Rafael Bitencourt, da Agência iNFRA
O preço internacional do ouro voltou a flutuar próximo de US$ 5,4 mil a onça-troy (o equivalente a 31,1 gramas) desde o início dos conflitos no Irã, no fim de semana. Na segunda-feira (2), a cotação atingiu a máxima de US$ 5.434, fechando no fim do dia em US$ 5.311. Para especialistas, o preço tende a crescer com o acirramento dos ataques.
Especialistas do setor de mineração explicam que a valorização repentina do ouro, em resposta à escalada de conflitos internacionais e guerras comerciais, ocorre pelo metal ser considerado um ativo seguro. No início de 2025, o mercado se surpreendeu ao ver a cotação do metal alcançar US$ 3 mil a onça-troy. Mas os preços registrados este ano têm provocado novas surpresas. No fim do ano passado, muitos analistas duvidam que o valor do metal fosse ultrapassar a barreira dos US$ 5 mil.
A diretora de pesquisa do Instituto Escolha, Larissa Rodrigues, disse à Agência iNFRA que os novos patamares de preços foram atingidos a partir do retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca, no chamado “efeito Trump”, somado às incertezas geradas na invasão da Ucrânia pela Rússia e, mais recentemente, na guerra entre Israel e Hamas.
Ela aponta que os conflitos tendem a se “acirrar e aumentar ainda mais o preço do ouro”. Larissa afirma que as altas sucessivas no preço do ouro são observadas desde a crise financeira de 2008, causada pelo estouro da bolha imobiliária nos EUA. Ela citou também o exemplo do repique de preço notado durante a pandemia da Covid-19.
No mesmo sentido, o engenheiro Hélcio Guerra, da Biz Invest Fusões e Aquisições, ex-executivo da Vale e da AngloGold Ashanti, aponta que “o ouro é percebido como um porto seguro em momentos de turbulência”. “Não só agora no conflito com o Irã, mas em todos os outros que tivemos, como a guerra da Ucrânia, as tensões geopolíticas entre Estados Unidos, China e Rússia”, explica.
Ele ainda avalia que o atual patamar de preço do ouro, bem acima dos alcançados em anos anteriores, envolve fatores econômicos como a desvalorização do dólar, os déficits públicos registrados por grandes economias e a sinalização de aumento da inflação global.
“Naturalmente, com o enfraquecimento do dólar, os investidores saem em uma busca por algo que não seja influenciado pela desvalorização da moeda americana. Então, eles procuram outras moedas, outros ativos financeiros como o outro para tentarem se proteger”, afirmou Guerra, à Agência iNFRA.
Viabilidade de projetos
Na visão dos especialistas, a alta de preços tende a reforçar a aposta de investidores na descoberta e exploração de novos depósitos no Brasil, afirmam os especialistas. Larissa ressalta que a produção industrial já tem recebido atenção dos agentes econômicos nos últimos anos.
“O preço se mantém elevado há um bom tempo e só segue subindo já há algum tempo, há mais de ano. Isso tem estimulado a busca por novos projetos de exploração de ouro no Brasil”, ressaltou a diretora do Escolhas.
Essa visão é compartilhada por Guerra, que enxerga oportunidade com projetos de médio porte se tornando viáveis. Segundo ele, a atratividade desses projetos chamam a atenção principalmente das empresas estrangeiras.
“Todo aumento de preços aumenta a procura por depósito, o que favorece desenvolvimento da indústria mineral no país. Esse é o mesmo movimento que a gente observa em terras raras, cobre e outros e outros metais que se encaixam na estratégia da transição energética, como lítio e outros minerais da fabricação carros elétricos e coisas assim”, afirmou o executivo.
Garimpo ilegal
Sobre o temor do aumento de preço atrair o garimpo ilegal, especialistas destacam que o Brasil adotou medidas para coibir a atividade clandestina e que têm demostrado resultado. Larissa cita que, em 2023, o registro de nota fiscal eletrônica na comercialização do ouro começou a ser exigido. Além disso, ela conta que decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) suspendeu a presunção de “boa fé” no comércio.
De acordo com levantamento do Instituto Escolhas, a exportação de ouro no Brasil havia alcançado 96,3 toneladas em 2022. No ano seguinte, após medidas de combate ao garimpo e comércio ilegal, o volume exportado caiu para 67,9 toneladas. Em 2025, as remessas ao exterior tiveram ligeira recuperação, alcançando 73,3 toneladas.
Guerra afirma que o esforço de implementar a rastreabilidade da produção no país tem mostrado resultados. “Existe um trabalho muito forte da Receita, Polícia Federal e demais órgãos de fiscalização em cima das PLGs (Permissões de Lavras Garimpeiras), que já há algum tempo fez com que diminuísse o garimpo ilegal”, disse.






