Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA
Passado menos de um ano da conclusão da sua privatização pelo governo de São Paulo, a Emae (Empresa Metropolitana de Água e Energia) iniciou uma estratégia de expansão apostando em leilões do setor elétrico. A companhia foi uma das vencedoras do leilão A-5, destinado a pequenas hidrelétricas, realizado em agosto. Controlada pelo Fundo Phoenix, a empresa agora já se prepara para participar do LRCAP (Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência) e do inédito leilão de baterias, ambos previstos para 2026.
A afirmação é da CEO da Emae, Karla Maciel, em entrevista à Agência iNFRA. Segundo Karla, a estratégia da empresa é crescer tanto no parque gerador existente como em novas frentes de negócio, inclusive fora de São Paulo, algo novo para a companhia. Ela não descarta a possibilidade de aquisições. Além disso, estão em curso investimentos de modernização das usinas existentes e em novos complexos de energia solar flutuante.
Também está em estudo, de acordo com a executiva, a implantação de uma usina reversível junto ao centenário complexo Henry Borden. O modelo consiste no bombeamento de água para um reservatório superior, funcionando como uma bateria natural. A usina fica localizada no sopé da Serra do Mar, em São Paulo. A seguir os principais trechos da entrevista:
Agência iNFRA – Qual tem sido a nova estratégia da empresa sob a gestão privada?
Karla Maciel – O desafio maior é crescer a Emae. A ideia não é alterar o core-business que a gente já tem, mas olhar também para as novas frentes de negócios. Vamos entrar em leilão de bateria e também no LRCAP, que estamos aguardando e até já tínhamos nos habilitado, mas ele foi cancelado e agora vai voltar. E vamos aumentar os investimentos na fotovoltaica, olhando sempre para essa parte de geração de energia verde. A Emae quer se consolidar como um player importante na transição da matriz energética brasileira.
No meio do caminho teve o [leilão] A-5. Desde o dia um aqui a gente começou a trabalhar nesse projeto, que é a motorização de uma barragem [de] que a gente já tem toda a parte civil construída. Foi com esse projeto que a gente saiu vencedor. E a gente venceu com um dos maiores valores ali cobrados, um deságio muito baixo. Então é um projeto [do qual] a gente esperava uma rentabilidade aí de 20%, e muito provavelmente vai vir uma rentabilidade muito maior.
No dia a dia da empresa, o que mudou?
A gente tem investido muito em tecnologia. As nossas usinas são muito antigas. Estamos falando de uma empresa de mais de 100 anos. Então era uma tecnologia que já não permitia tanta eficiência como a que a gente tem implementado agora. Estamos automatizando as nossas usinas, fazendo elas dependerem menos daquela parte de mão de obra manual. Com isso, a disponibilidade das nossas usinas está maior, porque estamos conseguindo fazer uma manutenção mais programada, preventiva, e uma vez que vou modernizando elas, tenho menos manutenção também, menos paradas.
Quais os planos de investimento da Emae?
Em 2025, a Emae deve fechar o ano com investimento de R$ 140 milhões, basicamente para essa parte de modernização e de manutenção programada. E nos próximos cinco anos, temos uma programação de fazer investimentos de mais de R$ 2,5 bilhões para projetos novos e modernizações [retrofit] das usinas existentes.
O que vier dos leilões entra como investimento à parte. Só na usina que ganhamos no A-5 vamos investir em torno de R$ 200 milhões, que não está nessa conta ainda.
Quais são os planos para o LRCAP e o leilão de baterias? Esses planos vão além de São Paulo?
Quando abriu a habilitação do LRCAP a gente inscreveu um projeto. Depois, o leilão foi cancelado. Agora, estamos na expectativa de que seja reaberto até o final do ano para nos inscrever de novo. Vamos participar na parte de reserva de capacidade e também de armazenamento de energia com baterias. Acreditamos muito nessa parte de baterias como uma solução para todo esse problema de curtailment [cortes de geração], de excesso de geração durante o dia e falta à noite.
No LRCAP o projeto da Emae seria para o produto hídrico ou térmico?
Térmico. Temos um projeto de térmica sem queima de carvão. Um empreendimento que também está situado aqui no meio da região metropolitana de São Paulo, com fácil escoamento para a rede.
E respondendo se ficaremos limitados a São Paulo, a resposta é não. A gente tem uma visão mais nacional de negócios, óbvio que a gente quer expandir. Inclusive podemos olhar para outras usinas hidrelétricas e PCHs via M&A [fusões e aquisições], que é uma agenda que está aberta.
Há planos para ampliar usinas existentes?
A Emae tem a usina Henry Borden, que entramos com ela para potência. No Brasil, existem dois projetos que têm a possibilidade de se converter em usina reversível: um é a Henry Borden e outro é uma usina da Light no Rio, que são usinas irmãs. E isso é algo que estamos olhando muito e inclusive estamos indo na Alemanha e na Áustria visitar usinas reversíveis. Então essa é uma possibilidade que já estamos estudando. A Henry Borden é sempre listada como um case de usina que poderia ser repontecializada para reversível. Agora o próximo passo é ver como desenvolver isso e investir para tirar do papel.
E quais os planos para o segmento de energia solar?
Nossa intenção é seguir investindo em usinas solares flutuantes. Quando a gente olha a eficiência energética, as flutuantes têm uma eficiência maior do que as que ficam em solo, até por conta do resfriamento da própria água. E tem o fator que é a área para implementação: São Paulo é uma região muito cara para a gente ter uma área grande disponível e encher de placas. Como a gente tem toda a estrutura das represas Guarapiranga e Billings, que é uma área que não é navegável, a gente poderia utilizar essa lâmina d’água para esses projetos.
Hoje, a gente tem um projeto de 5 MW, que inclusive foi a primeira usina do tipo no país e que já está rodando. A ideia é estender isso nos próximos anos. Temos aprovada para implementação mais 125 MW, com investimento estimado em R$ 800 milhões. Ainda assim estaríamos usando menos de 1% da área total de reservatório que eu tenho disponível para implementar. Tem muita opção ainda para a gente desenvolver ali.








