Diagnóstico do apagão pode levar o ONS a revisar critérios para aumentar a segurança, diz Ciocchi

Roberto Rockmann e Marisa Wanzeller, da Agência iNFRA

O relatório de diagnóstico das causas do apagão do dia 15 de agosto poderá ser o mais importante da história de 25 anos do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), na opinião do diretor-geral do órgão, Luiz Carlos Ciocchi. O diagnóstico deverá ser concluído até outubro e, a depender do que identificar, o operador poderá revisar critérios de operação e adotar medidas que não estavam no radar para aumentar a segurança do sistema.

“Acho que a gente deve estar tendo a oportunidade de ter o RAP (Relatório de Análise e Perturbação) mais importante dos 25 anos da história do ONS. Pelo fato de a gente estar lidando com fenômenos elétricos de alta complexidade e que, por isso mesmo, demandam análises extensas, profundas do ponto de vista de engenharia elétrica. E isso deverá trazer realmente grandes reflexões para os setores elétricos do mundo, não só do Brasil, mas do mundo, seja do ponto de vista de operação, seja do ponto de vista de equipamento, seja do ponto de vista de planejamento, de expansão”, disse Ciocchi à Agência iNFRA.

Segundo o chefe do operador, podem ser pontos de operação diferente, ajustes nas proteções das linhas, ou mesmo questões inerentes aos equipamentos geradores das usinas eólicas e solares. “Ou seja, é uma oportunidade do ponto de vista de operação do sistema de tratarmos esses assuntos de uma forma integrada”, diz Ciocchi. A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva:

Agência iNFRA: Como se explica que um corte de linha de transmissão Quixadá-Fortaleza, no Ceará, possa derrubar todo o sistema? 
Luiz Carlos Ciocchi: É um evento inusitado porque, como nós mesmos já falamos, não haveria razão de uma queda dessa linha ser a causadora de toda essa propagação que teve. Não se pode atribuir isso à causa. O que a gente tem até agora é esse evento que nós estamos chamando de evento zero. Onde tudo corria bem, tudo estava na mais perfeita ordem, como todos os dias anteriores. E, de repente, há a abertura dessa linha indevidamente, reconhecida pela própria Chesf. A linha abriu indevidamente e a partir daí nós temos um período de tempo contado em milissegundos, ou seja, 600 milissegundos.

Estamos diante de um evento dessas características, como falei, inusitado, que requer um mergulho, uma atenção muito grande do ponto de vista de análise dessa perturbação, do ponto de vista de engenharia, a engenharia mais profunda possível para que a gente entenda esse sequenciamento dos fatos e, obviamente, depois saber como prevenir eventos semelhantes no futuro.

Vocês trabalham com uma hipótese de que a indisponibilidade dessa linha de Quixadá pode ter causado uma atuação em cascata dos sistemas especiais de proteção?
A abertura da linha, como falei, foi indevida. A Chesf mesmo reconheceu isso. A saída de uma linha não deveria causar nada demais, até porque tem as redundâncias. Quando ela abre, acaba sobrecarregando outros circuitos.

A partir daí, a gente tem esses 600 milissegundos para que entrem em ação essas proteções, primeiramente a PPS [Proteção para Perda de Sincronismo] e depois o Erac [Esquema Regional de Alívio de Carga]. Exatamente esse é o foco da investigação, ou seja, entender quais fenômenos elétricos aconteceram nesse curtíssimo intervalo de tempo, não é um intervalo humano, para que a gente tivesse a proporção do evento como foi.

O evento foi o equivalente a aproximadamente 30% da carga naquele momento. Então é um evento bastante significativo. Houve a separação dos subsistemas do Norte, Nordeste e o Sudeste Centro-Oeste. Então uma perda simples não poderia causar tudo isso.

