Amanda Pupo, da Agência iNFRA
Responsável por assumir no início deste ano uma das rodovias que precisou ser relicitada após problemas na terceira etapa de concessões, a Via Cristais, da Vinci Highways, faz um balanço positivo dos primeiros meses de operação da BR-040 entre Belo Horizonte (MG) e Cristalina (GO).
Na estreia do grupo francês em rodovias federais brasileiras, a concessionária afirma que trabalha para antecipar o cronograma de obras, classifica a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) como um regulador “extremamente eficiente” e se programa para fazer sugestões ao órgão no âmbito do RDT (Recursos para Desenvolvimento Tecnológico) e de sandbox regulatório, especialmente na área de sustentabilidade e de inteligência artificial.
Além disso, já propôs à ANTT que as balanças de pesagem na rodovia sejam no modelo do HS-Wim. A expectativa é colocar cinco ao longo da concessão, três a mais do que prevê o contrato hoje.
Os planos foram explicados à Agência iNFRA pelo CEO da Via Cristais, Tulio Abi-Saber, que na entrevista também contou que a empresa acompanha “com muita atenção” as alterações propostas pelo governo nas debêntures incentivadas. Com obrigação de investir R$ 12 bilhões, a concessionária planeja levantar seu financiamento no próximo ano e por isso está monitorando as condições do mercado. Pela MP (Medida Provisória) 1.303, as debêntures vão perder a isenção fiscal concedida ao investidor pessoa física a partir de 2026, ponto que preocupa o setor de infraestrutura.
Abi-Saber faz coro à avaliação de que, embora o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tenha uma atuação “bastante efetiva”, a instituição não pode ficar sozinha no financiamento ao setor. “Avançamos tanto na criação dessas alternativas para financiar a infraestrutura, que não podemos perder isso. Precisamos dessas fontes complementares”, disse o CEO da Via Cristais.
Condição precária
A rodovia arrematada pela subsidiária da Vinci Highways no ano passado era administrada pela Invepar, que operava desde 2014 esse e outro trecho na concessão conhecida como Via 040. Foi a primeira a pedir uma devolução “amigável” no setor de rodovias, mas o processo demorou praticamente cinco anos para ser concluído.
Segundo Abi-Saber, quando a Via Cristais assumiu o trecho entre Cristalina (GO) e Belo Horizonte (MG), a condição da estrada estava “muito mais precária” do que o imaginado pela empresa. “A concessionária anterior abandonou seis meses antes de assumirmos. O desafio foi maior, as instalações estavam absolutamente depredadas”, contou.
Apesar disso, a operação foi aberta conforme programado em março e agora a concessionária estima que vai conseguir concluir até o final de outubro a entrega dos trabalhos iniciais, que costumam ser feitos num período maior, de um ano. “Há uma preocupação grande com a segurança. Em novembro coincide com o período de chuvas e início de férias escolares”, disse Abi-Saber sobre a tentativa de antecipar o cronograma.
Já a primeira entrega de ampliação está prevista para 2028, terceiro ano da concessão, mas a ideia é adiantar para 2027. Além de começar as obras efetivamente, no próximo ano a Via Cristais vai implantar as balanças HS-Wim e dois pontos de parada para caminhoneiros.
O trabalho feito até agora foi concentrado principalmente no plano de 100 dias, sem parar por ali. Segundo a concessionária, entre outros números, foram 4,6 mil buracos tampados e até agora o equivalente a 137 quilômetros de rodovia com pavimento novo, mais de 350 quilômetros repintados e 4 mil placas de sinalização instaladas.
Mão de obra
Abi-Saber também conta que, no momento, tem sentido pouco impacto de falta de mão de obra para a concessão. Mas o CEO não descarta que a questão se apresente mais a frente, especialmente pelo volume de obras que está previsto para a região com os projetos para a nova BR-381, a Fernão Dias, a Via Mineira, além das licitações estaduais.
“Todo mundo vai começar a obra ao mesmo tempo. Aí eu antecipo que a gente pode ter uma questão. Se coincidir com o ciclo de mineração positivo, a gente pode ter um problema”, levantou o executivo, para quem o setor precisa evoluir tanto para criar estruturas de carreiras mais gratificantes como melhorar a produtividade com automação.
Agência mais madura
Outra preocupação de empresários do mercado de infraestrutura é o patamar atual da taxa de juros no Brasil, em 15% ao ano. Para Abi-Saber, o nível de maturidade do setor de rodovias garante uma atratividade relevante apesar da taxa contracionista. “A gente ainda vê uma atratividade mesmo para taxa de juros nesse patamar (…) Eu como cidadão torço muito para que a taxa caia o quanto antes”, disse.
Para o executivo, que já atuou em outros setores de infraestrutura, como de energia e telecom, a ANTT tem feito um trabalho “excepcional” na qualidade da regulação. “O entendimento privado tem chance de opinar sobre consequências e tem clareza de que as consequências vão ser endereçadas (…) A ANTT para mim, hoje, das agências que eu conheço, é disparada a mais madura”, afirmou.
Sobre o interesse da Vinci Highways em outras concessões rodoviárias, Abi-Saber lembrou que só poderia falar pela Via Cristais, mas não deixou de avaliar que “o mercado brasileiro é difícil de ignorar”. “A gente está muito focado em entregar um trabalho de ótima qualidade na Via Cristais. Foco número um disparado”, disse. O grupo francês já atua no Brasil desde 2017, quando arrematou a concessão do aeroporto de Salvador (BA).
Em 2023, concluiu a compra de 55% da concessão rodoviária Entrevias, que é estadual e localizada em São Paulo. Neste caso, o Pátria ficou com posição minoritária no ativo.





