Marisa Wanzeller, da Agência iNFRA

O CEO da distribuidora de gás Gasmig, Gustavo de Marchi, entende que a discussão sobre a reclassificação de gasodutos precisa ser superada com urgência. Na sua avaliação, há espaço para uma “saída consensual” com a União.
“A gente não tem mais tempo a perder no gás natural, independente do segmento em que você estiver. Já perdemos tempo demais com discussões, às vezes até etéreas”, disse o executivo em entrevista à Agência iNFRA. “Eu acredito que a intenção da Agência Nacional do Petróleo [ANP] não seja ser um agente de desapropriação de ativos”.
O debate surge após a sanção da ‘Nova Lei do Gás’, Lei 14.134/2021, que classificou como gasodutos de transportes aqueles cujas características técnicas de diâmetro, pressão e extensão superem limites estabelecidos em regulação da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
Ocorre que os gasodutos de transporte são administrados pela União, e os gasodutos de distribuição, pelos governos estaduais. A depender das características estabelecidas pela reguladora, dutos que hoje pertencem às unidades da federação podem vir a ser considerados da União e vice-versa.
De Marchi tomou posse no comando da Gasmig no último dia 20 de maio. O executivo aponta que um de seus primeiros atos à frente da distribuidora de gás do estado de Minas Gerais foi deliberar sobre a chamada pública de biometano, que foi publicada pela companhia na semana passada. “Estamos transformando um passivo ambiental em uma energia limpa, renovável, totalmente aderente à pauta de sustentabilidade que é extremamente ousada no estado”, enfatizou.
O executivo também falou sobre os planos da empresa para a expansão da malha de gasodutos no estado e, ainda, de avanço na integração com a Cemig – estatal distribuidora de energia elétrica de Minas Gerais. “Alexandre Ramos, presidente da Cemig, vem defendendo de maneira muito efetiva a estratégia de integração entre Gasmig e Cemig. Isso tem ficado nítido não só nas falas, mas principalmente nas práticas.”
Leia os principais trechos da entrevista:
Agência iNFRA – O que podemos esperar da nova gestão da Gasmig?
Gustavo de Marchi – Eu estou muito animado com o projeto, principalmente pela diretriz do Alexandre Ramos, presidente da Cemig, que vem defendendo de maneira muito efetiva a estratégia da integração entre Gasmig e Cemig. Isso tem ficado nítido não só nas falas, mas principalmente nas práticas. Isso para mim foi um grande presente de boas-vindas. Porque pressupõe sinergia, eficiência, fortalecimento da estrutura energética do estado e, mais do que isso, ressaltando sempre a importância do gás natural. O Alexandre Ramos tem uma visão para o gás muito moderna. É o que o mundo vem praticando. É o gás para fomentar a matriz renovável. Ou seja, o gás que vai permitir o backup, vai permitir a flexibilidade.
Naturalmente, a Gasmig é uma distribuidora. Então a gente cuida de uma utility. Mas ao mesmo tempo, o Alexandre Ramos vem valorizando o gás natural nas suas outras aplicações também. Então, [podemos] quem sabe pensar em uma estrutura de modo a aproveitar melhor essa fonte tão fundamental e tão importante para que a Cemig possa avançar na sua matriz renovável reconhecida mundialmente.
Como se daria essa integração entre as duas companhias? É possível integrar o gás natural da Gasmig como insumo para a energia elétrica fornecida pela Cemig?
A gente tem que evoluir bastante o nosso marco legal e regulatório para que isso aconteça. Mas se a gente pegar exemplos, tem uma provedora em San Diego, na Califórnia, que é uma provedora de uma utility de gás e de eletricidade, dentro de uma mesma companhia.
Nós estamos longe disso, mas por que não mirar? Em grande medida, você tem dois energéticos, você estaria dando opção para o consumidor escolher cozinhar com o fogão elétrico ou a gás, usar um boiler elétrico para tomar banho ou a gás. A nossa intenção é direcionar, já endereçar algo nesse propósito, no sentido de integrar esses dois energéticos fundamentais hoje para o nosso dia a dia.
Até respeitando a vocação do estado, a gente sabe que Minas tem uma vocação também de geração solar muito proeminente, sobretudo no norte do estado. Então, a intenção é explorar aquilo que nós temos de melhor, todos os nossos potenciais energéticos.
Quais as dificuldades mapeadas para o setor de distribuição de gás e que precisam ser superadas?
Acho que a grande discussão hoje é essa consulta pública aberta para reclassificação dos gasodutos, mas eu vejo espaço para uma saída consensual no diálogo. Eu acredito que a intenção da Agência Nacional do Petróleo [ANP] não seja ser um agente de desapropriação de ativos. Eu acho que uma saída consensual seria menos danosa para o setor.
A gente não tem mais tempo a perder no gás natural, independente do segmento que você estiver. Perdemos tempo demais com discussões, às vezes até etéreas. Então, eu gostaria muito de ultrapassar essa agenda, discutir a questão do gas release, que também é um tema importantíssimo que está na agenda regulatória da ANP. Mas a reclassificação de gasodutos é um tema que deve ser tratado. A União não deverá embaraçar a vida do estado e vice-versa. É um diálogo, uma saída consensual de modo que a gente ultrapasse e vire a página com relação a esse tema.
