27/05/2026 | 11h01  •  Atualização: 27/05/2026 | 12h21

Distribuidoras veem nova escalada de preços do diesel no 2º semestre

Foto: Domínio Público

Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA

Distribuidoras de combustível e especialistas já preveem uma nova disparada no preço do diesel no segundo semestre, devido a um mercado mais apertado nos fundamentos globais de oferta e demanda, embora descartem desabastecimento no Brasil – o país importa entre 20% e 30% do volume que consome. Essa nova alta, afirmam, pode exigir subvenção ainda maior e um retorno da Petrobras à importação do combustível. À Agência iNFRA, fontes do governo e da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) negaram qualquer instabilidade no horizonte.

O gerente de Desenvolvimento de Negócios da consultoria Argus, Amance Boutin, afirma que nesses quase três meses de guerra no Oriente Médio, embora os preços do diesel importado estejam bem acima do registrado em anos anteriores (entre 60% e 80%), até aqui o mercado tem experimentado estabilidade na oferta do produto.

Isso, diz Boutin, acontece graças aos estoques de petróleo e combustíveis formados antes do conflito, condição que vai começar a se esgotar no segundo semestre, justamente quando o consumo do produto aumenta para transporte de safras agrícola, como no Brasil, e formação de estoques de inverno do hemisfério norte, onde o combustível é usado para calefação. Para Boutin, isso vai levar a aumentos ainda maiores de preço e alguma destruição na demanda por diesel no mundo, o que ainda não aconteceu neste ano.

“Havia muito petróleo e combustível estocado em terra e na água [em navios]. Por isso não houve quebra de abastecimento no mundo e tivemos alguma mitigação da alta de preços. Mas isso está acabando rápido. É provável que, no segundo semestre, alguma ponta da demanda, abastecimento rodoviário ou aquecimento, tenha de ceder [em consumo]”, diz o especialista.

O consultor de Gerenciamento de Risco da StoneX, Thiago Vetter, concorda e, para além da formação dos estoques de inverno do hemisfério norte, que se intensifica no quarto trimestre, mas influencia preços meses antes, acrescenta como vetores para o cenário de dificuldade questões internas à Rússia, país cujo diesel domina o mercado brasileiro desde meados de 2023. Em abril, o Brasil importou 1,2 bilhão de litros de diesel, dos quais 1,1 bilhão de litros, mais de 90%, veio da Rússia, segundo dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).

“Eles [russos] também têm uma safra relevante a partir do meio do ano e um calendário mais intenso de paradas de manutenção em refinarias, o que reduz a produção”, acrescenta Vetter.

Declarações do diretor de trading da Ream (Refinaria da Amazônia, do grupo ATEM), Rafael Valim, na conferência Argus Rio Crude, que aconteceu semana passada, no Rio de Janeiro, vão no mesmo sentido. O executivo define a possível redução de produto russo como um “grande desafio”.

“Os estoques russos já estão muito baixos e a gente já viu, no passado, o governo russo proibindo exportações, especificamente ali em setembro e outubro, e é provável que a gente veja isso acontecendo de novo”, diz Valim

No mesmo evento, a gerente sênior de trading da Ipiranga, Milena Mansur, também externou preocupações com o segundo semestre. “A gente tem uma preocupação com o segundo semestre. Até então o Brasil teve poucas compras do Golfo americano e muito produto russo chegando nesse início de ano, um período de baixa demanda doméstica na Rússia. Mas, quando isso virar, e eles tiverem menos produto disponível para o Brasil, o que eu não acredito que vai ser em junho, mas em julho e agosto, que tendem a ser meses mais secos [sem oferta], a gente pode passar algum tipo de soluço”, afirma Milena.  

Sem falta, mas a preços altos
Para os executivos das distribuidoras, o mercado mais apertado, com menos diesel russo na mesa e maior demanda de outros países com estoques zerados ou em baixa não deve levar à falta de diesel no Brasil, mas sim a um encarecimento das cargas com possível repercussão nos preços finais.

Essa dinâmica, dos preços de importação mais altos, pressiona a precificação da Petrobras. A defasagem entre os preços da estatal e o chamado PPI (preço de paridade de importação) já é considerada alta, desestimulando a importação por agentes menores, e pode ficar ainda maior nos próximos meses.

