Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA
O presidente da Shell Brasil, Cristiano Pinto da Costa, disse nesta terça-feira (3) que a expectativa da companhia é que a cotação do petróleo tipo Brent fique nos patamares atuais, na casa dos US$ 80, por “algumas semanas”, mas reforçou que o grau de incerteza é muito grande para que o setor se fie em previsões de momento. O executivo disse que tanto a Shell quanto outras companhias do setor só vão revisitar qualquer estratégia de investimento se esse cenário se sustentar por “alguns meses e não semanas”.
“A nossa indústria não toma decisão de investimento em projetos de bilhões de dólares baseada na flutuação [de preços] de uma semana para outra, de um mês para o outro. Costuma olhar os fundamentos no médio prazo. O que aconteceu nos últimos dias, essa alta, não deve interferir na estratégia de longo prazo, a não ser que esse patamar de preços permaneça por muito mais tempo. Meses e não semanas”, afirmou o presidente da Shell em café da manhã com jornalistas na sede da empresa, no Rio de Janeiro.
Pinto da Costa disse que, para além da alta no preço do barril, a Shell tem observado um forte pico no preço do frete marítimo, um custo que já vinha crescendo nos últimos meses e disparou nas últimas 48 horas. Segundo ele, o mesmo tende a acontecer com o seguro das cargas e ativos, mas, nesse caso, contratos firmados antes da deflagração do conflito no Irã vão reduzir a exposição da empresa. Ele garantiu que não há nenhum impacto nas cargas da Shell Brasil, que vão em sua maioria para China, por outras rotas.
“Como os principais mercados do petróleo brasileiro são China e Europa, a gente, nesse momento, está fora da rota do conflito, mas impactos de segunda e terceira ordem, como o frete, que já vinha subindo e subiu muito agora, podem sim ter impacto na comercialização do mercado brasileiro”, continuou.
Benefício para o Brasil
Ainda assim, o executivo afirmou que esse episódio, embora infeliz, descortina oportunidades para o Brasil no médio e longo prazo, uma vez que o país se firma como uma opção segura para produtores e consumidores.
“É natural esperar que se crie uma oportunidade para regiões que estão longe do conflito. Há espaço sim para que o Brasil e a América Latina em geral se reforcem como uma opção segura de investimento no longo prazo, desde que preserve um ambiente regulatório estável, um ambiente fiscal competitivo e dinâmica de licenciamento ambiental ágil”, disse o presidente da Shell.
No curto prazo, disse Pinto da Costa, a capacidade do Brasil de ampliar produção e suas exportações é limitada, diferente do que acontece em países como a Arábia Saudita, que tem capacidade ociosa pronta para ser acionada. Mas, em suas palavras, a janela de mercado pode se materializar no médio e longo prazos, com redirecionamento do fluxo de investimentos para a região e maior competição em leilões de áreas futuras.
Investimentos
Segundo Pinto da Costa, a Shell bateu recorde de investimento no Brasil em 2025, R$ 12,5 bilhões, e em 2026 deve seguir investindo acima da média histórica, que é de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão (até R$ 7,9 bilhões no câmbio do momento). Os investimentos no upstream brasileiro vêm para sustentar e incrementar a produção da empresa no país, que também bateu recorde em 24 de fevereiro: 495,9 mil boe (barris de óleo equivalente).
O capex do ano passado, explicou ele, foi puxado por três frentes, todas na Bacia de Santos: investimentos junto à Petrobras para sustentar a produção do campo de Tupi no patamar de 1 milhão de barris por dia (bpd); investimentos junto à Total para um novo tie-back (ligação de poços a um FPSO distante) em Sudoeste de Lapa, estrutura que deve começar a operar na próxima semana; e a decisão final de investimento do projeto do campo de Orca (ex-Gato do Mato).
Já para 2026, além de eventuais desembolsos em leilões de área, Pinto da Costa indicou que haverá continuidade nos investimentos de Orca e, também, construção de um segundo FPSO para o campo de Atapu, negócio que a companhia mantém com a Petrobras na Bacia de Santos.







