07/10/2025 | 09h30  •  Atualização: 08/10/2025 | 08h08

Setembro bate recorde em cortes obrigatórios de geração, diz Volt

Foto: Domínio Público

Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA

Os cortes obrigatórios de geração, conhecidos como curtailment, bateram um novo recorde no Brasil em setembro de 2025. Foram cortados 4,8 milhões de MWh (megawatts-hora) no mês, segundo estudo da Volt Robotics obtido pela Agência iNFRA. No dia recordista, que foi 28 de setembro, um domingo, quase metade da geração eólica e solar (343,5 mil MWh) do país foi cortada. 

“Esse dia 28 foi o pior dia de curtailment que a gente teve na história. Foi praticamente 48% da geração cortada. Isso principalmente pelo corte energético, é aquele realizado por falta de carga, durante a manhã e à tarde, ou seja, muito alinhado à questão da [geração] solar”, afirmou o CEO da Volt Robotics, Donato Filho. 

O mês de setembro teve outros picos de curtailment. Nos dias 27 (corte de 292,5 mil MWh) e 14 (270,6 mil MWh), foi cortado o equivalente a 40% da geração eólica e solar. O mês é considerado o pico da “safra dos ventos” no Nordeste. Donato chama atenção para o fato de que em 2024 os cortes também foram recordes em setembro, porém, um ano depois, o volume de geração cortada neste mês dobrou.

O vertimento turbinável das hidrelétricas não foi considerado no estudo. Segundo o CEO da Volt, os dados mostram uma tendência clara: “Os cortes estão se intensificando de forma acelerada”. Ele chama atenção para o fim da safra dos ventos após os picos de geração eólica em agosto e setembro, mas cita que a entrada mais forte de despacho térmico em outubro no sistema pode tirar espaço das renováveis. 

Fins de semana
Donato ressalta o fato de que entre os dez dias de maior corte do ano, foram seis domingos e um sábado. Isso mostra que o maior problema que o sistema elétrico tem enfrentado é nos fins de semana, em que o consumo reduz drasticamente.

“A maior maldição que a gente tem hoje no setor é um domingo de sol, porque vai ter um monte de geração solar e não vai ter carga, porque as pessoas estão passeando, no parque, na praia e as fábricas e o comércio estão fechados”, disse o CEO da Volt.

Os três dias do top 10 que não foram em fins de semana ocorreram em fevereiro. “Essa exceção teve como motivo a queda do linhão de Belo Monte, que foi um problema elétrico que fez com que o ONS buscasse caminhos para a energia de Belo Monte. E o caminho foi passar pelo Nordeste para vir para o Sudeste, e com isso cortou mais eólica e solar”, explicou.

Os dados da Volt mostram que, nos fins de semana, tem predominado o corte por razão energética (excesso de geração e baixa carga), de forma espalhada pelo país. Já o curtailment por confiabilidade (falta de transmissão) tem se concentrado no Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia e no norte de Minas Gerais.

Proporcionalmente, as usinas solares centralizadas são as mais cortadas, segundo o estudo. Mas em volume, quem mais sofre são as eólicas, que têm maior parque gerador. Ainda segundo a Volt, os cortes têm afetado desproporcionalmente os geradores, com algumas usinas (especialmente grandes conjuntos no norte de Minas Gerais, Ceará e Rio Grande do Norte) experimentando cortes de 30% a mais de 80% de sua capacidade potencial.

Dia dos Pais
A pedido da Agência iNFRA, o estudo da Volt Robotics comparou os dez piores dias de curtailment do ano com o nível registrado em 10 de agosto, dia dos pais, data que vem sendo apontada pelo setor como o dia em que o sistema ficou perto de um colapso, ou seja, com riscos reais de um apagão. Naquele dia, foram cortados 213,1 mil MWh. Assim, ele não chegou a figurar no top 10 de cortes.

“Aquele dia dos pais mudou o problema. Foi um dia em que o corte chegou a 100% no período das 12h às 14h. Em volume, isso não foi tão grande porque não estava tanto sol assim, mas tudo que tinha naquele horário de eólica e solar o ONS cortou, porque a carga estava muito baixa. Isso significa que ele quase perdeu o controle do sistema”, afirmou Donato.

Se antes o corte era visto como um problema basicamente dos geradores que sofrem com o prejuízo, depois do dia dos pais ele mudou de figura, diz Donato. “Agora o corte passou a ser uma questão sistêmica de segurança energética nacional. A gente chegou perto de um apagão, ou seja, é um problema de todo mundo. Então isso provocou um início de mobilização em busca de soluções”, avalia.

Caminhos
Essa virada de chave, na avaliação do Donato Filho, motivou passos como a busca, por parte do ONS e da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) do aumento do controle da geração no sistema, como da GD (Geração Distribuída). A agência deve regulamentar um caminho para permitir cortes de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), usinas a biomassa e usinas solares conectadas à rede das distribuidoras.

Ele citou a iniciativa como uma ação imediata para prevenir um apagão e apontou outros caminhos, como tarifas inteligentes que permitam energia mais barata pela manhã, leilões para grandes consumidores comprarem energia neste período e acelerar a troca para medidores inteligentes (em especial em média e alta tensão), permitindo bônus por consumo matinal.

Além disso, Donato defende a aceleração da implantação de sistemas de baterias, inclusive com incentivos fiscais, a antecipação de obras de transmissão e a busca por uma maior flexibilidade da geração de hidrelétricas e térmicas, gerando menos pela manhã e mais à noite.

“Agora virou um problema que é nacional. Ninguém quer ter apagão. Virou uma questão de conseguir resolver o problema. Temos que trazer todos os players para buscar essa solução. A gente tem um excesso de geração de dia e não consegue atender a ponta no fim do dia. Então temos que buscar equilibrar a oferta e demanda, transferindo o consumo da ponta para a manhã”, afirmou.

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