George Santoro*
Durante décadas, o debate sobre infraestrutura no Brasil foi dominado por uma pergunta recorrente: de onde virão os recursos? Hoje, a pergunta correta é outra: como atrair o capital que já existe no mundo.
O mundo vive hoje uma abundância de capital de longo prazo em busca de ativos seguros e previsíveis. Fundos soberanos já administram mais de US$ 15 trilhões, os maiores investidores institucionais direcionaram cerca de US$ 796 bilhões para infraestrutura em 2025, e os ativos globais dedicados ao setor já alcançam aproximadamente US$ 1,5 trilhão, com tendência de expansão acelerada.
Nesse cenário geopolítico marcado por incertezas e busca por segurança, países com estabilidade institucional, demanda abundante por infraestrutura, projetos bem estruturados e segurança jurídica tornam-se destinos naturais para esse capital.
Nunca houve tanto dinheiro disponível para investir em ativos de longo prazo. Fundos de pensão e fundos soberanos administram volumes históricos de recursos e enfrentam um desafio estrutural: encontrar investimentos estáveis, previsíveis e protegidos contra inflação e volatilidade. Infraestrutura tornou-se, nesse cenário, uma das classes de ativos mais desejadas do sistema financeiro global.
O que define para onde ele vai são os instrumentos. Nos últimos anos, investidores institucionais passaram a assumir papel central no financiamento da infraestrutura global, tornaram-se protagonistas em projetos de energia, transporte e logística em diversos continentes. Esses investidores não buscam ganhos rápidos. Buscam estabilidade, previsibilidade e retorno consistente ao longo de décadas. Administram recursos de aposentadorias e reservas soberanas e, por isso, privilegiam ativos reais capazes de gerar fluxo de caixa estável e proteção patrimonial no longo prazo.
Esse movimento não é conjuntural. É estrutural. A combinação de envelhecimento populacional nas economias desenvolvidas, aumento da poupança institucional e necessidade crescente de financiamento de ativos físicos criou uma dinâmica no mercado financeiro global. Fundos de pensão precisam pagar benefícios por décadas. Fundos soberanos precisam preservar riqueza intergeracional. Infraestrutura atende exatamente a essas necessidades.
Ao mesmo tempo, o mundo vive uma fase de reorganização geopolítica. Tensões regionais, mudanças nas cadeias produtivas e a busca por segurança energética tornaram os investimentos em infraestrutura ainda mais estratégicos. Em um ambiente de incerteza, investidores passaram a valorizar ativos tangíveis, contratos de longo prazo e jurisdições com regras claras.
É nesse cenário que o Brasil volta a ocupar posição relevante, pois, no atual governo, o país ampliou acordos comerciais, restabeleceu canais de diálogo econômico e institucional com dezenas de parceiros estratégicos e retomou presença ativa em fóruns internacionais. Essa reaproximação recolocou o Brasil na rota do capital global. Investidores buscam muito além de indicadores econômicos bons, mas também posicionamento geopolítico que minimize riscos. O Brasil possui uma vantagem singular nesse contexto.
Não participa de conflitos armados internacionais, mantém tradição diplomática de equilíbrio e diálogo e ocupa posição central na segurança alimentar do planeta. Em um mundo marcado por tensões e rupturas logísticas, poucos países combinam estabilidade institucional, disponibilidade de recursos naturais e capacidade produtiva em escala global. Essa combinação transforma o Brasil em um parceiro confiável para o investimento de longo prazo.
Hoje, países não disputam apenas comércio ou tecnologia. Disputam capital.
O Brasil reúne essas condições e temos não só a maior, mas a mais atrativa carteira do mundo de concessões rodoviárias e ferroviárias. Entretanto, para capturar esse fluxo de recursos, será cada vez mais importante fortalecer o entendimento, dentro e fora do país, sobre os instrumentos de financiamento disponíveis, especialmente as debêntures de infraestrutura que podem ter emissões internacionais
Elas podem assumir papel central na estratégia de desenvolvimento nacional. Elas não são apenas um mecanismo de financiamento. Podem ser parte de uma política econômica, pois permitem mobilizar poupança privada externa, atrair investidores estrangeiros e reduzir a dependência de recursos públicos e de nacionais para financiar ativos essenciais ao crescimento econômico.
Um exemplo recente ajuda a entender a mudança que está em curso. A empresa Arauco estruturou uma emissão de debêntures para financiar o projeto ferroviário associado ao Projeto Sucuriú, no Mato Grosso do Sul, no valor de R$ 1 bilhão, com cerca de 45 quilômetros de extensão, conectando a nova planta industrial à malha ferroviária nacional. Trata-se de um projeto intensivo em capital, de horizonte longo e com impacto direto na competitividade logística da produção brasileira.
Os benefícios das debêntures de infraestrutura são amplos e tangíveis. Elas permitem alongar o prazo do financiamento, diversificar as fontes de recursos, estimular o desenvolvimento do mercado de capitais e gerar entrada de divisas no país. Ao reduzir a pressão sobre o orçamento público, liberam espaço fiscal para outras políticas públicas e fortalecem a sustentabilidade das contas públicas no longo prazo.
O próximo passo é ampliar o volume de emissões, consolidar a participação de investidores internacionais e transformar o mercado de capitais externo em uma fonte permanente de financiamento da infraestrutura nacional.
*George Santoro é ministro dos Transportes.
As opiniões dos autores não refletem necessariamente o pensamento da Agência iNFRA, sendo de total responsabilidade do autor as informações, juízos de valor e conceitos descritos no texto.




