Marisa Wanzeller, Lais Carregosa e Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA
As chuvas do período úmido entre 2025 e 2026 estão abaixo da média e frustram as expectativas do setor elétrico, afirmam especialistas à Agência iNFRA. Fontes a par do debate no governo já citam preocupação com o regime de chuvas para este ano.
A meteorologista, especialista em Clima e Energia da Climatempo, Marcely Sondermann, aponta que as chuvas estão abaixo da média em grande parte do país, inclusive onde estão os principais reservatórios de geração de energia elétrica nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. Segundo ela, no período úmido, foram registrados apenas dois episódios de chuvas mais volumosas capazes de elevar os níveis de forma significativa, um em dezembro de 2025 e outro no início de janeiro de 2026.
“Até agora, as chuvas não têm sido suficientes para uma recuperação consistente dos principais reservatórios”, disse a especialista. “Esse cenário requer uma grande atenção. Apesar de ainda haver alguma contribuição das chuvas, a recuperação dos reservatórios tem ocorrido de forma lenta e gradual.”
Previsões
Mesmo com a expectativa de mais um “corredor de umidade” em janeiro, as chuvas devem permanecer abaixo da média nas regiões que concentram a maior parte da geração hidrelétrica no país. Logo, a recuperação dos reservatórios tende a ser “limitada e gradual”, conforme explica Marcely.
A especialista ainda informa que, mais à frente, há previsão de formação do El Niño – fenômeno associado às secas no Norte e Nordeste e volume alto de chuvas no Sul – no fim do inverno. Esse fenômeno pode levar a temperaturas mais elevadas, o que aumenta o consumo de energia elétrica.
“Além disso, com os oceanos mais aquecidos, há um maior favorecimento para a formação de bloqueios atmosféricos e interrupções da chuva ao longo do período úmido de 2026/2027. Esse conjunto de fatores reforça a necessidade de monitoramento contínuo das condições climáticas e hidrológicas”, conclui a meteorologista.
Preços
O head de Planejamento e Inteligência de Mercado da consultoria PSR, Mateus Cavaliere, aponta que a “frustração de chuvas já começa a acender alertas”. O mercado de contratos já reage com ajustes semanais nas cotações de preços de energia, diz o especialista. Segundo ele, os efeitos alcançam, também, contratos com entregas nos próximos anos, “porque o sistema chegaria mais pressionado”.
Já no mercado regulado, Cavaliere aponta que a frustração deve refletir na maior possibilidade de acionamento das bandeiras tarifárias neste ano e eventuais resquícios de “restos a pagar” no próximo ano.
Para evitar crises no longo prazo, o especialista ressalta que o “playbook clássico” é o acionamento térmico para preservação dos reservatórios. No entanto, é necessária uma avaliação “mais criteriosa” para esta decisão, tendo em vista o “encarecimento recente da curva de geração térmica”. Para ele, programas como Resposta da Demanda e aperfeiçoamentos no sinal de preço são instrumentos alternativos importantes, que sinalizam ao consumidor o real custo de geração do sistema.
Recuperação gradual
Cavaliere, no entanto, pondera que, apesar do cenário atual, o histórico recente mostra que é possível uma “recuperação tardia” dos reservatórios ao longo do período úmido, que se estende até maio. “Em nossas simulações, os cenários críticos para suprimento ainda são minoria e dependeriam de uma frustração maior do que a que está sendo observada agora em janeiro”, afirmou à Agência iNFRA.
O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) também afirmou que espera uma “recuperação gradual” dos níveis do subsistema Sudeste/Centro-Oeste entre janeiro e março, “condicionada à evolução das afluências que ocorrerão neste período”. Atualmente, os dados apontam que o nível médio de armazenamento na região, que concentra 70% dos reservatórios do SIN (Sistema Interligado Nacional), é de aproximadamente 43%. O operador destaca que tem feito acompanhamento sistemático dos níveis e monitoramento contínuo das condições de atendimento eletroenergético do país.








