Carregosa, da Agência iNFRA*
A portuguesa EDP estuda participar do leilão de baterias no Brasil, previsto para dezembro deste ano. No entanto, o encargo a ser pago pelos geradores para arcar com os custos da contratação de armazenamento é visto como um “tema crítico”, segundo o CEO da companhia na América Latina, João Brito.
“Esse tema é um dos mais críticos porque pode criar uma certa não clarificação de como vai ser o pagamento desse encargo, que no fundo é o que vai viabilizar ou não as baterias, e por essa razão é um tema importante. Mas acredito que daqui a uns meses o tema ficará ultrapassado”, declarou a jornalistas durante a inauguração do primeiro sistema de armazenamento da companhia na América Latina, localizado em Ovalle, no Chile.
Ele cita também o desfecho da regulamentação das baterias pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), que aprovou a norma na última semana. “Tem umas coisas que não concordamos, mas entendemos a razão e, portanto, vamos trabalhar para estarmos os mais competitivos possíveis de acordo com as regras que foram publicadas”, afirmou.
Em 2 de junho, a reguladora aprovou a regra com um tratamento diferenciado para a cobrança das tarifas de uso do sistema de transmissão ou distribuição. A ocorrência de uma “dupla cobrança” das tarifas no momento de carregamento e descarregamento da bateria, como proposto inicialmente pela área técnica da agência, era um impasse no segmento.
A solução encontrada foi cobrar apenas uma vez, no descarregamento, no caso dos sistemas de armazenamento despachados pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Já os sistemas autônomos serão tarifados tanto no descarregamento quanto no carregamento da bateria.
“O tema do encargo de rede [tarifa de uso do sistema] é um tema que obviamente também afeta muito a rentabilidade. Temos que perceber bem que impacto que isso vai ter na nossa análise de viabilidade econômica do projeto”, destacou o CEO da EDP na América Latina.
Projeto no Chile
A EDP inaugurou, na terça-feira (9), o seu primeiro projeto de baterias na América do Sul. A implantação levou cerca de nove meses e o sistema está em fase de testes para iniciar a operação comercial. As baterias têm capacidade instalada de 240 MWh (megawatts-hora) e são integradas ao parque eólico de Punta de Talca, que tem capacidade de 83 MW (megawatts).
A empresa estima que vai zerar o curtailment físico (cortes obrigatórios de geração) do parque eólico com a instalação do sistema de baterias. Os cortes da usina somam cerca de 11% na média anual. O plano é carregar o sistema durante os horários em que o preço da energia está baixo – no Chile, é possível ter preço zero. Já o descarregamento deve acontecer nos períodos de preços mais altos, à noite, que coincidem com os horários de maior necessidade sistêmica.
“Além disso, temos momentos de geração que não temos curtailment, mas estamos gerando a preço zero. Então, qualitativamente falando, são esses dois problemas simultâneos que a bateria vem para solucionar. […] Além de praticamente eliminar o curtailment físico, que vemos nos medidores, vamos deixar de entregar energia de graça para a rede”, explicou o gerente do projeto, Tiago Fernandes.
O grupo EDP tem 550 MW de baterias em operação nos Estados Unidos e na Europa. “Este é o nosso primeiro projeto na região [da América Latina], portanto estamos a aprender”, destacou João Brito. Para ele, a experiência pode ser uma vantagem para o leilão no Brasil, uma vez que a EDP já detém conhecimento acumulado com a instalação do sistema no Chile. O executivo, no entanto, reforça que o certame brasileiro deve ser competitivo e que, por isso, a companhia precisará de outras “alavancas”.
Curtailment no Brasil
Para João, a instalação das baterias no Brasil tende a ter um efeito sistêmico, reduzindo o curtailment como um todo. “Sendo uma bateria despachada pelo operador do sistema, não necessariamente pode melhorar o meu curtailment em específico. […] O que acho que vai acontecer é que o curtailment em geral vai se reduzir, depois, como vai se dividir por cada um dos geradores, acho incerto fazer essa estimativa”, afirmou.
O diretor executivo de Energia Renovável da EDP, Luiz Barros, disse, durante a inauguração do projeto chileno, que a empresa teve cerca de 13% da sua geração renovável cortada no Brasil em 2025, o que em termos financeiros representa cerca de US$ 40 milhões.
*A repórter viajou ao Chile a convite da EDP.






