Opinião
03/11/2026 | 12h45

Artigo | Mobilidade em 2027: o desafio de conectar pessoas e oportunidades

Foto: Divulgação

André Salcedo*

Durante muito tempo, falar sobre o futuro da mobilidade urbana significou falar sobre expansão: novas linhas, estações, veículos e quilômetros de vias. Essa agenda continua necessária. Mas o próximo ciclo traz uma pergunta maior: como transformar investimento em infraestrutura em redes mais acessíveis, integradas, eficientes e capazes de acompanhar as necessidades das pessoas e a transformação das cidades?

Essa pergunta ganha urgência num momento em que a mobilidade urbana volta a ocupar espaço central no debate público brasileiro. A provocação que trago é: como financiar a expansão e a operação desses sistemas sem perder de vista duas variáveis que, juntas, determinam quantas pessoas de fato vão usar o transporte público: tarifa acessível e integração?

O Brasil já deu um passo relevante na quantificação das necessidades de expansão dos sistemas. O Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, desenvolvido pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades, identificou 187 projetos de transporte coletivo de média e alta capacidade nas 21 maiores regiões metropolitanas do país. Somados, esses projetos representam mais de 3 mil km de novas linhas e cerca de R$ 430 bilhões em investimentos.

Diante desse volume, o desafio deixa de ser apenas viabilizar as obras e passa a ser garantir que elas se traduzam em sistemas que conectem pessoas e oportunidades. Isso exige inovar na forma de estruturar e operar esses ativos e, em paralelo, equacionar o lado da tarifa, que é o que determina o acesso e o alcance do transporte público. 

Essa discussão também aparece no debate internacional. Segundo a UITP (União Internacional de Transportes Públicos), tornar o transporte público mais acessível não significa necessariamente eliminar a tarifa, mas encontrar um equilíbrio entre o que o passageiro pode pagar e a sustentabilidade financeira do sistema. No relatório Global Economic Outlook 2024, a entidade identificou, entre os operadores consultados, faixas mais comuns de cobertura tarifária de 31% a 40% e de 41% a 50% dos custos dos sistemas.

Nesse contexto, cabe a pergunta: como ampliar o acesso sem comprometer a qualidade e a sustentabilidade dos sistemas? Mesmo quando o passageiro não paga, ou paga menos, o custo existe e recai sobre a sociedade. O serviço continua precisando de recursos para operar, manter ativos, renovar frotas e expandir sua capacidade. Hoje, esses custos são financiados majoritariamente por uma combinação de tarifa e subsídios públicos.

O Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano (Lei 15.432/2026), que entra em vigor em junho de 2027, reforça a necessidade de conciliar acessibilidade econômica, qualidade e sustentabilidade do serviço. A norma estimula a ampliação das fontes de financiamento, como receitas extratarifárias, subsídios cruzados e projetos associados, entre eles o desenvolvimento imobiliário integrado às estações, o que pode acelerar a expansão do setor.

O território ao redor das estações é parte dessa resposta. Projetos integrados à infraestrutura dos trilhos, como habitação de interesse social, requalificação de áreas contíguas e a integração de serviços como escritórios, hospitais, hotéis e centros comerciais, aproximam moradia, emprego e serviços da rede de transporte e geram receitas que complementam a tarifa. Nas Linhas 8 e 9, operadas pela Motiva e que atravessam seis municípios da região metropolitana de São Paulo, esse potencial pode ser desenvolvido em conjunto por diferentes cidades, e o Marco Legal abre caminho ao reconhecer as áreas contíguas e o desenvolvimento orientado ao transporte. Experiências na Ásia, como a de Hong Kong, que combina ferrovia e desenvolvimento imobiliário, mostram como esse modelo pode contribuir para tarifas mais acessíveis e para a expansão dos sistemas. 

O investimento se justifica não pelo ativo que ele representa, mas pelos efeitos que ele produz. Uma nova linha de metrô ou trem não é apenas uma obra. Ela pode reduzir tempos de deslocamento, aproximar pessoas, ampliar oportunidades de emprego e estudo, estimular novos negócios, transformar territórios, aumentar a inclusão social e reduzir desigualdades. Por isso, é insuficiente medir o resultado de uma infraestrutura apenas pelos quilômetros construídos. Precisamos ir além.

É aí que entra outro desafio: integração. O passageiro não pensa necessariamente em metrô, trem, ônibus ou VLT como sistemas separados. Ele pensa em se deslocar, e existem múltiplas formas de fazê-lo, como transporte público, aplicativos e veículos próprios. Todo dia é uma escolha. Precisamos pensar em conveniência para que o transporte sobre trilhos seja parte da escolha diária dessas pessoas. Em Salvador, o Metrô Bahia, gerido pela Motiva, opera integrado aos ônibus por um cartão único e firmou parceria com a 99 para que o passageiro compre créditos do metrô direto pelo aplicativo. No Rio, o Terminal Intermodal Gentileza, viabilizado por aditivo com a concessionária do VLT Carioca, também gerido pela Motiva, integra o VLT ao BRT e a linhas de ônibus.

Uma rede eficiente precisa ter complementaridade entre modais e conectar territórios e serviços, tornando a jornada mais simples e previsível. Ao mesmo tempo, a tecnologia começa a mudar a própria operação da infraestrutura. Dados, automação e inteligência artificial podem ajudar a antecipar falhas, melhorar a manutenção, compreender a demanda e qualificar a experiência do passageiro. Mas seu valor estará menos na tecnologia em si e mais naquilo que ela conseguir entregar: mais regularidade, segurança, conforto e confiabilidade.  Na Motiva, desenvolvemos iniciativas de inovação voltadas à análise de falhas complexas e ao apoio à manutenção, que se somam à experiência da Linha 4-Amarela, primeira linha driverless do país, e à nossa participação no Comet (Community of Metros), maior grupo de benchmarking de metrôs do mundo, que nos conecta a práticas globais de automação, dados e manutenção.

Para o poder público, isso significa coordenar e planejar a mobilidade de forma cada vez mais integrada ao desenvolvimento urbano. Para as empresas, significa olhar para todo o ciclo de vida dos ativos e buscar continuamente mais eficiência e qualidade. Para a sociedade, significa esperar que o transporte coletivo seja não apenas disponível, mas capaz de devolver algo que se tornou um dos recursos mais escassos das grandes cidades: tempo.

O próximo ciclo da mobilidade brasileira, portanto, será definido por inovações na forma de financiar, integrar, operar e tornar mais acessível aquilo que construirmos.

Construir mais, mas também conectar melhor. Investir em infraestrutura e em qualidade. Usar tecnologia com o olhar voltado para as pessoas que transportamos. Porque, no fim, cada quilômetro de trilho só ganha seu verdadeiro significado quando aproxima pessoas e oportunidades.

*André Salcedo é CEO da Plataforma de Trilhos da Motiva.

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