Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
A Petrobras monitora possíveis repercussões dos acontecimentos na Venezuela sobre o mercado de petróleo, mas ainda não vê condições dadas para um impacto relevante nas cotações internacionais da commodity, nem projeta concorrência direta no longo prazo, afirmou à Agência iNFRA o diretor financeiro da estatal, Fernando Melgarejo.
“Estamos dando uma atenção bastante especial ao tema [Venezuela], mas até agora não houve uma flutuação de preços que afete a companhia. Nos últimos três ou quatro dias, não vimos nada que exija uma mudança na nossa condução. Será preciso observar a evolução ao longo do mês”, afirma Melgarejo.
Segundo o executivo, a produção venezuelana também não deve crescer rapidamente. “Para impactar a oferta, mais do que retomar a produção, é necessário manter volumes elevados de forma sustentada, o que demanda investimentos muito expressivos, além de um ambiente regulatório claro e estável. Mas o cenário ainda carrega muitas incertezas”, completa o diretor da Petrobras.
Cotação do petróleo
De fato, para o nível de perturbação geopolítica dos últimos dias – bombardeio pontual na Venezuela; captura de Nicolás Maduro; bloqueio de cargas destinadas à China; e apreensão de um navio petroleiro de bandeira russa pelos Estados Unidos – o preço internacional do petróleo está menos volátil do que em outros momentos de tensão. Nos últimos cinco dias, o barril do petróleo tipo Brent para março caiu apenas 1,3%, perdendo o patamar dos US$ 60 e fechando a sessão de quarta-feira (7) a US$ 59,96, ainda longe da linha dos US$ 55.
Ainda que instabilidades geopolíticas costumem pressionar a cotação para cima, isso estaria sendo mais do que compensado pelo esforço do governo americano em comunicar a intenção de investir na indústria de petróleo venezuelana, aumentando a oferta futura do produto e rebaixando ainda mais a curva de preço, que já vinha em tendência de baixa. Pesa, ainda, o baixo fluxo de petróleo venezuelano, hoje entre 800 mil e 1 milhão de bpd (barris por dia), inferior a 1% da movimentação mundial, o que reduz os impactos de interrupções nesse fornecimento.
Enquanto agentes econômicos formam percepção, a Petrobras vê com ceticismo a possibilidade de um “ramp-up (aceleração) relâmpago” na produção venezuelana e segue a máxima de não absorver volatilidades externas, esperando um cenário mais consolidado.
Fontes com conhecimento do assunto citam dúvidas com relação à posição do governo remanescente, de Delcy Rodríguez (vice-presidente de Maduro); a finitude da administração de Donald Trump; a falta de regulação segura e testada; e a natureza do petróleo venezuelano, do tipo pesado e, portanto, com desconto entre US$ 10 e US$ 20 ante à cotação de referência. Para efeito de comparação, o petróleo brasileiro – mais leve – é vendido com desconto entre US$ 2 e US$ 6, sendo mais atraente ao investidor.
“Ninguém sabe quais serão as regras na Venezuela. As empresas vão investir três, quatro anos e correr de novo o risco de mudanças no governo local ou no próprio governo americano? Isso vale para qualquer empresa, inclusive para a Petrobras”, disse uma fonte de mercado. “Além desses riscos, é um petróleo com desconto bem maior. Essa equação fecha?”, continua.
Concorrência não intimida
Fernando Melgarejo não quis comentar o aspecto político, mas confirmou a dinâmica do preço de venda, afirmando que o petróleo brasileiro tem maior valor agregado, além de menor pegada de carbono.
Até por isso ele minimiza a eventual concorrência entre a produção brasileira, dominada pela Petrobras, e a venezuelana. Segundo Melgarejo, o petróleo da estatal seguirá entrando em mercados onde o produto do país vizinho não vai entrar para atender refinarias mais modernas.
