Luiz Araújo, da Agência iNFRA
Primeiro do ano para rodovias federais, o leilão de concessão da Rota das Gerais (BR-116/251/MG), realizado nesta terça-feira (31), em São Paulo, foi arrematado pela EcoRodovias. A companhia, com atuação consolidada no setor, estava fora das disputas por ativos federais desde 2022 e adquiriu seu primeiro ativo federal na atual gestão que fez 23 concessões em pouco mais de três anos. Com disputa que incluiu outras duas propostas, o leilão deu lugar a uma cerimônia informal de homenagens ao ministro dos Transportes, Renan Filho.
Prestes a deixar o cargo para concorrer nas eleições, o ministro teve sua gestão elogiada em todos os discursos de batida de martelo. Ao assumir a palavra, falou sobre entregas e disse estar confiante na continuidade dos trabalhos pelo novo comando da pasta, que será assumido pelo seu número dois, George Santoro.
“O governo anterior fez seis em quatro anos. Nós ainda estamos com três anos e três meses”, disse o ministro referindo-se aos 23 leilões já realizados em sua gestão. Com outros doze projetos previstos para este ano, a estimativa é de que o governo encerre o período tendo contratado R$ 400 bilhões em investimentos e 35 leilões realizados. Ele lembrou que o governo anterior deixou contratados menos de R$ 100 bilhões em Capex para concessões rodoviárias.
O sucesso da carteira, afirmou Renan Filho, contrariou o pessimismo inicial. “Entre os 23 leilões, tivemos 50 envelopes (propostas), de 27 grupos diferentes e 16 vencedores distintos”, disse, contrastando também com os números das gestões anteriores que ficaram concentrados em dois players apenas, a EcoRodovias e a antiga CCR (atual Motiva). “No Brasil, se havia dúvida sobre a existência de players no mercado, estão aí os últimos leilões para mostrar.”
O diretor-geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), Guilherme Sampaio, contou que Renan apresentou no início da gestão o desafio de fazer o maior ciclo de investimentos da história do país, o que foi encarado com algum ceticismo. Ele agradeceu a Renan pela liderança no processo e lembrou ainda que o leilão reuniu três participantes, mesmo com os problemas causados pela guerra no Oriente Médio. “Projeto bom, bem estruturado, que traz segurança e estabilidade, o dinheiro não corre fora”, disse Sampaio.
O presidente da ABCR (Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias), Marco Aurélio Barcelos, que discursou na B3, disse que a gestão de Renan Filho trouxe confiança aos projetos, mudando o ambiente anteriormente observado no setor. “O senhor deixa o nome, deixa um legado e leva o nosso reconhecimento”, disse, dirigindo-se ao ministro.
Papel da equipe
Renan Filho agradeceu nominalmente parte de sua equipe. Disse que a secretária de Transporte Rodoviário, Viviane Esse, “tem feito um trabalho exemplar”. Cumprimentou Santoro e também citou Bruno Praxedes, atual chefe da Assessoria de Assuntos Parlamentares e Federativos, anunciando-o para o posto de secretário-executivo.
O ministro também atribuiu parte dos resultados ao diálogo com outros órgãos. “A relação com o TCU [Tribunal de Contas da União], com o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]. No governo, a Casa Civil, o PPI [Programa de Parcerias de Investimentos], que colaboram muito”, afirmou. No TCU, por exemplo, concessões com contratos estressados tiveram acordos de repactuação chancelados, parte deles tornando-se novos leilões.
O BNDES foi o estruturador dessa concessão e já está contratado para estudar as rodovias que serão licitadas a partir de 2027 pela pasta. A diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, afirmou que foram aprovados pelo banco R$ 49 bilhões entre 2023 e 2025 em financiamentos para o setor.
Para o período entre 2026 e 2029, disse que deverão ser aprovados outros R$ 80 bilhões. A diretora destacou a importância dos instrumentos financeiros para o sucesso da carteira. “Conseguimos aprovar tudo isso porque fomos capazes de inovar na estruturação dos financiamentos”, afirmou, citando a criação de linhas que não dependem de subsídio.
Modo eleitoral
Renan Filho também reservou espaço para criticar adversários políticos. Além de comparar os números de sua gestão com os do governo de Jair Bolsonaro, que realizou seis leilões, citou diretamente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ex-ministro da Infraestrutura da gestão Bolsonaro, e o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Disse que o sucesso de uma gestão depende de diálogo e convicção, não podendo incluir pautas “apenas para ganhar as eleições”.
O ministro afirmou que irá cobrar adversários por posicionamentos que, segundo ele, prejudicam o país. “Fazem política com bonézinho do MAGA [movimento político ligado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump]. O bonezinho do MAGA significa, no mundo atual, tarifa e guerra. Guardam na gaveta. Não. Agora vou tirar o boné do MAGA da gaveta e colocar na cabeça do Tarcísio, do Zema.”
Antes das falas de Renan Filho, o deputado federal Paulo Guedes (PT-MG) discursou na B3 e fez apostas sobre o futuro político do ministro. Após agradecer pela entrega da Rota das Gerais, afirmando que articulou pelo avanço do projeto, o parlamentar disse que a passagem de Renan Filho pelo Ministério dos Transportes o credencia para, no futuro, disputar a Presidência da República.
Leilão
Os 19% de desconto sobre a tarifa básica de pedágio ofertados pela EcoRodovias venceram o Consórcio Atlas Rodovias, liderado pela YVY Capital – gestora criada pelo ex-ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, e pelo ex-presidente do BNDES, Gustavo Montezano –, e da Brasil Rodovias, com a Monte Rodovias, controlada pelo fundo australiano Macquarie. Ambos participavam pela primeira vez de disputas por concessões rodoviárias federais.
O leilão foi disputado entre vários lances na etapa viva-voz após as propostas de descontos iniciais de 13,5% da EcoRodovias e de 13,7% da Atlas. O consórcio Brasil Rodovias foi eliminado na primeira fase após propor desconto de 0,01%. Já o último desconto ofertado pela Atlas foi de 18,90%.
A rodovia se conecta a outras duas concessões operadas pela EcoRodovias: Ecovias Norte Minas (BR-135, MG-231 e LMG-754) e Ecovias Rio Minas (BR-116 RJ/MG, BR-493-RJ e BR-465-RJ). Predominantemente voltada ao transporte de cargas, a via é um corredor logístico de longa distância na ligação entre as regiões Nordeste e Sudeste.
Os investimentos, a serem realizados ao longo de 30 anos, somam R$ 13 bilhões, sendo R$ 7,3 bilhões em Capex e R$ 5,8 bilhões em Opex. Estão previstas intervenções em 375 quilômetros para ampliação de capacidade, incluindo duplicações, faixas adicionais, vias marginais e contornos.
“É um dos mercados de infraestrutura mais evoluídos do mundo […] O ativo para nós é muito importante, é sinérgico, conhecemos bem a região e o altíssimo potencial”, disse o CEO da EcoRodovias, Marcello Guidotti. Segundo ele, o Capex é bastante espalhado no contrato, e seu financiamento deve seguir a estrutura de mini-perm, instrumento que permite a reprecificação de empréstimos no meio do contrato. Com o novo ativo, o grupo controlado pela italiana ASTM passa a operar doze concessões rodoviárias, distribuídas em sete estados, totalizando pouco mais de cinco mil quilômetros.






