16/06/2026 | 16h05

Baterias: BNDES vai equalizar custo local; leilão atrai estrangeiros

Foto: Enel Green Power

Gabriel Vasconcelos, da Agência iNFRA

O diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Nelson Barbosa, afirmou nesta segunda-feira (15) que o pacote de crédito facilitado para baterias que atendam às condições de conteúdo local do primeiro leilão do setor deixará o custo a esses agentes próximo ou igual ao de projetos importados. Esse financiamento será feito via Fundo Clima.

Esse menor custo de capital, disse o executivo, já tem despertado o interesse do mercado, que pode acessar financiamento ainda mais vantajoso se, além de usar serviços e componentes nacionais, de fato instalar plantas e desenvolver tecnologia de baterias no Brasil, onde contarão com a demanda de leilões e oferta de matéria-prima (minerais críticos). Segundo o BNDES, empresas europeias e chinesas, além da brasileira WEG já têm se movimentado nesse sentido.

“Hoje a gente viu aqui que a diferença de custo varia de 20% a 40% entre projetos sem e com conteúdo local. E aí quando a gente faz com a taxa de juros do Fundo Clima e compara o que seria na taxa de juros de mercado hoje, essa diferença acaba, fica igual”, disse Barbosa.

O Fundo Clima, detalha o diretor, financia a uma taxa de 6,5% ao ano mais um spread (diferencial) que depende do risco do agente, totalizando na faixa de 9% a 10% ao ano. “Na taxa de mercado, se eu botar a Selic mais proteção cambial, isso vai para algo próximo de 20% ou mais”.

Barbosa falou a jornalistas na saída de seminário fechado sobre o tema na sede do BNDES, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu, além de representantes do banco, do governo e de órgãos reguladores, executivos de empresas privadas interessadas no certame.

Sistemas de baterias parcialmente fabricados no Brasil vão disputar um primeiro leilão marcado para 2 de dezembro. Dois dias depois, em 4 de dezembro, o que restar da demanda em gigawatts previamente fixada pelo MME (Ministério de Minas e Energia) será disputado por projetos sem compromisso de fabricação local, ou seja, importados. Só acessa o financiamento mais barato do BNDES quem cumprir a regra de conteúdo local. A ideia do governo e do banco público é que toda a demanda ou a maior parte seja arrematada na primeira data.

“O problema não é a produção de baterias [no país], o problema são as condições financeiras que o Brasil tem hoje, mais desvantajosas em relação à produção no exterior. O problema não é a indústria, não é o setor de energia, o problema está na taxa de juros nesse momento”, continua o diretor do BNDES

O Fundo Clima tem, ainda esse ano, R$ 27 bilhões para financiar projetos como os de bateria, voltados ao leilão. Esse montante pode chegar a R$ 34 bilhões, a depender de aprovação do governo federal e do Congresso Nacional, diz o diretor do BNDES. A expectativa é que, no ano que vem, esse montante seja reforçado para dar conta de novos leilões de baterias. “O Chile contratou 8 GW. Isso dá uma ideia da magnitude do que a gente tem pela frente”, disse.

Inovação
O diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon, diz que as facilidades de crédito do BNDES ainda vão além para quem pretende se instalar no Brasil e desenvolver produtos dessa cadeia de baterias no país. Isso porque, além do Fundo Clima, essas empresas ainda podem acessar a linha de crédito ‘Mais Inovação’, ainda mais barata, com taxas que somam a TR (Taxa Referencial), hoje em torno de 2% ao ano, mais spreads.

“As empresas têm nos procurado para fazer algum desenvolvimento de BESS aqui no Brasil, para implantação de fábricas aqui, como é o caso da WEG, que é uma empresa nacional. Ela já demonstra a capacidade de entregar fortemente para esse edital que está vindo, e vai poder aumentar a capacidade dela”, diz Gordon.

Segundo o diretor, empresas europeias e chinesas, em observância às exigências de conteúdo local do primeiro leilão, já têm demonstrado interesse de se instalar no Brasil.

“As empresas europeias estão querendo vir para o Brasil porque não querem mais ficar apenas produzindo só na Europa e perceberam que é necessário centralizar a produção delas e desenvolver as tecnologias aqui. O Brasil hoje é a bola da vez [em sistemas de baterias], seja porque vai ter o leilão, seja porque também tem os minerais críticos que eles precisam para ganhar valor”.

Segundo os executivos do BNDES, já há “informações” de empresas chinesas se associando com empresas brasileiras que já têm código Finame. “Isso é um forte indicativo do apetite dessas empresas pelo primeiro leilão”, emenda Nelson Barbosa.

Demanda
Ao ser questionado sobre a demanda dos leilões de dezembro, Barbosa disse que isso é uma atribuição do governo, mas que tem cooperado com os ministérios no âmbito do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Ainda assim, ao resgatar o exemplo chileno (8 GW), ele disse que a expectativa é fazer “muito mais do que isso” com leilões futuros.

“Esse é o primeiro leilão. Então vamos começar com o pé no chão, não é? Começa andando e depois a gente corre. Mas eu acho que o potencial é bem grande. Então, com certeza haverá outros. Tem que resolver o leilão da potência, depois vai ter o leilão da bateria. A partir desse primeiro haverá outros e a escala vai ser bem maior do que no Chile”, disse.

Conteúdo Local sem polêmica
Item inegociável de governo petistas e normalmente criticado pelos agentes, o porcentual de conteúdo local mínimo e as regras para acesso a financiamento do BNDES não têm sido alvo de reclamações desta vez, diz Barbosa. Segundo ele, os atributos de “progressividade e flexibilidade” do BNDES para conteúdo local estariam sendo elogiados. Em suas palavras, o Banco busca repetir o caso do sucesso do financiamento de aerogeradores parcialmente ou totalmente fabricados no país.

Haverá, diz ele, possibilidade de escolha de etapas ou itens a serem executados no Brasil e um regime de progressão das exigências. “É uma escadinha. Ele começa pequeno e vai crescendo. Tem maneiras de cumprir esse conteúdo local com várias atividades e uma mesma empresa pode cumpri-lo internalizando diferentes atividades. O mercado vai resolver isso. Não precisa, por exemplo, produzir a célula de bateria imediatamente. Tem que montar a bateria aqui até 2028. Mas os componentes, e como você vai fazer isso, podem variar”, afirmou Barbosa.

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