18/09/2026 | 13h00  •  Atualização: 18/09/2026 | 13h01

Seca pode elevar custo de contêiner para Manaus em 147%, diz Abac

Foto: Porto de Manaus

Vinicius Werneck, da Agência iNFRA

O custo unitário do transporte de um contêiner cheio para Manaus (AM) pode subir 147% caso haja restrições à navegação por conta de uma eventual redução de 3,2 metros no calado dos navios que pretendem chegar à capital. É o que estima um estudo divulgado nesta sexta-feira (18) pela Abac (Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem). O levantamento chega em meio às críticas da entidade à ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), que na terça-feira (15) condicionou a cobrança da LWS (Low Water Surcharge), conhecida como “taxa de seca”, à homologação individual da agência.

Elaborado a pedido da associação pela A&M Infra, da Alvarez & Marsal, o documento alega que, nesse cenário, a capacidade de transporte do setor cairia 55%. Já com uma restrição um pouco menor, de dois metros, a redução da capacidade é estimada em 35%, com aumento de 63% no custo unitário do transporte do contêiner. Em entrevista à Agência iNFRA, o diretor-executivo da Abac, Luis Resano, já havia criticado o grau de intervenção da reguladora na cobrança da sobretaxa. “Nós achamos que eles estão interferindo demais na questão da formação do preço”, disse antes da nova medida da agência.

nova sistemática determina que a cobrança só poderá começar após homologação da agência, que vai avaliar caso a caso. Com isso, em momentos de restrições à navegação por conta da seca nos rios, as empresas de navegação só poderão cobrar a sobretaxa dos donos de carga depois de buscarem autorização individual da ANTAQ. A discussão sobre o tema ganhou ainda mais relevância em 2026, diante da previsão de que o super El Niño provoque uma queda mais acentuada no nível dos rios amazônicos, especialmente no fluxo de mercadorias para Manaus (AM), foco do estudo da Abac. 

Segundo a reguladora, a nova medida não proíbe a sobretaxa nem estabelece tabelamento, mas permite verificar a relação entre a estiagem, os efeitos operacionais, os custos extraordinários e o valor cobrado. A Agência iNFRA buscou avaliação da ANTAQ sobre as críticas da associação, mas não recebeu resposta. Em nota divulgada também na terça, a Abac afirmou que a deliberação “causou surpresa ao setor” e que a exigência de homologação engessa as empresas. “A ANTAQ não tem competência para entrar nessa questão de perguntar qual é o valor”, afirmou Resano em entrevista.

Restrições e custos
Para 2026, o diretor-executivo da associação afirmou que as empresas já esperam alguma restrição à navegação na última semana de setembro, mas torcem para que o período de seca seja menos intenso que nos dois anos anteriores. Segundo ele, as dragagens começaram em setembro, embora devessem ter sido iniciadas em agosto. “Alguma restrição vai ter, essa é a verdade”, afirmou. De acordo com a Abac, a autoridade marítima já sinalizou a possibilidade de restrições de calado no trecho Itacoatiara-Manaus.

O estudo da A&M Infra destaca que, em outubro de 2023, a movimentação de contêineres em Manaus caiu 85% em relação a agosto daquele ano, período de pico, após a profundidade nos pontos críticos inviabilizar por semanas a passagem de navios. Em novembro, a queda foi de 79%. Em 2024, mesmo com o uso de píeres flutuantes em Itacoatiara – usados para passar a carga dos navios para balsas, evitando assim o desabastecimento de Manaus – a movimentação recuou 55% em outubro e 41% em novembro, na comparação com julho, também período de pico. “Em 2023, nós ficamos 45 dias sem poder ir a Manaus. Foram quase 50 mil contêineres que não foram movimentados”, lembrou Resano.

Na simulação, o documento afirma que a operação pelo píer flutuante reduz em 41% o volume de contêineres cheios destinados a Manaus e eleva em 123% o custo unitário. O resultado considera a menor produtividade por atracação, o afretamento de barcaças e o transbordo adicional, lembrando que a infraestrutura pertence a terceiros e não está sob controle integral dos armadores.

Resano disse que o estudo foi protocolado e apresentado à SRG (Superintendência de Regulação da agência), que desde terça-feira tem competência para homologar a cobrança de sobretaxa de seca no ciclo hidrológico de 2026 e nos seguintes. Ele defendeu que a ANTAQ agora use o documento para reavaliar os critérios da LWS, adotando limites proporcionais à redução do calado. Para a Abac, o foco das políticas públicas deve ser a infraestrutura, o monitoramento e a previsibilidade da navegação.

17,7 metros
Resano também criticou a cota de 17,7 metros na régua do Rio Negro, no Porto de Manaus, como referência para a cobrança. Segundo ele, as embarcações podem enfrentar restrições de carregamento mesmo acima desse nível. “O primeiro ponto é mostrar que 17,7 não é uma referência adequada”, disse. Apesar da deliberação publicada na terça pela reguladora, o patamar foi mantido para 2026 como referência para antecipar a homologação tácita da sobretaxa, desde que atendidos os demais requisitos.

Porém, o estudo afirma que, embora haja correlação entre o nível medido em Manaus e a profundidade nos pontos críticos, podem ocorrer defasagens temporais, comportamentos diferentes em eventos extremos e alterações no leito do rio. A métrica apontada como tecnicamente adequada é o CMR (Calado Máximo Recomendado), definido pela Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental com base em todo o trajeto até o porto.

Pelas correlações do levantamento, quando a régua marca 17,7 metros, o CMR estimado é de 10,51 metros, cerca de um metro abaixo dos 11,5 metros da Barra Norte. Ou seja, segundo o documento, o próprio parâmetro já corresponde a uma condição de navegabilidade restrita. O CMR, porém, é divulgado com apenas cinco dias de antecedência, devido à imprevisibilidade das variações do rio.

Operação e previsibilidade
As restrições também afetam a programação dos serviços regulares de cabotagem. Segundo o estudo, uma operação típica para Manaus tem ciclo de 28 dias, regularidade semanal e exige a alocação de quatro navios. O tempo de trânsito da carga entre Santos (SP) e a capital amazonense é de 14 dias, e o carregamento precisa ser planejado com antecedência, quando ainda há incerteza sobre o calado permitido na chegada. Por isso, as empresas adotam margem de segurança. Atrasos ou omissões de uma escala podem comprometer as janelas dos portos seguintes e afetar a programação por semanas ou meses.

Resano afirmou que, em situações mais severas, o problema deixa de ser apenas financeiro. “Chega um momento em que, se o rio baixa muito, nós ficamos sem condições operacionais, porque o navio, para poder passar, tem que ficar tão leve que a gente começa a ter problema de governo: o leme não funciona direito, a hélice fica para fora e as bombas perdem a aspiração”, disse. Segundo ele, nesses casos, a interrupção ocorre por razões operacionais, e não por uma decisão comercial de deixar de atender Manaus.

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