No dia do apagão, o senhor falou que nenhuma possibilidade estava descartada. Eu queria saber se a situação ainda é essa ou já se descartaram algumas?
Naquele momento, não descartamos hipótese alguma. A bem da verdade, hoje o que a gente tem é que algumas das hipóteses que mereceriam ser avaliadas não mereciam ser perseguidas. Por exemplo: havia também uma questão da subestação na região Norte, que também saiu. Mas aí a gente viu que a subestação saiu depois, então não faz parte do evento. É um evento totalmente paralelo.

Hipóteses de eventos climáticos, no momento não tinha nenhuma informação, mas não era uma hipótese descartada, fomos atrás e não teve nenhum reporte.

Aí você tem também outros eventos que foram descartados. Então, essas hipóteses vão sendo descartadas à medida que a gente concentra atenção na região onde ocorre o evento zero. Na fronteira dessa linha de transmissão, vários eventos ocorrem, no olhar humano, simultaneamente, mas tem o sequenciamento aí desses milissegundos.

O que mudou na estratégia de operação depois de 15 de agosto?
Quando você tem um evento de proporções significativas como esse e ainda não se tem a causa raiz e não tem as medidas corretivas, o que se faz? Adota-se procedimento de rede que autoriza o ONS a trabalhar com uma faixa de segurança maior, ou seja, um carregamento menor nas linhas de transmissão, para que se evite uma repetição do evento em análise.

Essa cláusula pode ocorrer inclusive em dias de eventos especiais, tipo eleição, jogo de Copa do Mundo, feriado, grandes feriados nacionais, o que permite ao ONS trabalhar de uma forma mais segura, limitando ainda mais o carregamento das redes. 

Esse sistema vai continuar até quando o relatório for divulgado?
Isso vai continuar até que a gente tenha uma noção bastante clara do que ocorreu e saber quais são as proteções que devem ser acionadas. Então, a expectativa é de que, com a evolução dos trabalhos e das reuniões para a elaboração do RAP, a gente tenha essas informações. Quando a gente já tiver a causa identificada e, consequentemente, as proteções necessárias, a gente pode mudar.

O sistema de operação está moderno? Está atualizado para fazer frente aos desafios da operação? 
Desde a questão de planejamento até a questão da operação propriamente dita, estamos evoluindo fortemente na questão do planejamento da demanda e previsão da geração eólica e solar. Isso a gente pode dizer que nós estamos no estado da arte dessa previsão, inclusive trabalhando intensamente aí com organismos internacionais. Com relação à operação propriamente dita, o ferramental que a gente tem de operação é absoluto do ponto de vista de software. Ele é atualizado e moderno. 

Na Europa, houve problemas por exemplo com a GD [Geração Distribuída] solar, que injeta energia na rede, há uma alteração de frequência, a casa então passa a consumir, mas não injeta. Se isso ocorre em uma cascata, se veem milhares com o mesmo problema. Na Europa, dois blecautes ocorreram por causa disso. Essas atualizações, essas mudanças já foram trazidas para o Brasil. Boa parte dos fabricantes já incorpora a atualização. Então eu te diria que a coisa está caminhando para que estejamos todos juntos em termos de conhecimento, em termos de tecnologia. 

Nós estamos falando de um evento, nós estamos trabalhando com essa configuração já há bastante tempo. A cada dia, a cada mês, há incorporação de mais e mais plantas eólicas, mas já estamos trabalhando há bastante tempo com essa configuração, que vinha se mostrando absolutamente confiável.

Então, voltando àquela pergunta: “As hipóteses estão descartadas?”, não, não estão. Obviamente a questão dos nossos modelos preditivos, nosso modelo de operação, também está sendo avaliada. 

Como é que o ONS tem percebido o crescimento da participação das renováveis na matriz e como tem mudado essa operação? Como isso tem mudado essa configuração?
Mudou bastante. A gente já vinha falando, cantando em verso e prosa ao longo dos últimos meses. Há rampas. Só ver o gráfico da geração fotovoltaica. O sol nasce mais ou menos às seis e se põe mais ou menos às seis da tarde. Somando todas as fontes intermitentes, você tem rampas de cinco, seis, sete gigawatts na rampa apenas ascendente. Da mesma forma pode ser descendente. Estava até vendo que a gente bateu mais um recorde de geração solar e às 18 horas o sol desliga e pronto, acabou. 

