Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA*
O diretor-geral da parte brasileira de Itaipu Binacional, Enio Verri, disse nesta segunda-feira (13) que as negociações com a direção paraguaia da hidrelétrica têm avançado e que, além de fechar a tarifa para 2027, há “grandes condições” de terminar ainda este ano a revisão do chamado “Anexo C” – parte do contrato que define as bases financeiras da relação. Segundo Verri, não há dúvida de que as negociações partem do preço atual às distribuidoras brasileiras, de US$ 16,71 por kW/mês (quilowatt-mês), rumo a um valor menor.
“Já começamos o diálogo com o Paraguai para discutir a tarifa do ano que vem. A única coisa que eu posso afirmar, com toda autoridade, é que o preço será menor. Isso está dado. Não há mais o que conversar sobre isso”, disse o diretor a jornalistas em visita à hidrelétrica. “Uma coisa é certa, a partir do ano que vem, sem a menor sombra de dúvida, seremos a menor tarifa de energia do país”, continuou Verri.
Além de o reduzir preço, a ideia é encerrar o diferencial atual entre as tarifas dos países, viabilizado por um subsídio pago pela parte brasileira, disse o diretor-geral. Desde 2024, o Cuse (Custo Unitário dos Serviços de Eletricidade) está em US$ 19,28, mas o valor pago pelos brasileiros é reduzido para US$ 16,7 devido a um custeio de US$ 300 milhões/ano bancado pelo lado brasileiro de Itaipu.
Verri afirmou que o governo brasileiro ainda mira um preço entre US$ 10 e U$ 12 por kw/mês a partir de 2027, em linha com um acordo fechado entre as partes em abril de 2024. Esse preço equivaleria ao custo operacional da usina.
O Paraguai resiste à redução do preço, porque não utiliza toda a energia que lhe cabe da geração de Itaipu, vendendo o excedente à parte brasileira para gerar receita. Ao contrário do ponto de vista do governo brasileiro, todo o interesse está na redução dos preços da energia, definida por Verri como “política pública”.
Hoje o Paraguai consome 36% da energia gerada em Itaipu, o que responde por 85% de toda a demanda do país. Já o Brasil consome 64% da energia da usina, o que representa apenas algo entre 7% e 8% da demanda nacional.
Essas negociações chegaram a ser interrompidas em abril de 2025, no contexto de suspeitas do governo paraguaio em relação à espionagem da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) a autoridades paraguaias para obter informações sobre o assunto. O mal-estar diplomático teria sido superado em julho daquele ano, quando o presidente Lula se reuniu com o presidente paraguaio, Santiago Peña, durante a Cúpula do Mercosul em Buenos Aires. Desde então, as tratativas teriam avançado, sugere Verri.
Outros pontos
Verri sugeriu que a mudança no Anexo C para dar fim à obrigatoriedade de venda de excedentes de energia ao país sócio segue como ponto pacífico entre as partes. Isso poderia permitir que o Paraguai passe a vender energia no mercado livre, inclusive de outros países.
Questionado sobre afirmações recentes de autoridades paraguaias sobre uma mudança no perfil de Itaipu para ampliar escopo e disputar novos projetos de geração, indicando a intenção de incrementar lucros em detrimento da modicidade tarifária, Verri sinalizou que algo do tipo está descartado pelo governo brasileiro.
Segundo ele, isso passaria por uma mudança de perfil da estatal binacional, se aproximando da lógica privada. Enquanto o governo brasileiro vê no ativo uma função estratégica de compensação da intermitência das outras fontes renováveis (solar e roliça), de estabilizador do sistema.
“Para fazer isso [disputar novos mercados e projetos] teria que sair das amarras da gestão pública. E o mercado tem suas regras. Já falei aqui da questão das energias intermitentes. Quando vai chegando 16h, 17h, há um salto [na demanda] e Itaipu tem que dobrar a entrega de energia firme para o Brasil, senão falta. Nós hoje temos o papel de bateria do Brasil. Então não há como, com esse papel que temos, fazer uma disputa de mercado. […] O papel que foi imposto, pela dinâmica de desenvolvimento econômico do Brasil, para Itaipu não dá espaço a essa expectativa do Paraguai”, afirma.
Aumento de geração
Contudo, um ponto de interesse comum dos países é o aumento da geração, que poderia servir imediatamente ao Brasil e, dentro de alguns anos, ao Paraguai, quando não tiverem mais excedentes. Segundo Verri, já existem análises para contratação de consultorias internacionais e conversas com a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) voltadas ao estudo de viabilidade uma repotenciação das 20 unidades geradoras da usina, o que poderia trazer um ganho marginal à atual capacidade instalada, de 14 mil GW.
Ainda de acordo com o diretor-geral, também está na mesa a possibilidade de se construir mais duas unidades com capacidade idêntica às demais (700 MW), o que, lembrou, exigiria atenção aos impactos na margem argentina do Rio Paraná, cujo nível poderia baixar demais. Para efeito de comparação, apenas duas unidades de geração como essa têm, juntas, vazão equivalente à das Cataratas do Rio Iguaçu, próximas da usina.
*O repórter viajou a Foz do Iguaçu (PR) a convite de Itaipu.





