02/04/2026 | 14h02  •  Atualização: 02/04/2026 | 14h03

Lula diz que vai anular leilão de GLP da Petrobras: ‘Cretinice’

Foto: Ricardo Stuckert/PR

Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA

O presidente Lula disse nesta quinta-feira (2) que vai anular um leilão de 70 mil toneladas de GLP (Gás Liquefeito de Petróleo), o chamado gás de cozinha, da Petrobras às distribuidoras do combustível. O certame foi realizado na última terça-feira (31).

Fontes do setor de distribuição de GLP afirmam que os volumes vendidos na ocasião já estariam sendo bombeados para as bases das empresas e sendo faturados pela Petrobras, o que dificultaria a simples anulação do processo e vai exigir solução alternativa, como eventual diluição dos ágios por meio de descontos nos preços das cotas de produto adquiridas sob preço tabelado.

Reclamação de Lula
Em entrevista à TV Record Bahia, Lula definiu o leilão como “cretinice” e afirmou que isso aconteceu a despeito da orientação do governo e da própria diretoria da Petrobras. Nos bastidores, fala-se em insubordinação de executivos da área de comercialização da companhia.

“Foi uma ‘cretinice’, uma bandidagem, o que fizeram com o óleo. As pessoas sabiam da orientação do governo, da orientação da Petrobras. Não vamos arbitrar GLP. Não vamos arbitrar. Pois fizeram um leilão, contra a vontade da direção da Petrobras, então nós vamos rever esse leilão. Nós vamos anular esse leilão, porque o povo pobre não pagará em hipótese alguma o preço dessa guerra”, disse Lula.

Depois, em outro evento na Bahia, Lula afirmou, em tom de reclamação, que um executivo que ele desconhece foi o responsável por um leilão que “aumentou o preço do gás em 100%”. A abordagem indica que o presidente não encara, ao menos publicamente, o leilão como um erro da gestão de Magda Chambriard na estatal, mas sim equívoco pontual do segundo e terceiro escalões da companhia.

A prática de leilões também é usada pela estatal para combustíveis líquidos, como diesel e gasolina, e tem previsão legal. Mas, na prática, é uma forma de driblar o preço de tabela que incide sobre as cotas regulares das distribuidoras (volumes requisitados pelos clientes e limitados à média do repasse dos três meses anteriores), de modo a aumentar margens. Assim, a Petrobras consegue se aproximar mais dos preços de mercado praticados por empresas privadas, pautadas pelo PPI (Preço de Paridade de Importação), sem que isso configure aumento formal de preços, o que viria com forte repercussão política e pressões de governo.

Contexto

No leilão realizado na terça, a Petrobras vendeu 70 mil toneladas de GLP, algo entre 10% e 15% do volume consumido mensalmente no país, a preços bem superiores aos constantes em sua tabela. Esse ágio alcançou 117% para as 13 mil toneladas de produto saídas da Reduc (Refinaria de Duque de Caxias), no Rio de Janeiro, tendo percentuais mais baixos, mas ainda assim significativos, nas outras praças.

O preço mínimo do leilão era de 30% acima do chamado “preço de linha” de cada refinaria. No caso do GLP da unidade fluminense, o produto é vendido em tabela a R$ 2.596,00 por tonelada e foi leiloado a R$ 5.626,00 por tonelada, uma diferença (ágio) de R$ 3.030,00 por tonelada. Para as nove mil toneladas GLP a serem retiradas na RNEST (Refinaria Abreu e Lima), em Pernambuco, essa diferença foi de R$ 2.100,00 por tonelada de produto, ágio de 82%. Outros pontos de retirada do produto são Belém (PA), Betim (MG) e São José dos Campos (SP).

A Petrobras defende que o volume vendido em leilões, que seria marginal às cotas, atende à demanda das distribuidoras para venda aos segmentos comercial e industrial e, por isso, não deveria afetar o consumidor pessoa física, alvo de maior preocupação do governo.

Executivos do setor de distribuidoras ouvidos pela Agência iNFRA dizem que essa afirmação não procede, porque, se assim fosse, o governo não estaria discutindo subvenção a produtores e importadores de GLP, na linha do que já fez com o diesel.

Parte do setor, diz uma fonte de mercado, deverá sim repassar os preços mais altos da Petrobras, uma vez que a empresa inicia as cobranças junto às distribuidoras justamente pelas cargas mais caras, antes das cotas obtidas a preços tabelados, que são mais baratas. Segundo essa pessoa, o instrumento dos leilões de um produto “escasso” pressiona sobremaneira os preços que as distribuidoras acessam, agravando a conjuntura de alta generalizada nos preços do setor de óleo e gás em função da guerra. “Mais do que o produto, somos uma empresa de logística completa, com entregas por caminhão, e sentimos na veia o aumento no diesel por exemplo”, diz a fonte.

Sindigás
Procurado, o Sindigás (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de GLP) afirmou, em nota, que não tem acesso e não interfere em estratégias comerciais e políticas de preços das associadas, mas destaca que os preços do petróleo e derivados vêm sofrendo forte pressão devido à guerra no Oriente Médio, o que “pode influenciar os custos do GLP e promover eventuais mudanças nas condições econômicas e de mercado na cadeia do produto”.

“O Sindigás acredita que possíveis medidas para conter os efeitos da disparada do petróleo no exterior por conta do cenário de guerra serão tratadas de forma técnica pelas autoridades competentes, e devem ser capazes de capturar com maior rapidez os efeitos de mudanças abruptas de mercado. Neste momento, o cenário segue sendo monitorado pelo setor”, diz o sindicato das distribuidoras.

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