25/03/2026 | 14h00  •  Atualização: 25/03/2026 | 14h15

Defasagem do diesel da Petrobras aumenta e inibe importações

Foto: Domínio Público

Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA

O prolongamento da guerra no Oriente Médio, em sua quarta semana, e a escalada das cotações do petróleo e derivados têm esticado a diferença entre o preço do diesel doméstico, mais baixo e ditado pela Petrobras, e o preço de importação, hoje balizado pelo produto russo que domina a entrada nos portos brasileiros. Mesmo depois do reajuste de 11,6% aplicado pela estatal, a defasagem girava em torno de 40% há uma semana e, agora, já alcança os 57% ou R$ 2,05 por litro, segundo a consultoria de preços Argus. A defasagem da Petrobras calculada pela Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), que considera os preços do diesel do Golfo do México, mais altos, está em 65% ou R$ 2,34 por litro.

Esse abismo de preços tem inibido as importações de agentes privados e trazido perturbações pontuais na cadeia: corrida por produto e alguma retenção de estoques para driblar ou aproveitar as flutuações, simultaneamente. O quadro, dizem fontes de mercado, inspira alguma preocupação sobre o abastecimento do país na segunda metade de abril, e pode se agravar se a atual conjuntura (guerra e represamento de preços pela Petrobras) se arrastar por maio adentro. 

Um diretor de grande distribuidora afirma que o line-up de navios com diesel importado para o país visando abril está em um terço do volume total ideal para o período, que seria mais de 1 milhão de m³ (metros cúbicos). “Para começar, importadores pequenos e grupos de distribuição regionais pararam de importar. E por mais que nós [grandes distribuidoras] importemos, para cumprir contratos, não será suficiente. Isso para não falar das nossas próprias limitações”, diz a fonte, ao citar preços entre 60% e 70% mais altos que o produto Petrobras. 

A especialista em derivados de petróleo da Argus Brasil, Gabrielle Moreira, endossa o ponto do executivo, mas com número ligeiramente mais confortável: até aqui as cargas de diesel previstas em abril somam 700 mil m³, a maior parte vindas da Rússia, diz ela com base em dados do serviço de monitoramento de navios Vortexa. Para efeito de comparação, em abril de 2025, o Brasil importou 1,47 milhão de m³ de diesel, mais que o dobro do que está a caminho agora. “É fato que os importadores estão mais cautelosos, evitando riscos nesse momento”, diz Gabrielle.

Esse estado de coisas foi tema de uma reunião na sede da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), no fim da tarde da última segunda-feira (23), que reuniu os diretores Artur Watt e Symone Araújo e os representantes das três maiores distribuidoras do país (Vibra, Raízen e Ipiranga) além de Mozart Rodrigues, presidente do sindicato patronal que as reúne, o Sindicom. 

Mercado apertado, mas sem falta
Embora admitam possível freio nas importações, conforme apontado em nota técnica da ANP, interlocutores da autarquia ouvidos pela Agência iNFRA seguem negando falta física de diesel no país. 

Um deles é o diretor Fernando Moura, responsável mais direto pelo acompanhamento do abastecimento nacional, que afirma que o corpo técnico da ANP tem realizado um acompanhamento diário da oferta de combustíveis e estoques junto às empresas, sem nenhum risco de momento. Moura explica que esses agentes foram notificados da vigência de sobreaviso no último sábado (21) e têm até o fim da semana para enviar informações mais completas sobre seus volumes. 

“A partir daí teremos um diagnóstico mais completo, olhando sobretudo para abril. Quanto a março, o abastecimento está garantido. As medidas tomadas pela agência tiveram resultado, como a notificação para que a Petrobras liberasse mais produto, o que aconteceu por meio de mais cotas aos distribuidores”, disse Moura.

“Existe de fato uma redução da oferta global de petróleo e combustíveis por conta da guerra, mas não parou de chegar produto ao país. O que tem é preço alto. Isso dificulta, claro, mas não é uma particularidade do Brasil”, continuou.

