Fábio Rogério Carvalho*
Imagine uma família dividida pela América do Sul: uma filha em São Paulo, pais em Buenos Aires, irmão em Santiago, avós em Assunção. Aquilo que deveria unir – a relativa proximidade geográfica – é transformado em distância por tarifas proibitivas, horários limitados e opções escassas de voos.
Por quê?
Porque, até agora, os céus da América do Sul têm fronteiras. Linhas invisíveis, mas reais. Barreiras regulatórias que protegiam, mais que mercados, a ineficiência. E construíam ilhas sem o menor sentido de conexão.
Mas o cenário pode mudar. Brasil, Argentina, Chile e Paraguai assinaram o Memorando para o Alas (Acordo de Liberalização Aérea Sul-Americana). Aquilo que parece um documento técnico é, na verdade, uma mensagem simples: o céu único não é luxo. É necessidade.
Remover fronteiras aéreas não é apenas quebrar muros fictícios de um mapa. É facilitar a integração regional da América do Sul, ampliar relações econômicas, permitir que turistas descubram que não precisam cruzar oceanos quando tantas atrações incríveis podem ser vividas aqui mesmo.
Mas há mais.
O Alas traz algo que muda o jogo: competição real. Quando o céu é aberto, novas companhias aéreas enxergam oportunidade. A concorrência não apenas reduz preços – expande oferta. Mais voos. Mais horários. Mais rotas. Aquela família dividida entre quatro países agora tem escolhas.
Tenho dito com frequência: quem domina as rotas domina a prosperidade. Desde a antiguidade, César em Roma, Gengis Khan na Mongólia, Infante Dom Henrique em Portugal, Fernando de Aragão na Espanha – tantas lideranças históricas compreenderam isso. A Europa moderna entendeu com os céus integrados. Agora, a América do Sul tem a chance de compreender.
O Grupo de Trabalho Alas tem doze meses para transformar intenção em regulação, para harmonizar certificações, para garantir que, de verdade, a 7ª Liberdade do Ar (e futuramente, as 8ª e 9ª) não seja apenas lei, mas prática cotidiana.
É ambicioso? Sim. Mas não impossível. A União Europeia, a África, a Oceania já provaram que funciona.
O céu único sul-americano não é um conceito sofisticado. É simplesmente isto: reconhecer que fronteiras aéreas não fazem sentido quando pessoas, oportunidades e sonhos não reconhecem fronteiras.
Quem entender que céus abertos aproximam vidas, e geram riqueza nesse processo, estará do lado certo da história.
A pergunta não é mais: “Conseguimos integrar nossos céus?”.
A pergunta é: “Quando reconheceremos que nossas ilhas são um continente?”.
*Fábio Rogério Carvalho é presidente da ABR (Aeroportos do Brasil).
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.



