Maior aversão ao risco provoca aumento no PLD e queixas de agentes. MME estuda mudança

Marisa Wanzeller e Geraldo Campos Jr., da Agência iNFRA

A metodologia de precificação do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) tem deixado alguns agentes comercializadores insatisfeitos. Eles avaliam que o preço está mais suscetível a oscilações com o aumento da aversão ao risco, que entrou em vigor neste ano no cálculo usado como referência para comercialização da energia no mercado livre.

O cenário vivenciado desde o fim de fevereiro deixou a situação mais evidente. Com o baixo nível de chuvas no mês, que é tipicamente úmido, os critérios de aversão ao risco nos modelos computacionais usados para calcular o PLD fizeram o preço disparar diante do temor de uma seca em 2025. Em um mês, o PLD subiu de cerca de R$ 90 por MWh (megawatt-hora) no subsistema Sudeste/Centro-Oeste para quase R$ 400/MWh na última semana.

Segundo Walter Fróes, CEO da CMU Comercializadora de Energia, a atual metodologia está “muito mais sensível”, com uma aversão ao risco “estupidamente alta”, fazendo com que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) “não possa” despachar hidrelétricas. “Então do jeito que está, o PLD nunca vai cair abaixo dos R$ 300/MWh”, afirmou o executivo à Agência iNFRA.

A aversão ao risco é calculada por mecanismo computacional que considera cenários desfavoráveis de hidrologia para influenciar a formação de preços. Com a recente nova calibragem do parâmetro, “ele ficou mais sensível e responde mais rápido”, explicou Rodrigo Ferreira, presidente-executivo da Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia). 

“O parâmetro de risco aumentou o preço em prol da segurança. Mas o que alguns dizem é que aumentou demais para pouca segurança a mais. Em tese, os modelos precificam água”, explicou. Ferreira cita o exemplo em que há um mês muito seco, além do que estava previsto. “Ele [o parâmetro] dá um alerta e se aciona algumas usinas com antecedência para reservar água. Então, [a metodologia] nada mais é do que calcular o valor da água.”

Ministério estuda mudança
A necessidade de aprimoramento no cálculo já foi levada por agentes ao MME (Ministério de Minas e Energia), uma vez que o tema é tratado no âmbito do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico). Na última semana, a diretoria da Abraceel se reuniu com equipes da pasta para tratar dos modelos. Os executivos saíram de lá com a resposta de que ainda não há indicativo de que haverá mudança, mas que o tema está em estudo. 

O ministério marcou para esta segunda-feira (31) uma reunião técnica do CMSE para apresentar e discutir estudos sobre uma revisão nos parâmetros de aversão ao risco. A reunião contará com apresentações do ONS e da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica).

Há pressa para que a decisão seja rápida. Qualquer revisão da metodologia do PLD e dos parâmetros de aversão ao risco precisa ser decidida até 31 de julho, para poder iniciar a vigência em janeiro do ano seguinte, conforme previsto na Resolução CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) 1/2024. Além disso, alterações devem ser precedidas de consulta pública, que somente será aberta pelo MME se identificada a necessidade de mudança, informou a Abraceel a seus associados. 

O presidente-executivo da Abraceel disse à Agência iNFRA que a insatisfação do mercado com os modelos matemáticos que calculam o PLD “é uma demanda antiga”. No seu entendimento, “há uma discrepância grande entre o que é planejado e operado”, além de pouca transparência nas informações utilizadas para formação do preço.

“Há operações que caem em contingências que não são bem explicadas, e aí passa a ter uma intervenção humana nesse cálculo”, afirmou. Segundo ele, o tema está sendo tratado com máxima prioridade dentro da associação. 

Ferreira disse que o modelo de formação do PLD é um tema tratado anualmente e que ele já foi aprimorado, mas ainda está distante do que seria o “cenário ideal”. Ele ainda informou que o conselho da Abraceel vai se reunir para fazer uma primeira grande discussão sobre o tema na próxima quinta-feira (3).

A Abraceel realizou junto à PSR Consultoria um estudo sobre os “modelos de curtíssimo prazo” para propor aprimoramento da metodologia. Segundo Ferreira, o estudo levou a nove melhorias que devem ser trabalhadas ao longo deste ano.

Oscilações devem continuar
Com o atual modelo em vigor, a tendência para o resto de 2025 é que as oscilações no PLD continuem. “[O modelo atual] impacta na volatilidade dos preços porque ele reage muito, ele fica, digamos, mais arisco. Ou seja, ele percebe uma situação climática agora e ele te dá um alerta muito mais conservador”, diz Rodrigo Ferreira.

Para além do modelo em si, a volatilidade nos preços deve persistir ao longo do ano por causa das próprias condições climáticas. A exemplo de um fevereiro atipicamente menos chuvoso, o que elevou o PLD, a expectativa é de mais oscilações nos próximos meses, segundo análise da Nottus Meteorologia.

“Ainda não dá para bater o martelo, mas, eventualmente, pode ter algumas chuvas no período seco”, afirmou Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus. Segundo o especialista, existe uma expectativa de alguma umidade entre maio e julho, o que pode mexer com o mercado de energia “dependendo de onde a chuva cair, da forma e da intensidade”.

Já a meteorologista Derisée Brandt, também sócia-diretora da Nottus, afirma que, apesar do fevereiro menos chuvoso, o período úmido como um todo foi “razoável”. Isso porque as chuvas já começaram intensas na primavera de 2024, o que compensou a queda de precipitação no final do verão. “A gente está com níveis confortáveis para passar o período seco sem susto. No entanto, ficamos na dependência do próximo período úmido”, avalia.

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