Edson Lopes*
Em 2024, enquanto o transporte aéreo registrou um crescimento expressivo de 5%, atingindo 118 milhões de passageiros, segundo dados da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), o setor rodoviário interestadual de passageiros registra o oposto: uma queda de quase 6% no volume transportado, conforme o Anuário Estatístico TRIIP (Transporte Rodoviário Interestadual e Internacional de Passageiros) da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). Foram 40,7 milhões de embarques contra 43,2 milhões no ano anterior. Essa divergência deixa claro que o problema não está na demanda por mobilidade, mas em um modelo que insiste em manter fórmulas ultrapassadas e barreiras regulatórias que sufocam a concorrência e a inovação.
É importante destacar que, embora o setor aéreo também enfrente desafios para a entrada de novos competidores – em grande parte devido à necessidade de robustez financeira e elevados investimentos – essa limitação é estrutural e inerente ao seu modelo econômico. No transporte rodoviário, porém, o principal entrave é regulatório e político: a rigidez da ANTT e práticas monopolistas restringem a concorrência, mesmo diante de tecnologias e modelos capazes de tornar o serviço mais acessível, moderno e eficiente.
Pesquisa recente da FlixBus revela que 52% dos brasileiros que reduziram suas viagens indicam a limitação financeira como principal razão — sinal claro de que a falta de competitividade e inovação pesa no bolso do consumidor e impacta milhões que dependem do modal para trabalho, saúde e educação.
A ANTT, enquanto órgão regulador, mantém uma postura conservadora que freia o desenvolvimento do mercado sob o pretexto de estabilidade. A nova regulação aprovada para o setor rodoviário após décadas de discussão não traz avanços concretos, carece de respaldo técnico e, na prática, fecha o mercado para novos modelos de negócio. Além disso, enfrenta dificuldades reais de implementação, beneficiando e preservando a predominância dos operadores já estabelecidos.
Essa “estabilidade” funciona como sinônimo da manutenção do status quo e segue afastando modelos digitais e operadoras inovadoras que poderiam transformar o setor. Um cenário que torna o transporte rodoviário menos atrativo e eficiente, justamente quando cresce a demanda por mobilidade integrada e acessível no país.
É urgente que o Brasil tenha uma regulação alinhada com as necessidades atuais, que seja motor de inovação e não obstáculo. A abertura do setor para novos entrantes, com foco em segurança, qualidade e transparência, deve ser prioridade para garantir acessibilidade e inclusão digital, além de contribuir para metas nacionais como descarbonização e desenvolvimento regional.
A FlixBus está comprometida em ser parte dessa transformação, propondo modelos que unem tecnologia, sustentabilidade e experiência do consumidor, para que o transporte rodoviário volte a ser pilar da mobilidade nacional. Mas, para isso, a regulação precisa evoluir e abraçar a pluralidade do mercado, permitindo que novas soluções floresçam em benefício dos brasileiros.
A crise do transporte rodoviário não é inevitável. Ela é fruto de escolhas que podem – e devem – ser revertidas. O setor não precisa de muros que o enclausurem. Precisa de pontes que o conectem a um futuro mais justo, inovador e inclusivo.
*Edson Lopes é CEO da FlixBus.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.