Há algum tempo, me perguntaram se a eólica era um problema para o ONS, eu falei claramente que não, eólica não pode ser problema. Falo o mesmo para a energia solar. Traz desafios para a operação? Traz. O desafio é que são fontes que você não despacha, uma fonte que obedece leis da natureza, que você também não controla. A medida que ela se intensifica, pois a sociedade pediu uma geração mais verde, essa quantidade de energia nessa situação é cada vez maior. Portanto, as rampas são cada vez maiores.

À medida que isso vai crescendo, medidas protetivas têm de ser tomadas e estão sendo tomadas pelo ONS. Agora, temos um evento dessa natureza. Talvez as medidas que a gente tenha que tomar agora sejam de outra natureza ou da mesma natureza, mas com maior intensidade.

Vocês estão revisando se podem tomar medidas de outra natureza ou mais intensidade?
Quando a gente tiver a resposta do RAP, talvez outras coisas que hoje não estão no radar sejam feitas simplesmente para reforçar a segurança. Podem ser pontos de operação diferente, podem ser ajustes nas proteções das linhas, podem ser também questões inerentes aos equipamentos geradores das usinas eólicas e solares de uma forma geral. Ou seja, é uma oportunidade do ponto de vista de operação do sistema de tratarmos esses assuntos de uma forma integrada. 

Agora, sem querer minimizar o evento, o restabelecimento foi muito mais rápido do que em comparação com outros países. No Texas, foram dias. A Inglaterra também passou dias sem energia elétrica. Então, nós passamos aqui no Sul e Sudeste, uma hora. No Brasil todo, o fenômeno levou mais de 30% da carga, mas depois de três horas nós já estávamos com 90% da carga restabelecida. Então, o ONS foi atuante. As medidas de recomposição foram eficazes.

Existem aperfeiçoamentos a serem feitos com relação à recomposição, principalmente essa recomposição com bastante energia eólica. Disso tem aprendizados que vão ser úteis lá na frente, quando a gente percebe que a rampa de entrada das eólicas após o evento, após Black Start, após o retorno, foram mais lentas do que se imaginava. Então, existe aprendizado sim, mas de uma forma geral e, repetindo, sem minimizar o ocorrido, a resposta dada não só pelo ONS, pelos agentes, foi eficaz.

O sistema ficou sem braço operacional depois da capitalização da Eletrobras?
Para nós, todos os agentes são iguais, sejam eles privados, estatais, sejam privados de capital brasileiro ou capital internacional. Não existe diferença. Dentro das hipóteses que analisamos, não vemos o capital social das empresas.

Existe a preocupação de judicialização de renovável contra o ONS por conta dessa redução de exportação para o Sudeste, por ter essa modificação enquanto o RAP é feito? 
A judicialização seria em função de alguma coisa que o ONS estivesse fazendo por livre e espontânea vontade, com um viés direcionado a determinada fonte. Não nos enquadramos em nenhuma dessas hipóteses, estamos fazendo aquilo que o procedimento de rede nos permite. O procedimento de rede é o guia principal das nossas operações, por isso estamos amparados por ele. Segundo, se estamos fazendo isso é por conta de buscar segurança de atendimento nacional.

Então, não vejo como prosperar uma judicialização dessa natureza. Agora, as entidades e as empresas são livres para buscar a Justiça como todo e qualquer cidadão, pessoa física ou jurídica. Se eles vão buscar ou não, parece pouco provável. Acho que o que eu menos esperaria agora é uma judicialização em um momento em que nós estamos operando um sistema, que estamos investigando as causas de um evento, buscando a segurança de atendimento a toda a população.