Na terça-feira (26), o indicador Argus para cargas de diesel russo que chegam ao Porto de Itaqui, no Maranhão, ficou em R$ 4,69 por litro, enquanto o preço Petrobras no mesmo local é de R$ 3,54 por litro, diferença de R$ 1,15 por litro ou 32,4%. Segundo a Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), a defasagem atual entre o PPI do diesel vindo do Golfo do México (EUA) e o produto Petrobras é de 36% ou R$ 1,30 por litro. Confirmadas as previsões sobre o segundo semestre, essa diferença tende a aumentar.

“Não acho que vá faltar diesel, o que vai acontecer é que, para virar [reorientar] alguns navios que estavam indo para outros destinos, o Brasil vai ter que pagar um prêmio para complementar o line-up no nível da demanda”, diz a gerente da Ipiranga.

Valim, da Ream, afirma que, se a guerra não acabar restabelecendo um fluxo mínimo no estreito de Ormuz, é provável que o segundo semestre seja marcado por um “prejuízo muito alto no segundo semestre” para o Brasil e o mundo, sobretudo quando começar a “corrida” de construção de estoques para o inverno no último trimestre. “Isso pode ser bem perigoso, mas eu ainda não acredito em falta de produto”, diz.

Petrobras
Esse também é o prognóstico dos analistas ouvidos pela Agência iNFRA caso a guerra no Oriente Médio persista. Boutin e Vetter descartam desabastecimento no Brasil não só em função da capacidade das grandes tradings nacionais, que pertencem às três grandes distribuidoras do país (Vibra, Ipiranga e Raízen) e têm aumentado importações. A Ipiranga, disse Milena, chegou a dobrar as cargas importadas em abril, de 150 mil para 300 mil metros cúbicos.

Eles também citam a atuação da Petrobras: a estatal ampliou a produção interna de diesel, com FUT (fator de utilização total) das refinarias acima da capacidade máxima, o que restringe a contaminação dos preços internos pelos aumentos do produto estrangeiro, e já admite uma volta à importação de diesel no meio do ano.

No mix de soluções que pode atenuar a pressão sobre os preços no segundo semestre, Boutin, da Argus, lembra que o governo pode aumentar o teor de biodiesel no diesel B para atenuar o preço final do combustível e reduzir a dependência do país às importações do produto fóssil.

Este mês, durante a teleconferência com analistas sobre o resultado financeiro do primeiro trimestre, a diretora executiva de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, Angelica Laureano, deixou a porta aberta para a retomada das importações de diesel. “Para os meses de abril e maio não se identificou a necessidade de importação. Em junho, quando começa a época da safra e o aumento da demanda é crescente, provavelmente teremos de importar”, disse Angélica na ocasião.

Após o estremecimento com o Planalto em abril, devido a um leilão de GLP (gás de cozinha) com preços finais muito acima da tabela em momento de crise, o que levou à saída do antecessor de Angélica Laureano, a Petrobras parou de usar esse instrumento dos leilões para repassar os preços mais altos da parcela importada de qualquer combustível. E, para evitar desequilíbrios financeiros, também não tem importado diesel, buscando fornecer para a base de clientes a partir de produção própria. A sustentabilidade dessa estratégia vai ser testada agora, no segundo semestre, ante o aumento da demanda.  

Valim, da Ream, reiterou que a preocupação do mercado com o segundo semestre é “muito real” e que, por isso, é possível que a estatal tenha de atuar de “forma diferente” da qual vem adotando até aqui, ou seja, sem realizar importações.

Subvenção
Um terceiro executivo do setor, ouvido sob condição de anonimato, acrescenta um eventual aumento das subvenções aos produtores e importadores na lista de instrumentos para atenuar a pressão de preços esperada para a segunda metade do ano. Ele observa porém que, mais do que aumentar, ainda é preciso estimular as empresas a aderirem e aplicarem a subvenção, já que parte das regras ainda não estão claras e os primeiros pagamentos aos agentes que toparam o programa ainda não foram feitos, afugentando o mercado.

Na segunda-feira (25), em evento na sede da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou a jornalistas que o programa de subvenção do diesel pode se estender em função da perpetuação da guerra e não descartou aumento de valores. 

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