07/08/2026 | 12h00

Dias com risco de colapso no sistema elétrico dobraram em um ano

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Lais Carregosa, da Agência iNFRA*

Dias críticos para a segurança do sistema elétrico têm se tornado mais frequentes. Levantamento da Volt Robotics, elaborado a pedido da Agência iNFRA, aponta que, entre janeiro e julho deste ano, já foram seis dias de estresse. No mesmo período de 2025, houve três dias críticos. 
 
Dois anos antes, em 2024, houve apenas um dia em que foi preciso cortar acima de 80% da geração eólica e solar potencial para manter a operação do sistema. Esse número aumentou para 16 no ano passado.

Todos eles têm uma coisa em comum: são fins de semana, especialmente domingos, ou feriados, quando há excesso de oferta de energia, especialmente solar, e a demanda cai acima do normal. Donato da Silva Filho, presidente e fundador da Volt, resume: “A pior desgraça que temos hoje é um domingo de sol. Se for um domingo frio de sol, pior. E se for um domingo de sol no meio de um feriado prolongado, pior ainda”.

Fontes explicam que o sistema elétrico costuma ter cargas menores no período entre julho e agosto. Ou seja, é uma característica sazonal. Junta-se a isso o fato de os domingos apresentarem consumo de energia ainda menor em relação aos outros dias da semana.

“Os domingos de julho e agosto são os domingos em que a ‘barriga do pato’ está mais perto do chão”, disse um interlocutor a par do assunto, referindo-se à queda da carga no período da tarde – cujo gráfico, com queda durante a tarde e alta brusca de consumo no início da noite, se assemelha a um “pato”.

Dia dos Pais
O Dia dos Pais, no próximo domingo (9), deve pressionar o sistema elétrico mais uma vez. Na quinta-feira (6), o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) emitiu “sinal vermelho” para o acionamento do plano emergencial – que desliga usinas de geração distribuída do tipo 3, geralmente hidrelétricas conectadas nas redes de distribuição. 

O alerta foi feito diante da possibilidade de redução da demanda por energia e alta geração solar – combinação que tem se tornado mais frequente nos últimos anos e colocado em risco a segurança do sistema, segundo especialistas consultados. 

O acionamento, no entanto, só será confirmado no sábado (8), quando a programação de domingo será definida, informaram fontes. Pesam nessa confirmação a previsão de temperatura e nebulosidade. Isso porque a temperatura baixa derruba a carga, e a baixa nebulosidade aumenta a geração solar, explicam. Também está sendo considerada a possibilidade de chegada de uma frente fria em São Paulo e no Rio de Janeiro, o que poderia reduzir a carga nos principais centros de consumo do país.

Riscos no feriado
Para o ex-diretor da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e diretor-executivo da Neal, Edvaldo Santana, o risco para o próximo feriado é a manutenção da geração solar no patamar dos últimos dias, em torno de 40 GW (gigawatts), junto a uma carga baixa no início da tarde – que gira em torno de 60 GW aos domingos. 

Edvaldo destaca que, para uma carga de 60 GW ou menos, sobraria pouca margem de operação para o ONS. Isso porque a maior parte da demanda seria atendida por usinas não despacháveis, como as termelétricas inflexíveis e a MMGD solar (Micro e Minigeração Distribuída solar).

“Qualquer abalo na rede, qualquer coisinha, é um colapso. É por isso que a situação é perigosa todos os finais de semana, aos domingos, especialmente aos feriados”, frisou.

Apesar disso, o cenário pode ser melhor que o do Dia dos Pais de 2025, quando o sistema quase colapsou. O presidente da Volt Robotics concorda que o próximo domingo será um dia estressante para o sistema elétrico, mas pondera que as temperaturas mais altas neste ano devem ajudar a elevar a demanda por energia, na comparação com o feriado “desesperador” de 2025 – um dia frio, com carga abaixo do esperado. 

“Vai ser um domingo em que muita gente para [e] vai ter sol, mas as temperaturas mais altas devem ajudar a gente a não ter um Dia dos Pais igual ao do ano passado”, disse. 

Ele ressalta ainda que, no ano passado, havia cerca de 14 GW de geração térmica no sistema, o que também agravou a situação. “A gente espera que não vá ter um despacho térmico tão elevado quanto o do ano passado, porque agora a gente já está meio que vacinado.”

Perspectivas e soluções
Edvaldo Santana projeta que o equilíbrio entre geração e carga só deve acontecer em 2042, quando o consumo passará a crescer mais do que a expansão da geração. “É o excedente que está causando o problema e tem que ser reduzido. E só vai reduzir quando o consumo aumentar, mas ele está crescendo muito menos do que o aumento da oferta.”

Além do aumento do consumo, ele aponta a limitação do escoamento de geração distribuída nas redes, com cortes automáticos, como solução. No entanto, o ex-diretor da ANEEL vê entraves políticos para a medida, que enfrentaria resistência no Congresso.

O atual plano emergencial, implementado pelo ONS em parceria com as distribuidoras, tem efeito limitado, afirma Edvaldo. Isso porque depende da conscientização de cada agente para obedecer ao comando do operador. 

Donato, da Volt, destaca que o plano emergencial consegue desligar cerca de 1 GW a 2 GW, de um total de 20 GW possíveis. Ele ressalta, no entanto, que é preciso enxergar além do corte. Para o executivo, a carga nas redes de distribuição pode ser utilizada como um recurso distribuído, ajudando a transferir o consumo para os horários com maior excedente de geração. 

“É essa discussão que a gente acha que tem que avançar aqui. Essa questão só de cortar é muito triste porque são muitos bilhões que foram investidos nesse sistema e a gente está subutilizando ele”, declarou.

O plano emergencial começou a ser desenvolvido há cerca de um ano, após o último Dia dos Pais, e foi acionado pela primeira vez em junho de 2026. Os alertas são emitidos semanalmente e variam entre verde (baixa probabilidade de utilização do plano), amarelo (estado de atenção) e vermelho (alta probabilidade).

*Colaborou: Marisa Wanzeller

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