O senhor falou que esses 600 milissegundos são um tempo muito curto, um tempo que não é humano. Isso exclui a possibilidade de falha humana?
Então, se você estivesse falando: “Olha, entre esse evento e começarem a cair outras coisas, demorou meia hora”, é uma coisa. Alguém mal intencionado ou por uma falha de operação poderia ser a causa. Se tivessem sido duas linhas que abriram ao mesmo tempo, poderia ser um sinal de uma ação humana, como tivemos no mês de janeiro. Vocês estão lembrados? A gente teve derrubadas torres de transmissão por ações humanas. O problema de 600 milissegundos não é uma falha humana. O máximo que a gente poderia pensar é se antes do evento zero alguma coisa de interferência humana pudesse ter acontecido. É uma hipótese que gente realmente não consegue ver como prosperar. 

Vocês têm divulgado vários trabalhos apontando que uma região delicada do Brasil é essa área de Minas Gerais, principalmente no Norte, e dessa interligação com o Nordeste. Os leilões de transmissão que foram licitados ano passado já chegarão em 2026 e 2027 com capacidade esgotada. Os deste ano e do próximo que serão licitados irão melhorar a situação no fim desta década?
Eles vão desafogar aquilo que já está em carteira, mas seguramente vai entrar muito mais, mantida a mesma velocidade de crescimento. Então é correr atrás do rabo, certo? Alguma coisa a gente tem que pensar para mudar isso aí. As preocupações que a gente tinha já vinha demonstrando, sejam na região Nordeste, sejam no norte de Minas, são justamente áreas em que a produção e o crescimento da energia solar é maior, onde a solicitação dos pedidos de acesso é maior.

Portanto, daí vem um desafio de como você manter um crescimento da geração renovável desejado pela sociedade, trazendo uma energia, uma matriz cada vez mais limpa, aliando isso com a capacidade de você efetivamente trazer essa essa energia para os centros de consumo, pois a natureza levou sol e vento para as regiões onde hoje você não tem o centro de carga. E agora, com a preocupação adicional que foi trazida pelo evento, de ter realmente uma robustez aí nessa operação, para que a gente não tenha outras situações semelhantes com essa que a gente teve.

Essa robustez pode significar um reforço também em linhas de transmissão ali naquela região?
Essas duas regiões já estão identificadas. A situação já é sabida, já conhecida do Ministério [de Minas e Energia] e da EPE [Empresa de Pesquisa Energética], e a linha de ação certamente vai ser nessa direção de trazer essa capacidade de transmissão para essas regiões.

Outra questão se refere à GD solar. Você estava falando da preocupação de que não ocorresse um efeito cascata como na Europa. Isso evoluiu mesmo?
Estamos implementando as experiências adquiridas lá na Europa. Os fabricantes de equipamentos estão implementando as experiências, lições aprendidas lá. Essas modificações foram suficientes para evitar a situação? Tem relação com a situação que nós estamos analisando? Isso aí a gente vai ter que descobrir ainda. À luz do que a gente vai descobrir pode ser que a gente tenha aí algum fator novo. Não sei se software, não sei se hardware. Mas aí sim a contribuição vai ser na mão contrária, ou seja, essa experiência provavelmente de 15 de agosto pode servir de base para os parques solares da Europa e do mundo todo.

Esse incidente cria um paradigma? Por quê?
Acho que a gente deve estar tendo a oportunidade de ter o RAP mais importante dos 25 anos da história do ONS. Pelo fato de a gente estar lidando com fenômenos elétricos de alta complexidade e que, por isso mesmo, demandam análises extensas, profundas do ponto de vista de engenharia elétrica. E isso deverá trazer realmente grandes reflexões para os setores elétricos do mundo, não só do Brasil, mas do mundo, seja do ponto de vista de operação, seja do ponto de vista de equipamento, seja do ponto de vista de planejamento, de expansão.

Acho que a gente está no limiar de aprender alguma coisa. Eu acho que esse é um fato que a gente tem que entender que, apesar de o preço ter sido alto, eu acho que é assim que avança a humanidade, certo? Quando a gente tem um fato disruptivo dessa natureza é que a gente vai buscar realmente conhecimento para uma nova, uma nova fase.

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