15/09/2026 | 12h30

Governo quer leiloar em 2027 a maior linha de transmissão do Brasil

Foto: Domínio público

Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA

O governo quer licitar a maior linha de transmissão do Brasil no próximo ano. O projeto, denominado até o momento Bipolo Nordeste 2, é orçado em R$ 26 bilhões e tem sido descrito como a principal obra visando à redução do curtailment (cortes de geração) e abertura de margem na rede no Nordeste. O empreendimento deve entrar no cronograma de leilões que está sendo revisado pelo MME (Ministério de Minas e Energia), que prevê a realização de três certames em 2027.

De acordo com Thais Pacheco, consultora técnica da Superintendência de Transmissão de Energia da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) que atuou no estudo do projeto, o bipolo foi pensado considerando o planejamento decenal e as necessidades de garantir mais segurança para atendimento à carga, reduzir cortes e dar mais resiliência para o sistema frente a eventos climáticos extremos.

“O Bipolo Nordeste 2 vai contribuir muito para reduzir o curtailment por confiabilidade elétrica, principalmente aquelas restrições associadas a colapso de tensão em contingências da rede de transmissão. Ele vem para mitigar isso, especialmente na região do Rio Grande do Norte que lida muito com esse problema”, diz Thais, que continua: “E também vai contribuir com maior abertura de margem para a conexão de novos projetos de geração e também de carga”.

O projeto deve ter 2,5 mil quilômetros, ligando o Rio Grande do Norte à divisa do Paraná com São Paulo, visando escoar a geração das fontes renováveis do Nordeste para o Centro-Sul do país. A linha de corrente contínua terá capacidade de 3 GW (gigawatts) e contará com a tecnologia VSC (Voltage Source Converter), inédita no Brasil. 

Segundo Thais, o VSC, embora mais caro, é o ideal para esse tipo de projeto. “É a tecnologia mais adequada para integrar em sistemas com alta penetração de fontes renováveis variáveis, como eólica e solar, que é o nosso caso aqui. É um equipamento que traz maior segurança para a operação nesse caso”, explicou. Caso a opção fosse por uma rede de corrente contínua em outra tecnologia, a performance operacional seria inferior e os custos acabariam sendo maiores, pela necessidade de contratar equipamentos adicionais para garantir a estabilidade de tensão.

Para Talita Porto, presidente-executiva da Abrate (Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica), o projeto do novo bipolo – assim como a linha de interligação com a Bolívia – tem alta complexidade tecnológica. No entanto, ela pondera que o mercado brasileiro já vem demonstrando capacidade de execução em projetos de grande porte como esse. Ela citou como exemplo a linha Graça Aranha–Silvânia, primeiro bipolo de corrente contínua no Nordeste, que está em execução pela State Grid e deve ter entrega antecipada para 2028.

“O mercado brasileiro tem, sim, players com escala e know-how para tocar empreendimentos dessa magnitude”, afirmou Talita Porto à Agência iNFRA. A executiva destacou que esses projetos trazem um grau adicional de exigência, mas a leitura é que as empresas do segmento “têm apetite e capacidade técnica para esses projetos”, desde que o desenho regulatório reconheça as particularidades dessas obras.

A presidente da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), Elbia Gannoum, afirmou que o segmento de geração renovável aguarda a obra para aumentar a exportação para o Sudeste. Ela lembrou que o projeto começou a ser estruturado antes do curtailment se tornar um gargalo, pensando na expansão natural da rede, mas que ele terá um papel importante para aliviar os cortes.

“É um projeto que inclusive demorou um pouco a ter os estudos concluídos, até em função do tamanho, mas que quando entrar vai ampliar a exportação para o Sudeste em 3 GW e com isso reduzir o curtailment de confiabilidade e elétrico”, disse Elbia. Ela ponderou, no entanto, que a linha não será a única solução para o problema, mas faz parte desse esforço. “A solução é uma equação com infinitas variáveis, sendo as mais importantes baterias, obras de transmissão e sinais de preço”.

Cronograma
Uma nova portaria deve ser publicada pelo MME com a revisão do cronograma dos leilões de transmissão para o período de 2026 a 2028. Até então, a portaria mais recente, de junho de 2025, estabelecia dois certames em 2027. Agora a diretriz que está sendo preparada prevê três, conforme ofício enviado pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) ao ministério no início do mês dando aval ao novo calendário.

O primeiro leilão será realizado no primeiro semestre, com data prevista para abril, e já teve consulta pública aberta na última semana pela ANEEL. Ele inclui a obra de interligação Brasil-Bolívia, que também será uma linha de corrente contínua de grande porte em VSC, cujo investimento previsto é de R$ 6,7 bilhões para construir 1,3 mil quilômetros.

Já para o segundo semestre de 2027, o MME prevê dois leilões. Em resposta à pasta, a ANEEL sugeriu que o certame que contratará a rede de corrente contínua do Bipolo Nordeste 2, e as instalações ligadas a ele, seja realizado em outubro. E que outros empreendimentos em corrente alternada sejam direcionados para a licitação de dezembro.

Essa separação, segundo a reguladora, seria ideal para garantir “tratamento compatível com as características e a complexidade dos empreendimentos” e viabilizar a realização de três leilões no ano. A agência ainda informou ao governo que, considerando a proximidade entre os certames de outubro e dezembro de 2027, fará a instrução dos dois leilões do segundo semestre de forma simultânea.

Concentração
Na avaliação de Talita Porto, da Abrate, a expectativa com a divulgação do novo cronograma é positiva e o setor estará preparado para atender à demanda, inclusive dos projetos mais complexos. Ela pondera que não há uma preocupação com o número de três leilões em 2027 por si só, mas chamou a atenção para o fato de que acabará tendo uma concentração de certames com projetos de grande complexidade técnica em um mesmo ano.

“Isso exige que a capacidade de licenciamento ambiental, a disponibilidade de mão de obra qualificada e a cadeia de suprimentos de equipamentos acompanhem esse ritmo. Inclusive para itens mais sensíveis, como os conversores usados em tecnologia VSC, que ainda dependemos, em boa parte, de fornecedores internacionais”, afirmou Talita.

A presidente da Abrate explicou que equipamentos e componentes da tecnologia VSC têm cadeia de fornecimento mais concentrada globalmente. Além disso, essas redes exigem engenharia especializada e prazos de maturação mais longos que uma linha de transmissão convencional. Por isso, ela afirma, o cronograma precisa vir acompanhado de “sinalização regulatória de longo prazo e de um planejamento que dê tempo real para o mercado se preparar para a complexidade adicional desses projetos”.

O advogado Diogo Nebias, especialista em contratos de infraestrutura e sócio do Panucci, Severo e Nebias Advogados, chamou a atenção para o sucesso dos últimos leilões de transmissão e disse acreditar que, mesmo com projetos mais complexos, o apetite do mercado será alto.

“É um segmento com receita estável, em que o risco de não ter receita é baixo. Então o interesse no segmento de transmissão sempre é alto”, lembrou o advogado, que ponderou que o próprio porte dos empreendimentos já serve como filtro para contratar empresas mais robustas. “Não temos tantos concorrentes assim com capacidade de construir e operar esses projetos maiores, então acaba ficando entre aqueles players mais estabelecidos”, mencionou.

Elbia Gannoum lembrou que o segmento de transmissão tem um modelo de sucesso no país e que toda a expansão nos últimos anos tem sido feita pensando no escoamento das fontes renováveis. “O Brasil precisa aumentar ao máximo o intercâmbio de energia entre as regiões para otimizar o uso de recursos disponíveis, mais baratos e menos poluentes”, disse.

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