Marisa Wanzeller e Lais Carregosa, da Agência iNFRA

A CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica) projeta para 2028 a substituição dos atuais modelos computacionais utilizados na formação do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), referência no mercado livre de energia. O diretor-presidente interino da Câmara, Ricardo Simabuku, disse à Agência iNFRA que a expectativa é de que os códigos em desenvolvimento sejam mais aderentes à realidade do mercado, melhorando o sinal de preço.
Os modelos construídos em conjunto com o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) foram disponibilizados para os agentes do mercado para testes nesta quinta-feira (8). A ideia é que os programas passem por um período sombra ao longo de 2027 e sejam homologados pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica).
“Até que o novo modelo possa ser utilizado como modelo oficial, todos têm que ter certeza. É importante que todos tenham a confiança de que ele dará os melhores resultados e a melhor resposta para tudo aquilo que o mercado todo deseja, que é ter realmente um modelo que dê sinais de preço”, afirmou Simabuku.
A proposta dos órgãos é substituir os atuais modelos – Newave e Decomp – na formação de preços de longo e médio prazo. O curto prazo é impactado pelo Dessem, que ainda deve permanecer no mercado. Entre 2028 e 2029, a CCEE também espera avançar em uma modelagem híbrida, que mantenha a influência dos códigos de programação, mas incorpore a oferta de energia na precificação.
“São aprimoramentos graduais que têm que ser feitos, logicamente para o mercado ir entendendo e ajustando os seus modos de trabalhar também para que essa formação de preços de modo híbrido possa ser implementada”, disse.
No início deste ano, o MME (Ministério de Minas e Energia) abriu uma consulta pública com a proposta de um modelo de preço por oferta, em que os agentes declaram quantidades e preços que estão dispostos a produzir ou consumir. O resultado da consulta ainda não foi divulgado.
Código aberto
Os códigos utilizados atualmente foram desenvolvidos na década de 90 e são de propriedade do Cepel (Centro de Pesquisas de Energia Elétrica), instituição que pertence à Axia Energia, privatizada em 2022. Para a gestão dos novos, o MME deverá publicar uma portaria delegando a responsabilidade à CCEE, ONS e EPE, conjuntamente.
“Esse também é um dos motivos que acelerou a busca [por novos modelos]. O Cepel era uma empresa, digamos, do público. E, com a privatização da Eletrobras, ele passou, logicamente, a ser privado. E essa aqui é uma das necessidades”, destacou. O diretor-presidente também lembrou que, além de influenciar no preço da energia, os modelos também são utilizados pelo ONS para planejar a operação do sistema.
Simabuku aponta que os programas foram escritos em uma linguagem de programação que já está desatualizada e que a própria CCEE não tem acesso ao código-fonte dos modelos, o que dificulta as atualizações.
Além disso, os agentes cobram que o código-fonte seja disponibilizado publicamente, o que está sendo proposto para os novos modelos. “Um código aberto permite que todos possam contribuir e analisar os modelos. Todos que queiram podem acessar e propor melhorias”, disse.
Mudanças na matriz
A CCEE identificou que as principais críticas do mercado aos modelos vigentes decorrem da maior complexidade da matriz elétrica atual em comparação a quando os códigos foram criados. “[O sistema] era praticamente hídrico, pouco térmico e não tinha tanta eólica e solar. Ao longo do tempo, para representar essas fontes, a gente sempre fez a modelagem ajustando para caber a representação de alguma maneira, tanto das novas fontes, mas também as restrições hidráulicas que foram surgindo, por conta de questões ambientais”, explicou Simabuku.
Agora, o novo modelo pretende trazer mais facilidade para representar as diversas fontes e também as restrições. A princípio, a influência dos cenários hidrológicos nos modelos computacionais permanecerá a mesma. Contudo, com um espaço mais dinâmico para ajustes. “Eu diria que essa possibilidade de todos participarem do desenvolvimento desse modelo vai permitir que a gente busque soluções e que o próprio mercado possa trazer soluções”, afirmou.