Fernando Moura já estava na ANP em 2022, durante crise semelhante, quando a guerra da Ucrânia alavancou os preços internacionais dos derivados de forma ainda mais abrupta e a resposta do governo brasileiro foi mais lenta. “Ali tudo aconteceu mais rápido”, disse Moura. À época, confiante na gestão de estoque e ajustes na própria ponta do mercado, entre os distribuidores, Fernando votou contrariamente ao aumento compulsório de estoques proposto por colegas, mas que, em sua visão, poderia estressar ainda mais a cadeia e os preços finais. No fim das contas, não faltou combustível.

Uma segunda fonte da ANP, próxima à diretoria, afirma que o órgão colegiado está aberto às distribuidoras e vai apurar suas informações sobre abastecimento, mas sem chancelá-las imediatamente. 

“Há um jogo de empurra grande entre importadores e Petrobras. Cada um diz que está fazendo a sua parte e que o outro não está. A posição das distribuidoras é mais uma que vamos levar em consideração. E até aqui, no nosso acompanhamento, o mercado está abastecido. Vemos apenas situações pontuais [de falta de produto], causadas muito mais pela diferença de preços entre o produto importado e o nacional, e isso tende a se equilibrar”, diz a fonte da ANP.

Um analista de preços, que não quis se identificar por atender a todo o mercado, confirma que são esperados menos navios de diesel chegando ao Brasil entre o fim de março e ao longo de abril, mas concorda que o problema ainda está restrito a preço e que, no fim, “ninguém vai deixar de internalizar produto para vender a margens maiores”. 

“Sempre se importou produto com a arbitragem fechada. Vejo reclamação acima do tom, uma tentativa de culpar a Petrobras por uma decisão que os próprios importadores tomaram, de esperar para ver a condição do mercado”, resume o analista. 

A leitura se aproxima de uma fala recente da presidente da Petrobras, Magda Chambriard. Em evento no Rio de Janeiro, na semana passada, a executiva disse publicamente que a estatal acordou volumes de fornecimento no passado com seus clientes, e que estes contavam com importações próprias “significativas”. Se essas importações não se concretizarem, isso não pode ser atribuído à Petrobras, sugeriu Magda.  

Fiscalização e subvenção
Na visita dos executivos à ANP, além de questões de abastecimento, também foram discutidos os termos da fiscalização conjunta da autarquia e órgãos federais contra abuso de preços, o que justificaria a presença da diretora Symone Araújo, relatora do processo que vai regulamentar esse tipo de ação com definição de critérios objetivos. Nos bastidores, as empresas têm reclamado do ímpeto do governo, com multas em profusão, para conter aumentos em um mercado de preços livres e de formação complexa. 

O IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis), que também abarca essas empresas, emitiu uma nota nesse sentido na terça (24), dizendo que medidas punitivas, como multas e interdições, precisam estar amparadas por “prévia e detalhada verificação de documentação fiscal, entendimento do funcionamento da cadeia e direito de defesa do agente econômico”.

Para além desse aperto nos agentes, o governo atua na outra ponta, para costurar um subsídio adicional, de R$ 1,20 por litro de diesel a importadores (agentes focados na atividade ou distribuidores que trazem produto do exterior). A ideia é ampliar o colchão nos preços ao consumidor final e, nas palavras do ministro da Fazenda, Dario Durigan, “garantir o abastecimento firme de diesel” com subsídio direto em vez de renúncia de ICMS, ao que se opuseram os governadores. Se aprovado até o fim dessa semana, o formato do instrumento, terceira proposta da Fazenda na negociação com os estados, valeria pelos meses de abril e maio com teto de R$ 3 bilhões, um custo a ser dividido igualmente por União e tesouros estaduais.

Tags:

Solicite sua demonstração do produto Boletins e Alertas

Solicite sua demonstração do produto Fornecimento de Conteúdo

Solicite sua demonstração do produto Publicidade e Branded Content

Solicite sua demonstração do produto Realização e Cobertura de Eventos

Inscreva-se no Boletim Semanal Gratuito

e receba as informações mais importantes sobre infraestrutura no Brasil

Cancele a qualquer momento!