Gabriella Franco, para a Agência iNFRA
A gestora Pátria e o consórcio Pernambuco Saneamento – formado pela BRK e Acciona – venceram, nesta quinta-feira (18), os leilões dos dois blocos de concessão de saneamento do governo de Pernambuco, realizados na B3, em São Paulo (SP). Os contratos abrangem duas microrregiões de água e esgoto: a MRAE1, composta por 24 municípios do Sertão, incluindo Petrolina, e que tem projeção de investimentos de R$ 2,9 bilhões; e a MRAE2, que reúne 150 municípios, como a capital Recife e Fernando de Noronha, e receberá R$ 15,4 bilhões.
Na disputa pelo bloco Sertão, o Pátria apresentou desconto de 5% sobre a tarifa básica e outorga de R$ 720 milhões. Também concorreram a Aegea, com deságio de 3% e outorga de R$ 87 milhões, e a VPE Participações Societárias S.A., com desconto de 5% e outorga de R$ 197 milhões.
Com a conquista, o Pátria fará sua estreia no setor de saneamento. “Oito anos atrás, fizemos uma estreia no setor de rodovias de maneira independente, como fizemos hoje. Embora sejamos o único investidor no projeto, a concessão é fruto de estudos com assessores que entendem muito do negócio e de conversas intensas com os prestadores de serviço que vão colocar esse contrato de pé”, disse à imprensa Thiago Bronzi, sócio da gestora.
Segundo ele, a empresa já dispõe dos recursos necessários para equacionar a dívida de curto prazo e avalia, para o longo prazo, uma “gama” de fontes de financiamento possíveis.
Já para o bloco MRAE2 (Pajeú), o maior do certame, apenas o consórcio formado pela BRK e Acciona apresentou proposta, com desconto de 5% e outorga de R$ 3,5 bilhões. A BRK já opera uma PPP (Parceria Público-Privada) de esgoto com a Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento) desde 2013, atendendo a região metropolitana do Recife.
A Acciona, por sua vez, vem ampliando sua presença no setor de água e esgoto e atua no Brasil em grandes projetos de mobilidade, como a Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo, além de infraestrutura portuária (Porto do Açu) e rodoviária (Rodoanel Norte).
O CEO da BRK Ambiental, Alexandre Thiollier, afirmou que o consórcio foi estruturado para garantir maior competitividade na disputa, que acabou tendo apenas uma proponente. Segundo ele, as fontes de financiamento devem ser definidas nos próximos meses, para que as obras se iniciem “o mais rápido possível”.
Mercado e governança regulatória
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, afirmou que o leilão marca uma “nova era” para o estado. Segundo ela, a reestruturação da agência reguladora será fundamental para a fiscalização da execução dos contratos, em referência ao PL (Projeto de Lei) 3.678/2025, aprovado nesta semana pela Alepe (Assembleia Legislativa de Pernambuco), que reestrutura a Arpe (Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados), com a criação de 105 cargos e mudanças nas regras de progressão dos servidores.
A entrada de novos players no setor foi avaliada como positiva pela diretora-executiva da Abcon Sindcon (Associação e Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto), Christiane Dias Ferreira. “Quando há vontade política e os projetos são bem estruturados, os leilões acontecem. O resultado de hoje mostra o apetite das empresas por diferentes modelos de concessão, regiões do país e desafios”, disse à Agência iNFRA.
Pernambuco aprovou a criação das duas microrregiões em 2021 para atender o marco legal do saneamento, que cobra a universalização dos serviços até 2033. No estado, o atendimento de água é de cerca de 86%, enquanto o de esgoto alcança apenas 34,2%, além de perdas na distribuição de água de 48%, segundo dados de 2022 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento.
A modelagem foi feita com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o projeto é considerado um dos maiores de saneamento colocados no mercado recentemente.
Recursos
Ao todo, as concessionárias pagarão cerca de R$ 4,25 bilhões em outorga. Pelo modelo definido pelo estado e pelas microrregiões, 60% do valor mínimo da outorga serão destinados a uma conta de universalização, e os 40% restantes aos municípios, que deverão aplicar os recursos obrigatoriamente em infraestrutura, preferencialmente em ações de saneamento.
Do ágio ofertado – valor acima da outorga mínima –, 50% ficarão com a Compesa, que seguirá responsável pela produção de água tratada. Outros 25% serão destinados à conta de universalização, e os 25% restantes, aos municípios.
O edital prevê investimentos totais de R$ 19,2 bilhões ao longo dos contratos, com prazo de 35 anos. Desse montante, a MRAE2 deve receber R$ 6,35 bilhões em obras de distribuição de água e R$ 9 bilhões em coleta e tratamento de esgoto, totalizando R$ 15,4 bilhões.
Já a MRAE1 tem investimento previsto de R$ 2,9 bilhões, sendo R$ 1,05 bilhão em água e R$ 1,9 bilhão em esgoto, além de aporte de R$ 453 milhões do concessionário para obras no sistema de produção de água, incluindo a ampliação do sistema adutor do Oeste e a implantação de um sistema integrado entre Petrolina, Afrânio e Dormentes.
Copasa
Em Minas Gerais, o projeto de desestatização da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) avançou nesta semana. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou o PL Estadual 4.380/2025, que autoriza a privatização da estatal.
Em comunicado, a Copasa afirmou que, com a aprovação, o projeto segue agora para apreciação do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), sendo que a efetivação da desestatização ainda depende das demais etapas e trâmites previstos. A expectativa do Executivo local é de viabilizar o leilão no primeiro semestre de 2026. O formato final da privatização ainda será divulgado, já que Minas optou por tomar a decisão final depois que obtivesse o aval do legislativo.
*Reportagem atualizada às 8h06 de 19/12 para inclusão de informações mais detalhadas.





