Ingrid Gregório*
As discussões em torno da possível formação de um novo e intenso El Niño voltaram a acender um alerta importante para o setor de infraestrutura. Em abril de 2026, uma nota técnica divulgada pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) – órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil – apontou mais de 80% de probabilidade de ocorrência do fenômeno entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, indicando potencial para aumento de chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, especialmente na Região Sul do Brasil.
O tema reforça uma percepção que já vem se consolidando nos últimos anos, de que eventos climáticos extremos deixaram de representar ocorrências excepcionais e passaram a integrar permanentemente o cenário de riscos das concessões rodoviárias. Em um ambiente marcado por maior imprevisibilidade climática, a resiliência operacional passa a ocupar um papel cada vez mais estratégico na sustentabilidade da infraestrutura.
Os alertas em torno do avanço desses eventos acompanham um cenário climático global cada vez mais pressionado. Segundo o relatório State of the Global Climate 2024, publicado pela WMO (Organização Meteorológica Mundial), 2024 foi o ano mais quente já registrado, marcado pela intensificação de eventos extremos, recordes de temperatura dos oceanos e impactos econômicos e sociais associados a enchentes, secas e ondas de calor.
No Brasil, os efeitos desse contexto já vêm sendo observados de forma significativa. As enchentes registradas no Rio Grande do Sul em 2024 evidenciaram como eventos climáticos severos podem comprometer simultaneamente mobilidade, logística, infraestrutura e continuidade operacional. Estudos recentes relacionam a intensificação das precipitações registradas no período à combinação entre variabilidade climática natural, influência do El Niño e efeitos associados ao aquecimento global.
Eventos extremos deixam de ser exceção e passam a moldar a operação
Para o setor de concessões rodoviárias, os impactos vão além dos danos físicos aos ativos. Alagamentos, erosões, deslizamentos e interrupções operacionais afetam diretamente a disponibilidade das rodovias, elevam custos de manutenção, pressionam cronogramas de obras e ampliam a exposição financeira e securitária das concessionárias.
A crescente volatilidade climática também vem alterando a própria dinâmica de avaliação de riscos no setor de infraestrutura. Cenários antes tratados como excepcionais passam a demandar revisões contínuas de exposição, monitoramento mais sofisticado e maior integração entre áreas operacionais, engenharia, continuidade de negócios e gestão de seguros.
Da resposta à antecipação: o papel da gestão integrada de riscos
Nesse contexto, a gestão integrada de riscos assume uma função ainda mais estratégica. A capacidade de antecipar vulnerabilidades, estruturar respostas rápidas e fortalecer a resiliência operacional torna-se essencial diante de eventos com potencial crescente de severidade e recorrência.
Na prática, isso inclui o fortalecimento de análises preditivas, monitoramento hidrometeorológico, modelagem de cenários climáticos, avaliação de vulnerabilidades críticas e revisão permanente de planos de contingência e continuidade operacional. Em um ambiente de maior exposição, a velocidade de resposta e a capacidade de adaptação passam a influenciar diretamente a redução de impactos operacionais e financeiros.
Ao mesmo tempo, o mercado de seguros acompanha essa transformação. O aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos exige atualização constante das análises de exposição, maior sofisticação na modelagem de perdas e programas de seguros cada vez mais aderentes às características operacionais e climáticas das concessões.
A transferência de riscos segue desempenhando papel fundamental para o setor, mas passa a coexistir com uma demanda crescente por estratégias mais integradas de prevenção, adaptação e resiliência. Mais do que responder a eventos extremos, o desafio das concessões rodoviárias passa a ser incorporar a adaptação climática como parte estrutural da gestão do negócio.
Em um cenário de maior volatilidade e imprevisibilidade, antecipação, integração e inteligência de riscos tendem a se consolidar como pilares centrais para a sustentabilidade operacional e financeira da infraestrutura brasileira.
*Ingrid Gregório é gerente de Riscos e Seguros da Horiens.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.


