Luiz Araújo, da Agência iNFRA
O cruzamento de dados sobre acidentes em todo o país vai orientar medidas de prevenção e segurança viária. Inspirado na metodologia aplicada pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), o Ministério dos Transportes lançou nesta terça-feira (19) o Cnest (Centro Nacional de Estudos de Sinistros de Trânsito) que terá como foco identificar fatores contribuintes dos acidentes e propor adaptações mais assertivas, incluindo infraestrutura, sinalização, formação de condutores e protocolos operacionais.
A proposta é consolidar informações de diferentes bases nacionais e, a partir delas, selecionar ocorrências graves ou recorrentes para análises técnicas aprofundadas. O objetivo é permitir a identificação de padrões de risco capazes de orientar intervenções preventivas em escala nacional. A previsão é de que o Cnest produza dois relatórios anuais. As diretrizes para a operação ainda estão sendo definidas.
Um dos exemplos citados envolve um cenário hipotético na Serra de Petrópolis (RJ), trecho da BR-040 que é concedido. Mesmo após melhorias no traçado e nas condições da rodovia, o trecho continua registrando acidentes. A partir do cruzamento de informações, seria possível identificar fatores adicionais, como dificuldades enfrentadas pelos motoristas em situações de neblina intensa, permitindo a adoção de medidas mais específicas, como reforço da sinalização adequada para esse tipo de condição.
“Precisamos ter dados, evidências e conhecimento acumulado para construir políticas públicas mais eficazes de prevenção e segurança viária. O Brasil ficou um longo período sem investimentos adequados em manutenção rodoviária e agora queremos compreender, de forma mais ampla, os fatores que contribuem para os sinistros, desde a infraestrutura até aspectos humanos e comportamentais”, afirmou o ministro dos Transportes, George Santoro.
O Cnest será composto por equipe multidisciplinar formada por especialistas em segurança viária, perícia, engenharia veicular, infraestrutura rodoviária e outras áreas correlatas. As análises deverão considerar fatores humanos, viários, ambientais e operacionais.
Cenipa
O modelo adotado pelo Cnest foi desenvolvido com base na experiência do Cenipa, órgão responsável pela investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos no país. O entendimento do governo é que parte da metodologia utilizada pela aviação para identificação de falhas e prevenção de ocorrências pode ser adaptada ao transporte terrestre.
O major-brigadeiro Marcelo Moreno, que lidera o Cenipa, afirmou à Agência iNFRA que a inteligência acumulada pela aviação pode acelerar os resultados no setor rodoviário. Segundo ele, o sistema aeronáutico evoluiu a partir da criação de mecanismos que incentivam profissionais a relatar falhas operacionais e situações de risco sem receio de punições.
“Temos capacidade de avaliar quais medidas podem ser mais ou menos efetivas”, afirmou Moreno. O brigadeiro explicou que pilotos, mecânicos e outros profissionais da aviação passaram, ao longo dos anos, a registrar desde falhas técnicas até “quase acidentes”, permitindo a identificação antecipada de tendências e vulnerabilidades operacionais.
Integrado ao Pnatrans (Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito), o Cnest seguirá os princípios de Visão Zero e Sistemas Seguros, alinhados à meta de redução de mortes e lesões no trânsito até 2030. Após a publicação da portaria, o Ministério dos Transportes deverá definir o diretor e o coordenador do centro, além da composição do grupo técnico responsável pela elaboração da metodologia que será aplicada nas análises.