Mas o diretor da Petrobras admite que, uma vez recuperada, a Venezuela poderá sim passar a competir com o Brasil pelo Capex de petroleiras, sobretudo as americanas, que podem ser induzidas politicamente e financeiramente por Washington a concentrar seus investimentos no país vizinho. A administração Trump tem sinalizado com possíveis incentivos financeiros.
Sócio-diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), Bruno Pascon reconhece que, partindo de um mesmo break-even (preço de equilíbrio), a Petrobras pode ter margens melhores com petróleo brasileiro em função da diferença no desconto do preço de venda.
O consultor observa que essa desvantagem do produto venezuelano não vai pesar na decisão de investimento de empresas americanas, porque o parque de refino dos EUA é majoritariamente adaptado a esse tipo de produto e esses agentes olham para os preços dos derivados, sobretudo diesel, que é o mesmo independente do óleo de origem.
Sem mais exportação
Melgarejo minimizou o que seria uma janela de oportunidade para a Petrobras ampliar exportações substituindo cargas venezuelanas bloqueadas, sobretudo destinadas à China. Para além da diferença entre os tipos de petróleo, ele lembra que a companhia não tem volumes incrementais para ampliar exportação.
“Já exportamos tudo o que sobra hoje. Pode haver algum ganho em termos de preço, mas não há muito o que fazer em termos de volume de exportação”, diz o diretor.
Segundo o executivo, a parte da produção operada que cabe à companhia é de 2,5 milhões de barris por dia, sendo que a demanda das refinarias da estatal é de 1,8 milhão de bpd e quase 200 mil de bpd são vendidos no mercado doméstico. Considerando que as refinarias usam uma parcela de petróleo importado necessária à operação, o saldo exportado pela Petrobras hoje está em 500 mil bpd, com pouca margem para aumento no curto prazo.
Plano Estratégico
Sobre o movimento de representantes de investidores privados no CA (Conselho de Administração) da Petrobras para reduzir a previsão de investimentos da empresa constante no Plano Estratégico 2026-2030, devido a uma possível queda mais acentuada nas cotações do petróleo, Melgarejo preferiu não comentar, alegando que nada a respeito chegou na diretoria executiva. Essa movimentação de conselheiros, que deve ser introduzida em reunião do colegiado no próximo dia 16, foi reportada pela coluna de Julio Wiziack, no Uol, ainda na terça-feira (6).
Segundo interlocutores da companhia, no entanto, a direção da Petrobras não planeja modificar imediatamente o Plano Estratégico, ainda “100% aderente” aos cenários projetados pela empresa, que consideram riscos geopolíticos. Além de o cenário externo não estar consolidado, essas fontes afirmam que o plano foi desenhado para ter mais flexibilidade, com uma “gordura” de projetos passíveis de revisão da ordem de US$ 10 bilhões.
“O PE [Plano Estratégico] já é revisado a cada ano, e ainda foi adicionado esse ‘buffer’ [amortecedor] de US$ 10 bi para ser revisitado trimestralmente em função da visão sobre o fluxo de caixa. Não tem porque mexer no Plano agora”, disse uma fonte da Petrobras que preferiu não se identificar.
A estatal planeja investir US$ 109 bilhões nos próximos cinco anos. A previsão tomava como premissa um preço médio do barril do petróleo tipo Brent de US$ 63 para 2026 e, depois, US$ 70 em todos os anos até 2030. O plano ainda prevê um “fluxo de caixa resiliente”, com Brent de equilíbrio para neutralidade da dívida líquida de US$ 59 por barril em 2026 e US$ 48 por barril em 2030.
As premissas de Brent médio entre US$ 63 e US$ 70 foram recebidas pelo mercado como excesso de otimismo da Petrobras. Mesmo antes da investida americana na Venezuela, o mercado já considerava que o Brent poderia cair para algo perto de US$ 55 já neste ano, o que fica ainda mais plausível pela possibilidade de uma sobreoferta de produto ainda maior.








