Opinião
01/04/2026 | 15h00

Mobilidade ferroviária: desafios e perspectivas de um setor em transformação 

Suely Sola, diretora-geral da Alstom Brasil | Foto: Divulgação

Suely Sola*

O Brasil vive um momento singular na mobilidade urbana. Após décadas de investimentos tímidos e uma matriz historicamente concentrada no modal rodoviário, o setor ferroviário passa por uma renovação impulsionada por concessões, PPPs (Parcerias Público-Privadas) e pela urgência climática que pressiona as cidades por soluções mais sustentáveis e eficientes.

Historicamente, o setor ferroviário teve papel relevante no escoamento de cargas e no desenvolvimento das regiões. Agora, mais do que nunca, volta a ocupar uma posição estratégica ao ajudar a definir como milhões de brasileiros irão se deslocar nas próximas décadas. Nas grandes metrópoles, onde a pressão demográfica é intensa, os trilhos deixaram de ser uma alternativa para se tornarem indispensáveis. O debate já não é mais se devemos investir, mas como estruturar investimentos sustentáveis, competitivos e capazes de gerar desenvolvimento econômico de longo prazo.

Os números reforçam esse movimento. A movimentação anual do setor ferroviário na América Latina gira atualmente em torno de US$ 2 bilhões, com expectativa de crescimento significativo nos próximos anos. Esse avanço abre uma oportunidade estratégica: expandir a mobilidade sobre trilhos ao mesmo tempo em que se fortalece a indústria nacional, responsável por sustentar uma ampla rede de fornecedores locais, gerar empregos qualificados e desenvolver competências tecnológicas no país.

A concorrência é um vetor relevante de inovação e eficiência, especialmente quando ocorre em condições equilibradas. Diferenças nos tratamentos tributários entre empresas com produção local e aquelas que operam majoritariamente por meio de importações podem influenciar o equilíbrio do mercado e a atratividade de investimentos de longo prazo no Brasil. 

Nesse contexto, a cautela se torna fundamental para que, durante esse ciclo de crescimento, o país consiga equilibrar a ampliação da oferta com o fortalecimento da indústria nacional. O objetivo não é criar barreiras, mas adotar instrumentos que ofereçam segurança a investimentos de longo ciclo e preservem capacidades produtivas já consolidadas no território nacional. 

O desenvolvimento do setor ferroviário exige investimentos de longo prazo, tecnologia avançada e uma cadeia de fornecedores altamente qualificada. Nesse cenário, a adoção de regras claras não deve ser interpretada como protecionismo, mas como uma estratégia de fortalecimento industrial, abordagem consolidada em países como França, Alemanha e Japão.

O Brasil é referência no desenvolvimento de sistemas de sinalização e controle operacional aplicados em projetos nacionais e em toda a América Latina, e vai além da geração de empregos: qualifica fornecedores e leva tecnologia projetada e produzida no país para diversos mercados internacionais. Trens fabricados no estado de São Paulo circulam não apenas no Brasil, mas também no Chile, Argentina, Estados Unidos, África do Sul, Romênia e Taiwan.

O transporte é responsável por até 30% das emissões globais de CO₂. Nesse contexto, o modal ferroviário se destaca como uma das soluções mais eficazes para reduzir esse impacto: um trem elétrico pode emitir até 40 vezes menos carbono por tonelada transportada do que o modal rodoviário. Assim, a transição para uma mobilidade de baixo carbono não é apenas desejável — é inevitável.

Infraestruturas robustas são a base de qualquer sistema ferroviário eficiente. Por isso, temos investido fortemente em tecnologias digitais que ampliam segurança, precisão e eficiência. Um exemplo é o ETCS (European Train Control System), que chega ao Brasil com sua primeira implementação nas Linhas 8 e 9 da rede metropolitana de São Paulo.

O Brasil vive uma janela de oportunidade rara, resultado da combinação entre demanda crescente, maturidade tecnológica e recursos destinados à transição climática. Para aproveitá-la, alguns pontos são essenciais: políticas industriais claras, que valorizem a produção local e garantam competição justa; planejamento de longo prazo, que dê previsibilidade à demanda e permita investimentos em tecnologia e qualificação; e parcerias efetivas entre setor público e privado, que viabilizem projetos complexos.

A mobilidade pode impulsionar um novo ciclo de desenvolvimento e as cidades brasileiras precisam de sistemas que conectem pessoas a oportunidades, reduzam deslocamentos, sejam seguros, confortáveis e ambientalmente responsáveis. Isso exige manter o ritmo de investimentos em infraestrutura, valorizar a indústria nacional, adotar tecnologias inteligentes e fortalecer as parcerias público-privadas.

Os trilhos construídos hoje não servem apenas ao presente: são a base para cidades mais integradas e sustentáveis nas próximas gerações. Esse deve ser o compromisso de quem atua no setor ferroviário, pois os projetos representam pontes para o futuro, ligações entre pessoas, sonhos e cidades mais conectadas. É com esse propósito que trabalhamos para construir um Brasil mais acessível, seguro e sustentável.

*Suely Sola é diretora-geral da Alstom Brasil e de Sinalização & Infraestrutura da Alstom na América Latina. Responsável por projetos de Monotrilho na América Latina e embaixadora da Diversidade & Inclusão na região. Formada em Engenharia Elétrica e Eletrônica pela Escola de Engenharia de Mauá e pós-graduada em Gestão de Projetos pela FIA Business School.

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