Gustavo de Marchi*
O Brasil vendeu o data center numa manhã na Califórnia, mas ainda não desenhou o mercado que o acende.
Na manhã de 6 de maio de 2025, sob a névoa das colinas de Santa Cruz, eu estava à mesa no Rosewood Sand Hill. Éramos pouco mais de quarenta executivos – AWS, Google, Microsoft, Meta, Nvidia, fundos, operadores de infraestrutura – e, no centro, Fernando Haddad. Jardins úmidos, pátios abertos, a Sand Hill Road ao lado. O cenário era pretexto. A intenção era outra: mandar um recado a Brasília. Energia limpa, reforma no horizonte, o Redata para desonerar o equipamento, a cifra de até R$ 2 trilhões de investimentos potenciais. Diante de nós, o ministro ensaiava o país que o Congresso ainda teria de autorizar.
O recado demorou a ser ouvido. A MP (Medida Provisória) 1.318/2025 veio em setembro, caducou em fevereiro de 2026, voltou como PL (Projeto de Lei) 278/2026 e só se completou no começo deste setembro. Dezesseis meses entre aquele jardim e o texto agora sancionado no Palácio. Num mercado que escolhe campus em trimestre, isso não é trâmite. É tempo perdido.
Enquanto Brasília discutia iniciativa e urgência, a cena que decide a corrida acontecia longe daquele pátio. No norte da Virgínia, o data center chega com módulos pré-fabricados atrás do medidor. Não pede subestação. Não entra na fila da concessionária. Para entregar um sistema pronto, precisa de gasoduto, gás barato e algumas semanas.
Naquela manhã, o Brasil nos ofereceu incentivo sobre o servidor. Nos Estados Unidos, o que destrava a instalação é a energia atrás do medidor, quando a concessionária diz não. A célula de óxido sólido converte gás em eletricidade sem combustão, com eficiência elétrica na casa de 50% a 60%, conforme o combustível. O modelo só fecha porque o Henry Hub entrega preço líquido e previsível. Sem esse preço, o módulo é equipamento sofisticado. Com ele, é atalho. Estávamos no mesmo ecossistema que o ministro foi cortejar. Da nossa cadeira, o pedido soava generoso: venham, o terreno é bom, o sol ajuda, o imposto vai cair, a regra não vai mudar no meio do jogo. Do outro lado da mesa, percebi depois, a pergunta já era outra. Ninguém duvidava que o Brasil pudesse receber o data center. A dúvida, a única que de fato pesa, era se saberíamos acendê-lo.
O Redata admite o gás de “baixa emissão”. É o trecho honesto do texto de 2026. Admitir o combustível, porém, não cria o mercado. O pré-sal produz gás. Cabiúnas já processa volumes que dariam um ponto de referência, porém, não cria preço. Falta o que a Virgínia tem e Macaé ainda não: competição no processamento, oferta independente, preço doméstico que não imite o GNL importado. Sem isso, a palavra no papel é permissão. Não é desenho. Por isso aquele campus modular não se instala aqui no mesmo gesto. Não falta o módulo. Falta o gás barato e previsível que o torna um negócio.
Há uma simetria incômoda entre os dois atrasos. O país perdeu dezesseis meses para votar o incentivo do equipamento. Pode perder a década seguinte se tratar o gás como nota de rodapé do regime especial, e não como o combustível invisível da fila que aquele data center atravessa toda semana. O café na Califórnia vendeu o Brasil que tem sol, vento, água e uma manhã bonita. A célula na Virgínia mostra o Brasil que ainda não tem: um mercado no qual o data center nasce atrás do duto e do medidor.
O Rosewood ficou para trás, com a névoa, os pátios e a fama de lugar em que negócios nascem sem alarde. O que sobrou, no Brasil, é mais prosaico e mais decisivo: regulamentar o que é baixa emissão e, desta vez, não deixar a janela fechar outra vez. Café idílico não substitui o Diário Oficial.
*Gustavo de Marchi é presidente da Gasmig.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.