Onde a empresa planeja concentrar seus investimentos? Seria em expansão da rede?
De maneira geral, sim, esse é o nosso propósito. Um segundo projeto que também estaria dentro já do nosso rol de prioridades e que nós estamos avançando, é um ramal, a partir de um duto de transporte da NTS, que vai de Bragança até Extrema. A partir dali, a Gasmig puxaria, iria desenvolver um ramal, até o Polo Industrial de Pouso Alegre. Que é um polo extremamente pujante, uma das regiões que mais cresce no país.
Há empresas extremamente relevantes [na região], que certamente seriam clientes âncoras para esse gás, algumas inclusive já assinaram manifestação de interesse por conta desse gás. Então, esse contrato da NTS, uma vez aprovado, vai servir de ponto de partida para que a gente possa desenvolver a modelagem para que se tenha um investimento para esse ramal de Extrema até Pouso Alegre, para ir atendendo assim algumas cidades do sul de Minas.
Falando sobre LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade em forma de Potência), o certame contratou quase 20 GW em capacidade térmica. Como avalia o potencial termelétrico em Minas Gerais?
A pauta do gás ficou um pouco esquecida de uns tempos pra cá em Minas Gerais. Nós temos aqui vários potenciais termelétricos que não saíram do papel. Temos uma planta que foi estudada para a região de Governador Valadares. Nós temos outra para Montes Claros, e seria importante ter ali para gerar uma redundância para o cinturão de aço. Isso tem a ver até com segurança nacional, uma vez que o aço é fundamental para a indústria bélica.
Nós temos planta, por exemplo, prevista para Extrema, já antevendo esse ramal de Bragança até Extrema. Então há estudo nesse sentido. Nós temos termelétricas que poderiam ser desenvolvidas em Queluzito, por exemplo, é outra planta também que já foi estudada. Nós entendemos que o gás natural tem um papel relevante para o Estado. Mas isso precisa ser fruto naturalmente de uma política a ser incorporada pelo grupo. Mas eu, particularmente, sou o grande defensor dessa agenda.
A Gasmig abriu uma chamada pública de biometano na última semana. Quais são as expectativas desse projeto?
Talvez tenha sido o meu primeiro ato [à frente da empresa], deliberar sobre um ponto tão importante que é o biometano. Naturalmente, é um trabalho que já estava sendo desenvolvido pela Gasmig desde 2023. Nós estamos desenvolvendo, no primeiro momento, as redes isoladas. É um projeto que pressupõe um investimento da ordem de quase R$ 1 bilhão, e estamos projetando algo em torno de 400 quilômetros de infraestrutura.
No primeiro momento, o projeto é voltado para o Triângulo Mineiro, pela vocação naquela região, onde você tem a presença forte da agroindústria, onde você tem um PIB muito relevante, que representa quase 9% do PIB do estado de Minas Gerais. E há também uma questão logística. A potencial localização da planta, os supridores, eles ficam muito próximos das zonas de consumo, então isso pressupõe redução do custo logístico.
Essas redes isoladas só vão receber biometano?
Nossa intenção é biometano, a gente está projetando uma capacidade de 250 mil metros por dia. Logicamente, nós vamos ter todo o sistema de backup, para permitir a garantia de suprimento. Mas a gente está considerando 100% de biometano.
Houve sinalização de interesse e de aderência do mercado da região?
Sim, [o projeto foi] muito bem recebido, principalmente nas condições previstas no edital. Por exemplo, a questão do prazo de dez anos, nós entendemos que esse prazo é ótimo para a maturação do projeto. A questão de uma comprovação do lastro financeiro, isso é importantíssimo, de modo que a gente possa trazer realmente players que tenham expertise, que tenham condições financeiras de tocar e desenvolver este projeto.
A chamada vence dia 3 de junho. Nós temos a perspectiva de assinar os contratos até o final do mês de junho. Nós estamos trabalhando também com empresas âncoras. Em Araxá, nós temos a CBMM [Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração], que desenvolve nióbio. A gente tem em Indianópolis a LD Celulose, que já manifestou interesse em relação ao biometano. Nós temos em Uberaba, a Mosaic. Então, [esses] seriam nossos clientes âncoras de modo a permitir essa demanda já contratada.
O biometano pode se tornar um combustível competitivo, em termos de preço?
Eu acredito muito que o biometano vai passar por um processo grande, que vai depender de outros incentivos, e não estou falando de subsídio, estou falando de incentivos de mercado, do biometano gerando negócios. Mas é fundamental a gente trabalhar em paralelo o atributo ambiental, é ele que vai ser o grande indutor do desenvolvimento do biometano. É algo que está na nossa agenda, mas se a gente pudesse [seria importante] priorizar a regulamentação, o desenvolvimento desse mercado, inclusive para equilibrar o preço.
É possível falar de uma eventual troca ao longo do tempo do gás natural pelo biometano? Com um cedendo espaço para o outro?
Sim, com certeza. Acho que os grandes players estão trabalhando nisso. É uma matemática que ainda é difícil, há uma certa sofisticação para fechar essa conta. Mas a tendência para mim é cada dia esse insumo se tornar mais atrativo sob o ponto de vista de negócio.






